Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

30 boas razões _ XXI.jpeg

 

(XXI) PORTUGAL DE J. DINIS E DE CESÁRIO

 

Tão diferentes, tão próximos. Ambos morreram prematuramente, com 31 anos de idade, da mesma enfermidade. Não se conheceram, um era médico no Porto, o outro empregado comercial em Lisboa. Vitimou-os a terrível tuberculose – doença incurável e fatal à altura, que dominou os dramas do Romantismo. O romancista e o poeta protagonizaram o terrível destino que dominava o seu tempo. A leitura de ambos, apesar das profundas distâncias, corresponde a compreendermos a circunstância em que viveram.

Júlio Dinis (1839-1871) é um autor maior, profundamente influenciado pela melhor literatura britânica. Não é possível conhecer a sociedade portuguesa do seu tempo sem ler os seus romances, onde se nota, com nitidez a coexistência da sociedade antiga, patriarcal e conservadora com as manifestações e anseios de modernidade. É o Portugal profundo que se confronta com o mundo em mudança. Numa leitura superficial, pareceria que são os fatores conservadores a prevalecer. Contudo, Júlio Dinis anuncia já a mudança, o realismo e o naturalismo. Leia-se As Pupilas do Senhor Reitor, publicado em 1866, Uma Família Inglesa, retrato da vida citadina e da pequena burguesia nascente (1868), A Morgadinha dos Canaviais, a melhor análise da vida política do constitucionalismo liberal, o ainda As Pupilas do Senhor Reitor, adaptadas com sucesso ao teatro e representadas na Trindade. Em 1869, parte para a Madeira, em busca de melhoras da doença. Em 1870, no Porto publica os Serões da Província e conclui Os Fidalgos da Casa Mourisca, cujas provas tipográficas já não acaba de rever. A leitura da obra romanesca de Júlio Dinis permite-nos lidar com uma literatura que acompanha a evolução de uma sociedade que se emancipa progressivamente pelo exercício da liberdade.

Cesário Verde representa o novo tempo. Nasceu em Lisboa, na freguesia da Madalena – a 25 de Fevereiro de 1855. Teve uma vida e uma obra brevíssimas. Por um triz, poderiam ter ficado esquecidos o seu génio poético e um sinal evidente de modernidade. Teve razão antes de tempo. E Ramalho Ortigão enganar-se-ia redondamente ao criticar “Esplêndida” (“Ei-la! Como vai bela! Os esplendores / Do lúbrico Versalhes do Rei-Sol / Aumenta-os com retoques sedutores.”) e ao aconselhar o jovem a tornar-se “menos Verde e mais Cesário”… A incompreensão foi regra na receção dos seus poemas. Esse facto amargurou profundamente o jovem poeta. Inconformista, dizendo-se praticante do “protesto franco e salutar em favor do povo”, Cesário foi um inovador sensível, inclassificável nas escolas e nos grupos. Não foi um literato profissional. Viveu entre a casa comercial do pai, a loja de ferragens da Rua dos Fanqueiros, o campo, de Linda-a-Pastora ao Paço do Lumiar, e a poesia nas horas vagas. Dirá: “Pobre da minha geração exangue / De ricos!”. A sua originalidade esteve em pôr o concreto na primeira linha da sua criação. Um dia disse: “Eu sou frio, pausado, calculista como todas as organizações criadas neste meio comercial”. No momento em que o seu amigo Silva Pinto o levou até ao Dr. Sousa Martins, já com a sentença traçada da inexorável tuberculose, disse maquinalmente ter como profissão “empregado no comércio” – mas logo pediu que fosse explicado ao médico, que era mais do que isso… O contacto com o concreto tornou-o moderno, numa sociedade de progressos materiais e de melhoramentos (“Sei só desenho de compasso e esquadro, / Respiro indústria, paz, salubridade.”). Cesário foi um citadino, um cosmopolita – “Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo”… Lisboa era uma encruzilhada de sensações, matéria-prima de “O Sentimento de um Ocidental”. Cesário abriu caminho ao século XX, quase sem se aperceber disso. Ficou para trás o lirismo superficial e pobre! Romantismo, realismo, modernismo, surrealismo – todos se encontram em Cesário: “Ah! Ninguém entender que ao meu olhar / Tudo tem certo espírito secreto”… Almada Negreiros teria pensado em Cesário ao pintar os seus painéis? Que emoção ao ouvir: “E o fim da tarde inspira-me; e incomoda! / De um couraçado inglês vogam os escaleres; / E em terra num tinir de louças e talheres / Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda”. A 19 de Julho de 1886, Cesário morre. Era o camponês que “andava preso em liberdade pela cidade”, como diria Alberto Caeiro. Em Abril de 1887, Silva Pinto publicaria “O Livro de Cesário Verde”, obra póstuma e única. O início do novo século trouxe a consagração.

Júlio Dinis retrata-nos o seu tempo e Cesário antevê, para além do imediato, o futuro…

GOM

 


>> 30 Boas Razões para Portugal no Facebook

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

30 boas razões _ XX.jpeg

 

(XX) INESGOTÁVEL CAMILO

Camilo Castelo Branco é um caso singularíssimo na língua portuguesa. Longe do repentismo ou da facilidade, estamos perante um cultor das letras que se evidenciou ao saber aliar grande talento narrativo, capacidade de evocação única e exigência de profissional, que se equiparam aos dos maiores escritores, como Dickens ou Balzac…

O biógrafo Alexandre Cabral fala, com razão, do «exemplo de um profissionalismo sem mácula, nesse estrito aspeto, que não foi ainda ultrapassado». Fialho de Almeida calculava a produção camiliana em cerca de 180 volumes e 54 mil páginas. Esse cálculo é feito nitidamente por defeito. Foi muito maior a criação do romancista. E quanto ao rigor, não devemos esquecer a sua cultura enciclopédica e o respeito dos seus contemporâneos pelas suas opiniões. Oliveira Martins retificou a primeira edição da «História de Portugal» com base nas apreciações que pedira ao mestre Camilo.

É impressionante a amplitude de conhecimentos que permanentemente cultivava e o à-vontade com que lidava com as fontes coevas. No tocante ao uso da língua, nunca se deixou deslumbrar pelos arrebiques escusados, antes ligando a clareza à diversidade vocabular, para ser fiel às particularidades e diferenças culturais. É inigualável. E não é preciso entrar em comparações com outros dos nossos melhores – Camilo é único. Aquando da prisão na Relação do Porto, no processo de Ana Plácido, D. Pedro V fez questão de visitar o romancista duas vezes, em novembro de 1860 e no final do Verão de 1861 e, como corresse a notícia de que o monarca lhe mandara oferecer dois contos de réis, Camilo apressou-se a esclarecer e a desmentir: «Eu creio que o Sr. D. Pedro V é infinitamente delicado, e só dá esmolas a quem lhas pede. Quando S. M. me fez a honra de perguntar, na cadeia, em que ocupava, respondi a S. M.: que trabalhava. Ou o Sr. D. Pedro V entendesse que eu me ocupava em chapéus de palha ou em romances, ou em caixinhas de banha, a minha posição ficava defendida para o inteligente monarca: o homem que trabalha não pede nem aceita esmolas; e, se a pedisse ao rei, julgar-se-ia tão humilhado, como se a pedisse ao ínfimo dos homens». Estava em causa a hombridade e a direitura da sua dignidade.

De personalidade marcada e feitio tantas vezes agreste, Camilo tem, na sua longa obra, severas apreciações críticas que atingem mil suscetibilidades. Houve, por isso, razões para ódios e suspeições, mas, à distância, ao lermo-lo fica-nos a grande riqueza da matéria-prima com que lida - a vida de uma sociedade marcada por diferenças profundas, que só poderiam ser retratados e compreendidos por quem tivesse capacidade de ver o tempo à luz do largo prazo… Tendo-se arrependido de alguns repentes, podemos entendê-los, para além das simplificações imediatistas…

Sendo uma referência do período romântico, Camilo está para além das classificações formais. Se “Amor de Perdição” é um paradigma da obra do grande romancista, a verdade é que encontramos sinais das novas tendências naturalistas. «Tenho sido realista sem o saber. Nada me impede de continuar». E afirma no prefácio de “Eusébio Macário”: «Eu não conhecia Zola foi uma pessoa da minha família que me fez compreender a escola com duas palavras: "É a tua velha escola com uma adjetivação de casta estrangeira, e uma profusão de ciência (…) Além disso tens de pôr a fisiologia onde os românticos punham a sentimentalidade: derivar a moral das bossas, e subordinar à fatalidade o que, pelos velhos processos, se imputava à educação e à responsabilidade" compreendi e achei eu, há vinte e cinco anos, já assim pensava, quando Balzac tinha em mim o mais inábil dos discípulos».

Jacinto do Prado Coelho considera-o «ideologicamente flutuante […] Camilo mantém-se um narrador de histórias românticas ou romanescas com lances empolgantes e situações humanas comoventes» e também diz que «o romantismo de Camilo é um romantismo em boa parte dominado, contido, classicizado» e que há ao «lado do seu alto idealismo romântico a viril contenção da prosa, um bom senso ligado às tradições e a certo cânones clássicos, um realismo sui generis, de vocação pessoal que parece na razão direta da autenticidade do seu romantismo». Isso mesmo o torna referencial.

Em «O Tempo de Camilo Anotado Ano por Ano», José Viale Moutinho, organizador da obra do romancista, com grande mestria, leva-nos a partir da vida do autor de «A Queda de um Anjo», através dos agitados acontecimentos do país. E sentimos como há um enredo romanesco, donde tudo parte, na existência atribulada de Camilo, lisboeta quase por acaso, combatente das lutas civis. Desde muito cedo, há tendência para se embrenhar em polémicas, para formular juízos severos, para criar anticorpos… Em Ribeira de Pena, em 1843, escreve e afixa na porta da matriz versos ofensivos a uma família importante da vila. Então, para salvar a pele, foge para Vilarinho de Samardã… Em 1846, devido a uma série de artigos publicados no Porto em que criticava o Governador Civil de Vila Real, é barbaramente agredido… Foge com Patrícia Emília para a cidade invicta, mas é acusado por um tio de roubo, sendo ambos presos. Com traços romanescos, porém, o tio confessará depois que era falsa a acusação, feita apenas para travar a fuga… Em 1850, sai a lume o seu primeiro romance «Anátema»… A sua criação será inesgotável.

Estes breves exemplos ilustram uma vida sentimental intensa, que culminará no caso de Ana Plácido, e numa vida familiar dramática. Este é, no entanto, o pano de fundo, de uma persistência admirável enquanto profissional da escrita. Ele confessa: «Eu inclinava o peito crivado de dores sobre uma banca para ganhar, escrevendo e tressudando sangue, o pão de uma família. A luz dos olhos bruxuleava já nas vascas da cegueira. E eu escrevia, escrevia sempre».

GOM

 

 >> 30 Boas Razões para Portugal no Facebook

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

 

(XIX) MAGISTRAL HERCULANO

 

O magistral Alexandre Herculano foi alguém que se singularizou como um português de horizontes largos, um historiador probo e moderno, fiel às provas e à ciência, fundador da historiografia contemporânea, um cidadão comprometido e exemplar.

Escritor de perfil clássico, foi dos mais dotados no manejo da língua e uma enorme figura moral – “homem de um só parecer. Dum só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer…”, da têmpera de Francisco Sá de Miranda. Ouvimos ainda os ecos da sua prosa militante: “Que o país seja governado pelo país é a nossa divisa. Como realização deste princípio, temos pugnado pela verdade do sistema parlamentar, apesar do descrédito a que a reação europeia o tem levado no continente; temo-nos esforçado por incutir aos nossos concidadãos a ideia de que só nele sinceramente respeitado pode estar a nossa marcha segura no caminho do progresso. Por isso temos pelejado contra os que, a troco de promessas de melhoramentos materiais, fecharam os olhos aos atentados dirigidos contra o dogma essencial das nossas crenças políticas. Por isso temos fulminado os escândalos, as malversações eleitorais, os diplomas de representante da nação passados por portaria, e o desprezo calculado dos princípios parlamentares erigidos em sistema pelo Governo atual” (1853).

Filho de um recebedor da Junta dos Juros e sobrinho por parte mãe de António Gil, o construtor que deu nome ao célebre Pátio onde nasceu, Alexandre Herculano é um símbolo forte do seu tempo. Estudou na Congregação do Oratório de S. Filipe Néri, nas Necessidades, e depois seguiu estudos na Aula do Comércio, não tendo tido possibilidade, como era seu desejo, de cursar na Universidade de Coimbra, por vicissitudes da guerra civil. A partir de 1829, vemo-lo a defender a causa liberal, participando na sublevação de 21 de agosto de 1831 do Infantaria 4, que o levou para o exílio, primeiro em Inglaterra e depois em França, juntando-se, em 1832, nos Açores, à causa da regência de D. Pedro. Nesse mesmo ano, desembarca na praia do Pampelido, entre os bravos do Mindelo, como Garrett. No Porto, é dispensado do serviço militar ativo, para ser bibliotecário na Biblioteca Pública e para reorganizar os fundos das livrarias monásticas, a começar em Santa Cruz de Coimbra. Na Revolução de Setembro de 1836, mantém-se fiel à Carta, que jurara, e escreve “A Voz do Profeta”, onde critica a nova situação, afirmando o seu cristianismo, contraditório não com a liberdade, mas com o despotismo, não com o novo, mas com o antigo regime, e procurando uma plataforma onde se encontrem o livre exame e a autoridade. Na redação da revista “O Panorama” (1837) e na direção do “Diário do Governo” demonstra as suas qualidades de pensador e cidadão. É um homem dividido entre o respeito da tradição e a rejeição das idolatrias. Para ele, o soldado liberal deveria hastear a cruz sobre o pendão da liberdade e tornar-se apóstolo da “fraternidade espiritual”. Em “O Pároco da Aldeia” (1844) procura conciliar as antigas formas rituais com a liberdade, o tradicionalismo e o reformismo. Concorda com a Constituição de 1838 por entender como positivo o compromisso alcançado. É o tempo da “Harpa do Crente”. D. Fernando II, seu amigo e admirador, nomeia-o diretor das bibliotecas reais da Ajuda e das Necessidades. Sob influência de Rodrigo da Fonseca, é eleito deputado pelo Porto, em 1840. Não é um orador, mas trabalha intensamente no campo do ensino popular com Vicente Ferrer do Neto Paiva. Com a restauração cartista de 1842, assume posição critica relativamente ao consulado de Costa Cabral. A sua residência da Ajuda torna-se centro de conspirações. Os anos quarenta são, no entanto, um período fecundo da sua criação literária e das suas reflexões históricas.

“Eurico, o Presbítero” é de 1844 e o primeiro volume da “História de Portugal” sai em 1846. Aí, recusa as interpretações providencialistas e encontra “a verdadeira origem da independência de Portugal” na ideia de nacionalidade, “que amadurecera e radicara nos ânimos de modo indestrutível e que sucessivamente se apoderara dos espíritos do Conde D. Henrique, de D. Teresa e do filho deles”.

A clara desafeição em relação à política de Costa Cabral por parte do próprio rei D. Fernando II leva Herculano a romper em 1850 com a neutralidade, assinando à cabeça o protesto dos intelectuais portugueses contra a lei das rolhas. Pode dizer-se que a alma da Regeneração de 1851 está em Alexandre Herculano. O movimento impor-se-á graças ao penhor moral do historiador, que depressa compreendeu que não eram as suas ideias ou o seu grupo que prevaleciam. Rodrigo domina o novo partido Regenerador, e Herculano considera ser isso negativo, sendo fundamental criar um polo político de alternância, que será o partido histórico, em cuja criação e concretização se empenha.

Nasce primeiro “O País”, e depois “O Português”, jornais críticos da lógica situacionista. O escritor torna-se um militante ativo da reforma nacional no sentido da concretização da legislação de Mouzinho da Silveira, da liberdade económica, do fim dos constrangimentos políticos e sociais do antigo regime, da concretização do programa municipalista contra o centralismo. Numa palavra, deveriam criar-se condições para que o país governasse o país. E D. Pedro V seria o primeiro homem moderno que houve em Portugal, mas morreria na flor da idade. Alexandre Herculano manter-se-ia fiel ao espírito de sempre: da procura de uma síntese entre a tradição e a modernidade, com um empenhamento intenso pela reforma do país, de modo combater o atraso e a intolerância.

A partir de 1867 tornar-se-á agricultor de sucesso em Vale de Lobos, num gesto moral de recusa do conformismo. No entanto, nesse período final da vida Herculano seria procurado pela juventude intelectual como referência e exemplo. Que magnífico sinal de vitalidade intelectual e cívica!

 

GOM

 

 >> 30 Boas Razões para Portugal no Facebook

 

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

 

(XVIII) SUBLIME GARRETT

 

Almeida Garrett é o grande inovador da língua e da literatura. É lendária a sua relação com a oralidade popular, transmitida por Brígida e Rosa de Lima, durante a infância. Aí despertou o jovem para as tradições populares - romances, xácaras, narrativas, feitiços, mouras encantadas…

A revolução de 1820 encontrou-o em Coimbra, motivado para a ideia nova de criar um liberalismo constitucional, como nas nações civilizadas da Europa. O país emancipava-se - e proclamava as liberdades. A intenção política não passava despercebida. E o Garrett literato não esquecia o Garrett competente oficial da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino (1822), de impecável escrita, dando os primeiros passos na vida profissional.

Depois de um período de intensa motivação política, abre-se um momento difícil com a "Vilafrancada" e a "Abrilada", que obrigam o poeta a fugir para Inglaterra. Quando regressa é preso. Fica na cadeia muito pouco tempo. Quando o libertam, empreende nova fuga do país. Fixa-se primeiro em Inglaterra e depois em França. Lê então os grandes românticos - W. Scott, Byron - e descobre Shakespeare…

Depressa pensa em recriar literariamente os valores nacionais – com Camões e D. Branca. A outorga da "Carta Constitucional" por D. Pedro trá-lo de regresso à pátria (1826). É o ano da indispensável Carta de Guia de Eleitores - "vade-mécum" da cidadania liberal. Volta à Secretaria de Estado do Reino, polemiza com José Agostinho de Macedo e defende a causa da liberdade, o que lhe valerá três meses de cadeia… Volta a Londres, depois do regresso de D. Miguel.

Em Portugal todos os esforços em prol da liberdade parecem baldados. Na Europa, as circunstâncias são desfavoráveis às cores liberais. Mas em 1830 os ventos mudam. A revolução de Julho abre novos horizontes. O neto de Filipe Égalité simpatiza com D. Pedro e apoia-o. Em Inglaterra a vitória Whig também ajuda. Em Janeiro de 1832 parte de Paris, para chegar a Angra em Março. É o tempo da colaboração intensa com José Xavier Mouzinho da Silveira. Os decretos dos Açores, verdadeira Carta Magna da revolução liberal, têm a intenção do Ministro e o brilhantismo formal do jovem Garrett. Com os heróis do Mindelo chega ao Porto e é integrado no heroico Corpo Académico. Depois da vitória liberal (1834), colabora com o governo saído da Revolução de Setembro, tomando o encargo da organização do Teatro Nacional e do Conservatório de Arte Dramática.

É um dos constituintes de 1838 e aí se afirma como democrata, o que constitui uma ousadia. Não é só liberal, mas sim defensor da soberania do povo, adversário de todas as tiranias e combatente da educação para a liberdade. Mas os ordeiros demitem-no, em 1841 e regressa à oposição…

Em 1843 escreve o "Frei Luís de Sousa”. Aí se nota a interrogação audaciosa sobre os que viriam a ser os grandes mitos nacionais. Manuel de Sousa Coutinho e Telmo são, assim, cada um à sua maneira, encarnações do próprio Garrett. É a essência do constitucionalismo liberal que está por detrás desta interrogação fundamental sobre o destino coletivo. E Garrett enaltece a nacionalidade como fator de liberdade política. As tradições são usadas pelo dramaturgo como fatores de emancipação. Assim se compreende que alguém fortemente crítico da antiga legitimidade e do antigo regime lance os fundamentos do novo patriotismo com ingredientes históricos totalmente renovados. É o período áureo da criação garrettiana.

Inicia a escrita de "Viagens na Minha Terra", onde começa por contar o percurso que faz para visitar o seu amigo Passos Manuel, no exílio político em Santarém. Estamos perante um relato no qual a realidade e a ficção se confundem. O escritor invoca o heroísmo fundador da liberdade e a degenerescência do dia a dia político, de que é símbolo o protagonista Carlos - que cai "no indiferentismo absoluto", pois "fez-se o que chamam cético". "Morreu-lhe o coração para todo o afeto generoso e deu em homem político ou em agiota…".

Garrett surge como “mensageiro do novo espírito europeu" - como disse Ramalho Ortigão. "Foi ele que, de chapéu branco, calças de quadrados, gravata encarnada, monóculo no olho, um charuto nos beiços e uma chibata em punho, vergastou as orelhas do velho mundo português e o obrigou a abrir a primeira garrafa de champagne. Nós não éramos todos uns pobres velhotes, uns ginjas, uns xexés. Foi ele que, por meio dos seus livros, nos deitou nos copos e nos fez beber o vinho da mocidade. E foi depois de reconfortados por esse generoso licor de poesia, que nós aprendemos a estimar a beleza, a amar a liberdade, a compreender as artes e a querer o progresso".

Que mais haverá a dizer? Ele foi um núncio da modernidade. Quando o romeiro responde que é ninguém no "clímax" trágico bem conhecido do "Frei Luís de Sousa", põe no centro da reflexão dramática não apenas a questão da ausência e da vida que não se detém, mas fundamentalmente a força maior do mito sebástico, "a primeira mitologia portuguesa sem transcendência", no dizer de Eduardo Lourenço - não confundível com um destino impossível e inútil, mas sim legitimador de uma vida assente no querer das pessoas e dos cidadãos, do povo-povo que sempre entusiasmou Garrett. Assim mesmo é nosso contemporâneo o sublime autor das "Viagens", peregrinação que nos ensina a melhor nos conhecermos.

GOM

 

 >> 30 Boas Razões para Portugal no Facebook

 

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

 

(XVII) FIXAÇÃO E TRANSPORTE

 

Portugal viveu, ao longo da sua História, um paradoxo, que foi responsável pelos sucessos e pelas limitações, pelas vantagens e pelos erros - um território europeu virado ao mar, com carências, mas com exigentes solicitações de potência média pela presença dos portugueses no mundo. Cabeça de império situada nas margens do velho continente, essas a condicionantes que obrigaram sucessivas gerações a partir – ora para a Índia, para o Oriente e para o Brasil, ora, em ocasiões diferentes, para a emigração.

Em 1415, Ceuta visou superar a falta de trigo e de ouro e entrar no comércio do Mediterrâneo. A longa costa atlântica permitiu contrariar a situação periférica, no entanto houve sempre uma tensão entre a defesa dos recursos próprios e a consideração das oportunidades nos movimentos de pessoas e das mercadorias… Já vimos os alertas de Infante D. Pedro das Sete Partidas na célebre Carta de Bruges (1426) ou as queixas de Francisco Sá de Miranda: “Não me temo de Castela, donde guerra inda não soa, / mas temo-me de Lisboa que ao cheiro desta canela o reino nos despovoa”. Conhecemos os planos do Príncipe Perfeito e de D. Manuel. Depois da Restauração, o conde da Ericeira defendeu um modelo manufatureiro, a que a descoberta do ouro do Brasil não deu continuidade. Houve, assim, plena consciência de que era preciso fixar riquezas depois de as encontrar.

Não bastaria sermos mercadores, tínhamos de ter uma base estratégica que gerisse as riquezas, assim pensou D. João II, até para que a míngua de pessoas não impedisse a criação de uma direção coerente e de uma orientação eficaz para o império. António Sérgio (1883-1969), na linha da Geração de 1870, refere-se a duas políticas nacionais. E cabe citar os fundamentais autores seiscentistas – Mendes de Vasconcelos, Severim de Faria e Ribeiro de Macedo. Em 1608, Diálogos do Sítio de Lisboa de Luís Mendes de Vasconcelos (c. 1542-1623) representam a consciência da importância da capacidade criadora da economia. O autor viveu na passagem do século XVI para o século XVII, foi Capitão das Armadas do Oriente e governador em Angola. Nesse livro – onde discutem um Filósofo, um Soldado e um Político – encontramos a exaltação das qualidades da cidade de Lisboa, sobretudo quando comparada com Madrid e, tratando-se do tempo de Filipe I, durante a monarquia dual, Sérgio diz-nos que o autor procurava convencer o rei “a mudar de Madrid para Lisboa a capital do seu império”. Combate-se ainda “o estonteamento da nossa política ultramarina, que consistiu em se perverter o objetivo comercial com as ideias de conquista”.

Luís Mendes de Vasconcelos defende a criação e a fixação, com exemplos práticos do que hoje classificaríamos como ordenamento do território, em especial para o aproveitamento agrícola nas lezírias do Tejo e na região de Lisboa. Este reformismo assenta na “política fixadora, a da produção metropolitana, com base na estabilidade do comércio do ultramar, e da sua nacionalização”; bem como num conceito de glória e heroísmo – “a glória do político e do militar, o heroísmo do servidor da pátria está em concorrer para a prosperidade dela”…Já o clérigo e teólogo, formado pela Universidade de Évora, Manuel Severim de Faria (1583-1654) subscreve, com preocupações semelhantes, Dos Remédios para a falta de Gente (1655), onde critica a prioridade bélica em detrimento do comércio e da manufatura – somando-se esse mal à falta de investimento, aos defeitos do arranjo agrário, à concentração fundiária, ao absentismo e ao despovoamento... De mais a mais, o império do Índico apresentava-se frágil por falta de organização mercantil, e por defeitos no arranjo agrário. Daí advogar a prioridade para o comércio, a indústria e as manufaturas, único modo de fixar recursos, devendo a preocupação de criar riqueza prevalecer sobre a conquista.

Só favorecendo o governo do Reino a introdução de ofícios e técnicas modernas poderia alcançar-se a independência económica da nação. O jurisconsulto e diplomata Duarte Ribeiro de Macedo (1618-1680) publicou o Discurso sobre a introdução das artes no Reino (1675). Em coerência com a sua correspondência com o Padre António Vieira e D. Francisco Manuel de Melo, o escritor considera ser fundamental a compreensão de que só haveria um meio para evitar a dependência do exterior pelas importações, e esse seria impedir que o dinheiro saísse do Reino através da criação de artes e manufaturas. A introdução de uma tal orientação evitaria o dano que fazem ao Reino o luxo e as modas; obstaria à ociosidade; tornaria o país povoado e abundante com gentes e frutos; aumentaria as rendas reais (“porque o peso que levam poucos, dividido por muitos, é mais fácil de levar e pode ser maior”); e atrairia ouro de Espanha, aproveitaria mais as colónias e daria ao porto de Lisboa, superior ao de Constantinopla, a primazia do comércio do mundo. Escrevendo na França de Colbert, Ribeiro de Macedo considerava que haveria de seguir os caminhos mercantilistas de França e Itália e que a Inglaterra começava a trilhar. Saliente-se que tal como o Padre António Vieira o diplomata defendeu a necessidade de encontrar um entendimento com judeus e cristãos-novos de modo a angariar novos meios e capacidades.

Dois outros diplomatas merecem referência pela valia dos seus escritos de orientação convergente com a de Duarte Ribeiro de Macedo – Alexandre de Gusmão (1658-1753) e D. Luís da Cunha (1662-1749). O primeiro, irmão de Bartolomeu Lourenço de Gusmão, defendeu o combate à ociosidade, o aumento da agricultura, o aproveitamento das ribeiras para navegar e regar, o estabelecimento de fábricas, o aumento da indústria e o favorecimento do comércio dentro e fora do reino. O segundo, diplomata cosmopolita, que indicou Sebastião José de Carvalho e Melo a D. José, insistiu na necessidade de dar uso positivo à propriedade agrícola e de favorecer o investimento nas artes. Tratava-se de buscar nas experiências das nações civilizadas os melhores exemplos com resultados práticos.

Quando António Sérgio publicou a sua Antologia dos Economistas Portugueses (1924), lembrou que os três autores seiscentistas “iniciaram a doutrina da política da Fixação, contra a política do Transporte; e o reformismo português, desde aí até agora, será o desenvolvimento dos princípios que defenderam nas suas obras. Em Luís Mendes de Vasconcelos é a Fixação, pela agricultura; em Severim de Faria, pela agricultura e pelas indústrias; em Ribeiro de Macedo, finalmente, são as minúcias de um programa de fomento industrial”. Logo no final do século XVII, porém, o dinheiro das minas do Brasil e mais tarde os empréstimos do constitucionalismo e as remessas dos emigrantes adiaram a realização das ideias dos reformadores. E seria de fixação tendencial a política económica de Pombal, a reconstrução de Lisboa, a reestruturação do tecido empresarial, a refundação da Universidade, as companhias do comércio e a modernização das leis. Mas o tema continua atualíssimo.

GOM

 

 >> 30 Boas Razões para Portugal no Facebook

 

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

 

(XVI) SAUDADE E MORABEZA

 

Saudade ou sôdade como lembrança e desejo e Morabeza como predomínio do afeto caracterizam a humanidade das culturas da língua portuguesa. Quando lemos D. Duarte, Bernardim Ribeiro, D. Francisco Manuel de Melo, Duarte Nunes do Leão, Garrett, Rosalia de Castro ou Cesária Évora sentimos que há algo que nos diz respeito, com que temos de lidar para não cairmos num sentimentalismo que reduz a vontade e a determinação. Eduardo Lourenço fala-nos, por isso, de um autêntico Labirinto que não pode ser visto como um destino retrospetivo. O “Desterrado” de Soares dos Reis simboliza espera e ausência. No Leal Conselheiro encontramos uma definição (de saudade) “acompanhada e esclarecida por uma análise caracteristicamente filosófica”. A novidade do conceito reside no seguinte: a saudade é um sentimento; não está vinculada necessariamente ao desejo; resulta da ausência de seres que se ama ou de estados que se estimam; “a melhor saudade é a que nos atualiza, pondo-nos de acordo com o tempo e dando-nos portanto prazer». Esta definição de Afonso Botelho corresponde ao que se pode designar como “humanismo esperançoso”, que parte de uma solitária saudade medieval para chegar à “reminiscência forçosa” de D. Francisco Manuel. Sem entrarmos na indagação sobre um eventual platonismo, o certo é que a saudade é um movimento – que no domínio intelectual é um diálogo. Deste modo, a saudade é um sentimento ou a consciência refletida desse sentimento – demarcados do saudosismo, como movimento de raiz poético-filosófica. Assim, a saudade vai situar-se entre a ânsia da Pátria Celestial e a lembrança da Pátria Terrena. Mas Leonardo e Pascoaes estão separados porque têm intuições religiosas diversas. Lembremos que o universo para Leonardo Coimbra é criado pelo homem num processo dialógico que o faz chegar a Deus pelo fraterno amor de tudo, e não como algo criado de uma vez por todas pela vontade divina. Deus é, assim, a luz que ilumina a ação criadora do homem - é o Amor que une, e cada consciência é a unidade elementar que pelo amor se move, atraído pela «grande Unidade». Por isso, a compreensão é a Unidade e o entendimento é Amar. Pascoaes, ao contrário, obedece aos dois movimentos, «um ascensional (o mítico em Maranus) outro descensional (que é precisamente o religioso do Regresso ao Paraíso)». No fundo, a Pátria de Pascoaes assume-se no homem, “mesmo quando a presença de Deus nele se faz sentir, até porque a divina presença desde que o foi dessa Pátria, já nela não pode ser esquecida”. Na fecundidade deste diálogo, Afonso Botelho centra-se na perfectibilidade do sentimento saudoso, ou seja um movimento permanente de reconhecimento da imperfeição e de impulso necessário ´para a sua superação – isto é, “a garantia de que o sentir só se completa no existir, por mais elevada e infinita que seja a saudade ou a sua órbita”. Como movimento, a Saudade apenas “se completa restituindo ao homem o sentimento da própria Graça que o elevou ao centro da redenção”. “Se o que domina a ontologia existencial é a definição do ser do tempo, creio que esta só poderá reencontrar-se na ontologia da saudade, que é a do tempo sem ser – ontologia negativa ou transcendida que determina a eliminação do tempo, precisamente porque em verdade o completa» (A. Botelho). Para Pascoaes: “O existir cria a ilusão do tempo. O que passou e o que há de vir eis a matéria, o corpo da saudade. O eterno compõe-se de coisas transitórias”. Vulgarmente ou mesmo culturalmente, pensa-se que “o Saudosismo é o mais acabado dos passadismos, mas assim não é. De facto, na saudade-saudade, segundo Afonso Botelho, o passado vale tanto como o futuro – “pois um e outro nela se acordam ou se eliminam, o que é o mesmo”. As saudades do futuro do Padre António Vieira são isso mesmo. Pascoaes diria, poetando, “A folha que tombava / Era a alma que subia” e Fernando Pessoa interpretaria: “A queda da folha é materialmente a subida da alma”. Leonardo põe a tónica na alma que sobe, enquanto Pascoaes interroga a folha que tomba… E a Renascença Portuguesa representa a procura destes dois movimentos paradoxais, equivalentes ao “poder convergente da Saudade, que se opõe a qualquer interferência do tempo exterior ou heterogéneo”…

No romance de Baltazar Lopes da Silva “Chiquinho”, o autor explica que a palavra “morabeza” significa amorabilidade. Segundo Brito-Semedo: “Este sentimento, que é mais visível e praticado nos meios rurais, manifesta-se, contudo, de forma particular em cada uma das ilhas. Por exemplo, em Santo Antão havia (…) o hábito de convidar os viajantes que faziam as suas jornadas a pé a entrar nas casas ao longo do caminho e secar o calor, que é, como quem diz, beber um cálice de aguardente (o grogue) e descansar um pouco. Nas outras ilhas agrícolas, nomeadamente em Santiago, nunca se vai fazer uma visita sem levar um agasalho, ou seja, uma prenda para os donos da casa, que pode ser um lenço de amarrar (lenço de cabeça), uma garrafa de grogue, algum rapé, ou um palmo de tabaco enrolado. O visitante, para além de ser bem recebido, normalmente regressa com um cabrito, um frango, ovos, leite coalhado ou queijo fresco, ou um saco contendo banana, papaia, mandioca, batata-doce, enfim, os produtos hortícolas que estiverem disponíveis no momento. Ser morabi (a expressão é da ilha Brava), afável e gentil, é a expressão do sentimento da morabeza, que é, afinal, a forma de o Cabo-verdiano estar no mundo”.

 

 GOM

 

 >> 30 Boas Razões para Portugal no Facebook

 

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

 

(XV) PADRE ANTÓNIO VIEIRA

 

O Padre António Vieira (1608-1697) é figura ímpar da cultura portuguesa. Com ele estamos perante a maturidade da língua em prosa. Foi um visionário, um diplomata, um pregador da Capela Real, um conselheiro avisado, um humanista, um lutador pelo respeito da dignidade de todos, à frente do seu tempo, e um artífice, como houve muito poucos, da palavra dita e escrita. Sente-se, em cada expressão, em cada ideia, a força mágica dos encadeamentos, das repetições, das sinonímias, das contradições, dos paradoxos, das metáforas, dos símbolos, dos conceitos, do ponto e do contraponto, da proximidade e da distância. Vieira não se resume, nem se limita ao jogo de palavras e de ideias, por detrás desse jogo aparente está uma corajosa defesa de ideias e de causas, que, pela sua determinação e persistência, lhe foram causando os maiores dissabores e os piores contratempos. E é preciso ter uma força muito especial para poder manter-se atual quatro séculos depois do seu nascimento. Vieira foi um homem que procurou pautar-se pela antecipação e pelo critério do futuro, demandando respostas para um transe muito difícil então vivido pelos portugueses. Como pregador precisava de seduzir e de mobilizar vontades, quando a sociedade estava dividida e perplexa. O império temporal vinha-se esboroando, as riquezas perdiam-se ou dissipavam-se, o “fumos da Índia” avolumavam-se, havia divisões profundas. Havia, por isso, que reconstruir o império em moldes totalmente diferentes, que não padecessem das enfermidades antigas. E o Padre António Vieira retoma então o que os franciscanos espirituais há muito defendiam (na linha do monge calabrês Joaquim de Flora). Mas os exemplos multiplicam-se, com especial subtileza. António Vieira atraiu ódios que juraram pela sua pele, primeiro entre os colonos, depois na corte, entre os invejosos do lugar proeminente que assumiu junto de D. João IV, alvitrando, aconselhando e agindo, e ainda na Inquisição, pela qual foi perseguido, julgado, preso e, por fim, perdoado apenas graças à intercessão papal… Leia-se o Sermão da Dominga Vigésima Segunda depois do Pentecostes (1649), onde, partindo de S. Mateus (“É lícito ou não pagar o imposto a César?”, 22,17), verbera a hipocrisia dos fariseus, ataca o fanatismo cego e sem caridade, e lembra os escrúpulos falsos de Pilatos, sempre a pensar nos inquisidores: “Ó julgadores que caminhais para lá com as almas envoltas em tantos, e tão graves escrúpulos de fazendas, de vidas, de honras, e cuidais cegos, e estúpidos, que essas mãos com que escreveis as tenções e com que firmais as sentenças, se podem lavar com uma pouca de água. Não há água que tenha tal virtude”. Nunca fugiu das dificuldades nem da denúncia dos erros e atropelos, como se vê bem no Sermão do 5º Domingo da Quaresma, dito no Maranhão: “E se as letras deste abecedário se repartissem pelos Estados de Portugal, que letra tocaria ao nosso Maranhão? Não há dúvida que o M. M Maranhão, M murmurar, M motejar, M maldizer, M malsinar, M mexericar, e sobretudo M mentir: mentir com as palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos, que de todos e por todos os modos aqui se mente…”. Os Sermões de Santo António aos Peixes, dito também no Maranhão, da 3ª Dominga da Quaresma, pregado na Capela Real, e do Bom Ladrão, apresentado na Igreja da Misericórdia de Lisboa (Conceição Velha), de 1654 e 1655, são ilustrativos da coragem acusatória de Vieira contra abusos e injustiças. “Encomendou el-Rei D. João o Terceiro a S. Francisco Xavier o informasse do estado da Índia, por via de seu companheiro, que era mestre do Príncipe; e o que o santo escreveu de lá, sem nomear ofícios, nem pessoas, foi que o verbo rapio na Índia se conjugava em todos dos modos…”. Com a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) a finar-se, havia que preparar um alinhamento que permitisse uma presença segura na nova balança europeia. E a justificação espiritual (que a Inquisição considerou heresia) poderia abrir novos horizontes, sobretudo através da criação de bases sólidas no Brasil e na Índia. Assim, o Quinto Império não era um sonho desligado da realidade nem uma ilusão centrada no território da loucura, era a tentativa de um repensamento estratégico que tirasse lições dos erros cometidos. Assim foi concebida a “História do Futuro”, antecipada pelo Sermão dos Bons Anos (1.1.1642), onde as Escrituras, as profecias de S. Frei Gil de Santarém e as “Trovas” do Bandarra levaram-no a transferir o mito do Desejado de um rei morto em Alcácer-Quibir (Sebastião) para um rei vivo (o Rei D. João, ali presente na Capela Real). Terminou os seus dias na Quinta do Tanque, a meia légua de Salvador da Bahia, a cuidar da versão final dos Sermões. Com o  amigo e companheiro Padre José Soares, apesar de vicissitudes pessoais, pôde trabalhar intensamente. Em 1688, foi, no entanto, nomeado pela Ordem Visitador da Província do Brasil, como que em reparação depois de mil injustiças e incompreensões, regressando apenas em 1691 também para escrever o que considerou poder vir a ser a cúpula da sua obra – a Clavis Prophetarum, De Regno Christi in Terris consummato, livro que jamais acabaria. em 1696, a saúde agravou-se-lhe irremediavelmente, tanto que teve de partir para a cidade, para o Colégio, que tão bem conhecia, de onde mais não sairia. Aí morreu a 18 de Julho de 1697. Falando de audácia e atrevimento, basta lembrar o poderoso “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda”, dito na Igreja baiana de Nossa Senhora da Ajuda em Maio ou Junho de 1640. «Arrependei-vos misericordioso Deus, enquanto estamos em tempo, ponde em nós os olhos da vossa piedade, ide à mão da vossa irritada justiça, quebre vosso amor as setas da vossa ira, e não permitais tantos danos e tão irreparáveis». Sobre o modo como o Padre Vieira usa a retórica e a oratória está o facto de invetivar duramente a própria Providência Divina, numa linguagem profética semelhante à de Job nos momentos mais desesperados. Perante os insucessos militares no Brasil devidos à intervenção holandesa, o Padre António Vieira dirige-se do púlpito ao próprio Deus, acusando-o de ingratidão: «Mas pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai- lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas (que não são menos perigosas as consequências do Brasil perdido); entregai- lhes quanto temos e possuímos (como já lhes entregastes tanta parte); ponde em suas mãos o Mundo; e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais». Usando de poderosa ironia, o orador usa palavras duras, pelas quais pede perdão, justificando as razões de seu desespero: «Não me atrevera a falar assim, se não tirara as palavras da boca de Job, que como tão lastimado, não é muito entre muitas vezes nesta tragédia. Queixava-se o exemplo da paciência a Deus (que nos quer Deus sofridos, mas não insensíveis), queixava-se do tesão de suas penas demandando e altercando, por que se lhe não havia de remitir e afrouxar um pouco o rigor delas»…

 

GOM

 

 >> 30 Boas Razões para Portugal no Facebook

 

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

 

(XIV) D. SEBASTIÃO E O SEBASTIANISMO

 

O mito sebastianista corresponde a um delírio, sentimentalmente verdadeiro embora racionalmente falso. Miguel Real tem razão. Assim, o sebastianismo constitui uma espécie de motor ético dos portugueses, forçando-os “a acreditarem dever ser o futuro melhor do que o presente, mesmo que para tal se sintam obrigados a fugir da medíocre elite portuguesa, que do país se apodera como coutada sua…” (“Nova Teoria do Sebastianismo”, D. Quixote, 2014). Contra o conselho dos mais avisados, D. Sebastião sentiu-se motivado pelo sucesso de Lepanto e envolveu-se numa questão dinástica no reino de Marrocos. O resultado foi um desastre, tanto maior quanto não havia descendente que lhe sucedesse em Portugal – com três reis mortos e um reino momentaneamente pedido. Não houve avisada prudência e a nação ficou órfã. E a loucura gerou um mito. Eduardo Lourenço, no prefácio a “Origens do Sebastianismo” de Costa Lobo (1909), lembra o sentido crítico de António Sérgio, em justa demarcação do saudosismo sebastianista, pouco conforme com as suas preocupações de lançar para o tempo atual as bases de uma autêntica reforma de mentalidades. Tratava-se sergianamente de combater a generalização perniciosa justificativa de uma acomodação sentimentalista. Se Oliveira Martins considerou o sebastianismo uma “prova póstuma da nacionalidade”, haveria que compreender que «do que era um fenómeno extravagante ou uma aberração sem lugar no discurso histórico”, nasceu um «mito cultural de ressonância incomparável». O que estaria em causa no caso português era uma “decadência inconformada consigo mesma”, assumida após um momento dramático em que um passado glorioso deu lugar a uma humilhação incompreensível nas areias de Marrocos e depois a uma “Corte na Aldeia”, recriada por Rodrigues Lobo. E assim o sebastianismo tornou-se “o epílogo, e a manifestação mais palpável do espírito nacional”, (…) “embebido na imaginação” e “nutrido pelo conhecimento da decadência nacional e pela recordação e saudades de tempos mais felizes”. O episódio pode comparar-se a uma espécie de cativeiro da Babilónia, visto como um «avatar delirante», mas mais do que isso como símbolo de uma história que alterna momentos gloriosos e decadentes, em que a fatalidade e a vontade se entrecruzam e se alimentam mutuamente. Vinha à memória a analogia entre o messianismo judaico e a ideia nacional de um império futuro. E Eduardo Lourenço liga o mito cultural de Alcácer Quibir a uma «estrutura de ausência», vista como corolário do tempo em que substancialmente perdemos a independência, ainda que juridicamente tal nunca se tenha consumado verdadeiramente na Monarquia Dual, mesmo que o império do Oriente tenha sofrido dramaticamente por força da expansão holandesa. E Portugal fica «ausente de si mesmo e esperando-se nessa ausência». Só quando o Conde Duque de Olivares teve a tentação unificadora peninsular, a revolta tornou-se inexorável, com apoio francês no desenrolar da Guerra dos Trinta Anos. Indagador dos mitos nacionais, Eduardo Lourenço demarca-se das leituras negativistas e fatalistas, considerando, como Oliveira Martins, que a «estrutura de ausência» não podia confundir-se com uma incapacidade de espera. Veja-se como Garrett trata dos temas da ausência e da espera em “Frei Luís de Sousa”. O sebastianismo, como mito, é um sonho e uma vaga esperança messiânica. E neste ponto o ensaísta contemporâneo não pôde deixar de se cruzar com Fernando Pessoa, poeta que pensa no mito como impulso libertador. Estamos perante um «mito», mas não diante de uma ideia transcendente ou religiosa. É o «herói simbólico» que encontramos – na tradição do ciclo bretão, do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda (também ele viria de Avalon numa manhã de nevoeiro) ou de Amadis de Gaula. Contra o fatalismo, ressurge a nação como vontade, na expressão de Alexandre Herculano - vontade temperada pela índole coletiva. Sampaio Bruno preferiu procurar uma significação metafísica, Teixeira de Pascoaes ligou o sebastianismo à saudade lusíada (lembrança e desejo, segundo Duarte Nunes do Leão) e Costa Lobo ancorou nas razões históricas as repercussões do cativeiro – desde as Cortes de Tomar (1581) até ao Primeiro de Dezembro de 1640. Eduardo Lourenço, como Sérgio, chega ao século XX e longe de qualquer tentação ilusória, diz-nos que «o Portugal – D. Sebastião de Pessoa é todo-o-mundo-e-ninguém com ele Pessoa – D. Sebastião é ninguém-e-todo-o-mundo, um e outro, a “eterna criança que há de vir”, aquele que morre como particularidade nacional ou pessoal, para ser tudo em todos, exemplo de um mundo e de uma personalidade sem limites nem fim». Lembramo-nos do “Auto da Lusitânia” de Gil Vicente. Deste modo, o autor de «A Nau de Ícaro» faz um retrato fulgurante da mitologia portuguesa, na linha da sua psicanálise mítica do destino português. “Louco, sim, louco, porque quis grandeza / Que a sorte a não dá”… Para o Padre António Vieira o que estaria em causa era um império sobrenatural, capaz de superar os «fumos da Índia» e as fragilidades que conduziram a Alcácer Quibir. «Assim o que começou como um sonho de um Império redivivo termina com Pessoa em Império de sonho».

 

GOM

 >> 30 Boas Razões para Portugal no Facebook

 

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

 

(XIII) O GALO DE BARCELOS COMO SÍMBOLO

 

Falar de um galo em Portugal não é evocar um símbolo insignificante, mas chamar à lembrança raízes culturais antigas que vêm do passado e se projetam no futuro e além-mar. Ninguém duvida de que se trata de um símbolo forte - e não é de mais lembrar que, na etimologia grega de símbolo, que significa aquilo que une, por contraponto a diábolo, o que divide… Alguns dirão, erradamente, que o galo é uma invenção relativamente recente, vinda de uma lenda, talvez seiscentista ou setecentista, de um galo que salvou um condenado injustamente ou de uma descoberta tardia nas feiras de Entre-Douro-e-Minho. Lembre-se a lenda: em algum momento da época medieval, ocorreu um crime na cidade de Barcelos que ninguém desvendava. No entanto, um jovem galego a caminho de Compostela para cumprir uma promessa foi acusado como suspeito do crime e acabou condenado à forca. Dizendo-se inocente, o jovem pediu para ser presente ao juiz, perante o qual reafirmou não ter cometido crime algum. Perante a reação de incredulidade do juiz, o jovem apontou para um frango assado na mesa do banquete que ocorria ali e disse: “É tão certo eu estar inocente, como esse galo cantar quando me tentarem enforcar”. O juiz mandou executar a sentença capital, mas à hora da execução o galo levantou-se e cantou. O juiz, desesperado, correu até à forca para tentar evitar a consumação e conseguiu que o rapaz sobrevivesse por conta de um nó desajeitado da corda. Inocentado, o galego voltou anos depois e mandou construir o Cruzeiro do Senhor do Galo, em louvor à Virgem e de Santiago… A lenda é rocambolesca, mas a simbologia do galo adotada pelos povos de origem céltica é muito enraizada. O galo de Barcelos, que Joana Vasconcelos estilizou e enriqueceu decorativamente, tornando-o ainda mais simbólico de nós mesmos, vem do nosso fundo céltico – esse fundo que António Pedro sentia no âmago de si mesmo e que o levava a gostar de gaitas de foles e das cores garridas que Amadeo de Souza Cardoso tão bem soube imprimir nas suas telas inesquecíveis e irrepetíveis. O elemento gal de Portugal não engana. Aí está o elemento indo-europeu que nos liga aos Gálatas, do Médio Oriente e da Turquia, à Galicia polaca, ao País de Gales, aos Gauleses, à Galiza – todos irmãos. Para o nosso garrido galo, é verdade que Leitão de Barros, António Manuel Couto Viana e Artur Maciel foram (a pedido de António Ferro) em busca de um símbolo popular – encontrando-o e enriquecendo-o com cores fortes e corações abertos. No entanto, já Rocha Peixoto, no século XIX, nos fala do ”Galo de apito”, que ainda se encontra nas feiras e que tem a ver com a forte simbologia de quem anuncia, na aurora, o novo dia. O nosso inconfundível galo insere-se na tradição dos druidas e no diálogo com o Oriente, mas também na simbólica cristã de S. Pedro. O galo é arauto da luz do sol, mas também sinal da verdade e da fidelidade. Tendo sido redescoberto nas feiras de Entre-Douro-e-Minho e pintado com as cores fortes que conhecemos, é o revelador de um amorável coração, do amor como contentamento descontente da lavra camoniana, mas também da saudade como lembrança e desejo e de magníficos ágapes, banquetes de amor e amizade, que encontram a sua origem na mais afetuosa das palavras gregas. Culturalmente, o galo significa o cadinho, o “melting-pot”, que nos caracteriza neste lugar onde a terra acaba e o mar começa, Finisterra. O Pop Galo, na expressão de Joana Vasconcelos, liga a cultura popular e a cultura erudita – e liga o presente ao passado e ao futuro. Naturalismo e espiritualismo aqui se encontram como no-lo disse Pascoaes. Tradição e modernidade estão aqui. Os azulejos portugueses são, afinal, reminiscência do Oriente! Eis por que motivo a referência às raízes antigas tradicionais, históricas e populares constitui um elo intenso que nos permite perceber que uma identidade cultural ou linguística apenas pode afirmar-se se não se fechar sobre si mesma e se se relacionar com outras realidades e influências. O tema da identidade cultural exige a compreensão de que só a abertura e o diálogo, a relação fecunda entre a herança e a memória, o entendimento dinâmico de património podem permitir o desenvolvimento de uma cultura de paz e de respeito mútuo. A identidade que cristaliza morre. A memória que se centra exclusivamente no passado mítico torna-se pobre, ensimesmada e ressentida. Como podemos entender o artesanato de Rosa Ramalho e de José Franco ou o Candomblé brasileiro e a religiosidade sincrética – reunindo animismo e tradição cristã – que liga o Senhor do Bonfim à corte dos orixás, tão presentes desde S. João Baptista de Ajudá a Salvador da Bahia? Oxalá, o grande Senhor de Todos, e Iemanjá, a Deusa do Mar, dominam esse Olimpo. E o galo é a ave de batalha, o anunciador de bons augúrios. Eis por que razão o Galo não é uma marca regionalista ou de recente data, é uma marca antiga e um passo universalista. Afinal, trata-se de um símbolo para ir, pela crítica, pela aventura e pela viagem, além dos mitos.

 GOM

 

 >> 30 Boas Razões para Portugal no Facebook

 

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

 

(XII) A GASTRONOMIA PORTUGUESA

 

Como continente em miniatura e lugar de encontro de muitos povos, Portugal tem uma gastronomia naturalmente sortida e cheia de pequenos segredos e mistérios. Encontramos mesa rica e mesa pobre, mas fundamentalmente a mesa remediada no dia-a-dia, feita com o que são os alimentos da estação com a necessária sobriedade. Convém lembrar que a palavra “comer”, origem da “comezaina” queirozina, vem do latim cum edere, que significa alimentar-se em companhia, fator fundamental da transmissão de valores, da boa conversa, do convívio, da partilha do pão e do vinho. E diz o povo “à mesa não se envelhece”, percebendo-se que os afetos tornam a vida mais fecunda e duradoura. A literatura está plena dessa vital comunicação, que figura, em toda a sua riqueza, na eucaristia. E esta palavra, que vem do grego kharis, favor, graça, significa agradecimento, gratidão, ação de graças. O leitor de A Cidade e as Serras lembra a famosa ceia oferecida por Jacinto no 202 dos Campos Elísios, na comemoração do peixe da Dalmácia, encalhado e perdido no teimoso elevador dos pratos. O requinte transforma-se em caricatura, que aumenta o tédio. Mas também nos recordamos do arroz com favas, servido na primeira refeição de Jacinto em Tormes, para saciar a sua «velhíssima fome»? E aquilo que encanta o herói de Tormes não é o arroz, ou o apetecível frango assado no espeto, nem a salada temperada com azeite da serra, mas o vinho: “caindo do alto, da bojuda infusa verde – um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo”. Cada um lembrará momentos verdadeiramente restauradores, como uma cabidela de galinha pica no chão e um arroz solto bem simpático…  A UNESCO declarou em 2013 património imaterial da humanidade a Dieta Mediterrânica, que envolve sete Estados - Chipre (Agros); Croácia (Hvar e Brac); Espanha (Sória), Grécia (Koroni); Itália (Cilento); Marrocos (Chefchaouen) e Portugal (Tavira). A Dieta caracteriza-se pelo consumo de elementos frescos, produzidos localmente, de acordo com as estações do ano. Promove a utilização de leguminosas, hortícolas, frutos secos, frutas diversas, incluindo citrinos, como laranjas e tangerinas, e ainda damascos ou albricoques, ameixas, romãs e outros…Comer é um ato cultural, a refeição em conjunto assegura a transmissão de valores culturais e éticos e a permuta de conhecimentos, além de negociações e acordos. O fundo mediterrânico revela-nos muitas palavras de origem árabe ligadas à alimentação: açorda, alcachofra, alcagoita, alcaparra, alecrim, alface, alfarroba, almondega, alperce, alqueire, arroz, azeitona, cenoura, escabeche, griséus, laranja, limão, sorvete, salada, tâmara e xarope. Percebe-se bem como a cultura portuguesa se faz de norte para sul e de sul para norte. Há um entrosamento, que leva à partilha de tradições diferentes. Comecemos pelo Pão. Etimologicamente vem de pan, que significa em grego tudo, e a variedade é extraordinária: de trigo, de milho, de centeio. E temos desde a broa de Avintes às bôlas recheadas, exemplos de fazer da massa de pão um fantastico alimento. O azeite é um néctar essencial. Corroborando o que Jacinto sentiu em Tormes, temos os vinhos, que o tempo tem tornado de maior qualidade, graças à delimitação das regiões, começada com Sebastião José, no Douro, com o vinho fino, se curarmos dos vinhos generosos. Há os vinhos verdes (no Minho e na continuação da Galiza, dos Alvarinhos) e os maduros, com grande desenvolvimento. Minho, Douro, Bairrada, Valpaços, Dão, Bucelas, Colares, Carcavelos, Setúbal, Alentejo, Algarve e Madeira são regiões de dimensão e importância diferentes, mas onde a qualidade singra. Júlio Dinis retrata-nos em “Uma Família Inglesa” a importância do comércio do vinho fino, baptizado como do Porto. Na variedade dos acepipes, que o grande gastrónomo Paulo Plantier importalizou em “O Cozinheiro dos Cozinheiros” (1877), temos magníficas sopas, a começar no célebre caldo verde, acompanhado de broa de milho, e a continuar na grande variedade dos legumes, e a terminar nas sopas frias alentejanas, o gaspacho (de tomate, pepino e pimentão). Na nossa gastronomia merece destaque o cozido à portuguesa, feito com vegetais, carnes e enchidos cozidos. No que respeita aos vegetais, temos feijões, batatas, cenouras, nabos, couves e arroz, carne de bovino de diversas partes. Nos enchidos, são típicos o chouriço, a farinheira, a morcela e o chouriço de sangue. No tocante aos enchidos, é de referir o subterfúgio usado pelos cristãos novos a partir do século XVI. Proibidos de comer carne de porco, os habitantes de Mirandela criaram uma salsicha feita com pão, arroz ou frango, que se assemelhava aos tradicionais chouriços e farinheiras com carne suína: e assim nasceram as alheiras. A lista das iguarias é extraordinária. Nos peixes e mariscos, temos o bacalhau vindo da Terra Nova, a sardinha, o atum e as ameijoas. E na doçaria, a variedade é apetitosa: ovos moles, pão de ló (desde Felgueiras a Ovar, variando na consistência), toucinho do céu, papos de anjo, pasteis de nata, pasteis de Belém, arroz-doce, queijadas de Sintra, travesseiros, pasteis de Tentúgal, pudim Abade de Priscos, e a doçaria do Algarve feita com amêndoa e figos, como D. Rodrigos, Morgados e Queijo de Figo… A melhor doçaria conventual é reminiscência dos gostos da nobreza, já que as filhas-família levavam para a congregação as receitas de família. O predomínio dos doces com gemas de ovos deve-se ao facto de as claras serem aproveitadas para os engomados dos hábitos e para clarearem as hóstias a consagrar. Sobrando muitas gemas, elas eram utilizadas nos doces. Uma das consequências do aumento da produção de açúcar (ouro branco) e respetivo barateamento, com as viagens dos portugueses e a produção das ilhas é a generalização das doçarias. E terminamos, referindo a natureza morta da autoria de Josefa de Óbidos. Como afirma António Pinto Ribeiro: «Uma tela de Josefa de Óbidos (1630-1684) cria mais apetite, sofistica mais o gosto e revela mais voluptuosidade do que todos os programas de culinária que as televisões exibem. Por exemplo, Uma natureza morta com doces e barros, de 1676, que está exposta na Biblioteca de Santarém. À boa maneira dos bodegón, esta composição meridional, quente, com grande riqueza plástica e cromática, apresenta uma combinação de doces e utensílios de barro de cozinha. O seu propósito era decorativo, embora houvesse uma simbologia cristã (e portanto programática) nessas obras que decoravam as casas nobres da época. A belíssima descrição de Gustavo de Matos Sequeira — desta e de outra pintura, Natureza morta com flores — diz que são “quadros de alto sentido decorativo, tão ricos de cor, dominadores pela opulência da composição (…), [dando-nos] com feminilidade conventual uma lição do que era a confeitura fria do seu tempo, empapelada de rendas, acondicionada em condessas de verga fina, resguardada em caixas pintadas (…) num jeito de glória teatral às virtudes domésticas da culinária doce”».

GOM

 

 >> 30 Boas Razões para Portugal no Facebook