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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


CV - CANTAR O PORTUGUÊS UNIVERSAL


O facto de se cantar em português nunca impediu ninguém de ter uma carreira internacional bem conseguida, dado que não é fazendo desaparecer as marcas de origem que se torna exportável. 


Amália Rodrigues, Teresa Salgueiro, Mariza, Ana Moura, Carmen Miranda, Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Betânia, Gal Costa, João Gilberto, Elis Regina, Vinícius de Moraes, entre tantos, sobressaíram no mar imenso da produção cultural contemporânea, tendo a língua portuguesa como marca de excelência, dignificando-a com a sua singularidade vocal e musical, criando a sensação, para o estrangeiro, de estar perante algo de único.   


Há anos Mariza, numa entrevista, disse que jamais cantaria em inglês porque não faria sentido. O mesmo se pode dizer de Teresa Salgueiro. Pode cantar-se em inglês, mas não tentando equiparar-nos aos outros, abdicando do que nos é singular.   


Os cantores e intérpretes mais bem-sucedidos e reconhecidos internacionalmente, foram sempre, até hoje, os que cantaram em português, inclusive em agrupamentos, como os Madredeus, tendo tido um contributo decisivo para a difusão, promoção e divulgação universal do nosso idioma.


Foram eles próprios, em conjugação com uma estratégia consistente, que se internacionalizaram, tornando o português um idioma de exportação e universal.


E nunca há incapacidade ou impedimento para encontrar uma boa letra, um bom título em português, adaptar uma música ao nosso idioma, além de que internacionalizar não é desnacionalizar.


14.07.23
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


CIV - DIZER NÃO A UMA BAIXA CONSIDERAÇÃO SOCIAL DA LÍNGUA


Escrevi, há anos, neste blogue:


“Estudos relacionados sobre o uso e transmissão do português pelos nossos emigrantes, em países como a França e o Canadá, nos anos de 1988 a 2005, incluindo os seus descendentes e as camadas mais jovens apontavam, no essencial, para uma rejeição da língua e da cultura portuguesa preferindo, a esmagadora maioria, a língua e a cultura dominante, dado que o idioma dos ascendentes estava associado a um passado de pobreza, a que não se quer regressar, a uma memória de um país que forçou os progenitores a emigrar, tantas vezes clandestinamente, na maioria analfabetos e integrando recursos humanos não qualificados. Reconhecendo-se ainda que, ao desconhecimento dos franceses e canadianos sobre a nossa língua e cultura, se juntavam preconceitos estereotipados de emigrantes competentes, bons na construção civil e como empregadas domésticas, mas geralmente sem formação e instrução, sendo pouco apelativos para despertarem interesse, nos locais, pela sua língua e cultura. O baixo nível sociocultural dos nossos emigrantes ajudou a criar uma auto-representação negativa, o que se vem alterando com emigrações recentes mais qualificadas”
(LPM, VI - Aspetos Negativos do Uso Confidencial da Língua).


Esta baixa consideração social da sua língua pelos nossos emigrantes, era resultado de uma interiorização de que falá-la em público era, face ao outro, um estigma que os inferiorizava, acreditando só ser útil para os servir apenas a eles próprios e à sua comunidade, gerando um complexo de descriminação e de inferiorização linguística que havia que ocultar dos demais, desde logo do grupo social predominante.


Esta constatação, embora prejudicial para a difusão e promoção de uma língua internacional, de comunicação global e de exportação, dado o seu número de falantes e dispersão intercontinental, tinha de relevante, no mínimo, a demonstração quotidiana de que falar a língua da maioria trazia um enorme ganho para a integração na sociedade dominante, tanto mais compreensível se nos recordarmos estar o nosso idioma associado a uma memória familiar ligada a um país que os “forçou” a emigrar.   


Sucede que esta baixa consideração social pelo português é de todo incompreensível quando são os próprios estrangeiros residentes, entre nós, a queixarem-se dos portugueses, ao negarem-lhes a oportunidade de falar no nosso idioma, não o usando nem praticando no seu dia a dia, porque tantos nacionais tendem a exprimir-se, no nosso país, em qualquer idioma que não o seu, quando confrontados com um estrangeiro, não poucas vezes numa mistura “aldrabada” de palavras.   


Eis, um novo exemplo, retirado de um texto de um residente em Portugal, desde 2016 (Carl Eric Johnson):


“Acontece com frequência os empregados de mesa iniciarem uma conversa comigo em inglês, sem terem nenhuma indicação dada por mim de que sei falar inglês ou português. (…) às vezes sinto que talvez devesse fixar um cartaz no meu peito que declarasse a minha competência linguística, para contrariarem o impulso natural de falarem inglês comigo. No entanto, julgo que nem isso resultaria. (…) apesar de frequentar muitas aulas e de passar muitas horas a estudar e a ouvir a língua, é a falta de conversação frequente que me cria dificuldades. (…) Parece estranho que um povo tão cordial para os estrangeiros os queira privar desta oportunidade. (…) Perde-se pelo menos metade do que o mundo português oferece, se não se tiver a capacidade de ler e comunicar na língua da terra”.  


Esta subestima, inação, inferiorização do português, retórica da língua como mera marca de afetos, identidade e confidencialidade, por maioria de razão se feita intra muros, sem regras e a pretexto de querer mostrar simpatia e voluntarismo (ou subserviência e complexo de inferioridade linguístico para quem temos, atualmente, como superiores civilizacionalmente?), é como “dar um tiro no nosso próprio pé” num idioma verdadeiramente internacional e global, que tem de se fazer representar para além das suas fronteiras naturais, exportando-o, começando por aqueles que o ouvem desde o berço.


07.07.23
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


CIII - DIZER NÃO AO USO CONFIDENCIAL DA LÍNGUA


Li num texto publicado na net - com referência a tê-lo sido, também, no Público - de um imigrante norte-americano, residente em Portugal, desde 2016, sob o título “Porque é tão difícil dominar a língua portuguesa”, o seguinte:   


“Há uma conspiração. (…) Esta ideia de conspiração parte de imigrantes, como eu, de terras cuja língua materna é o inglês, que ficam frustrados com uma das barreiras mais difíceis de superar neste país. E que condiciona mesmo a nossa integração na sociedade portuguesa. Refiro-me à dificuldade de muitas pessoas em dominarem o básico da língua portuguesa”
.


Após falar nas complicações fonéticas e gramaticais do nosso idioma, sobressai de essencial no seu testemunho o facto de os portugueses presumirem que os estrangeiros não conseguem falar nem perceber português, resultado do lauto número de lusos que falam inglês e da prevalência de informação anglófona, acrescentando:


“Nas minhas viagens por outros países da Europa, tenho sido obrigado a falar e a ler na língua local para sobreviver - isso não acontece em Portugal. (…) Muitos encontros entre portugueses e estrangeiros iniciam-se com o português a falar inglês, sem dar ao visitante a oportunidade de provar a sua capacidade de falar na língua da sua terra”
, reforçando-o nestes termos:


“A via normal para aprender uma nova língua é passar tempo suficiente a ler, a ouvir, a escrever e a falar. As primeiras três atividades podem ser feitas por alguém sozinho. A última, no entanto, tem de ser praticada, preferencialmente, com um natural do país, alguém com tempo e paciência nas fases iniciais”.


Exemplifica-o, de novo, com a ideia comum entre turistas e imigrantes não lusófonos residentes entre nós, de não ser necessário falar português no nosso país, concluindo: “É como se o mundo português conspirasse contra os estrangeiros para manter a ilusão de que a língua, bem como a cultura, acolhe a todos. Mas parece que há um limite”.


Esta perceção é real, pois se é verdade que há uma nova vaga de imigrantes residentes que só ficam enquanto auferirem de um benefício pessoal imediato, não reconhecendo em Portugal uma fonte civilizadora, tendo como efeito um funesto voluntarismo na não aprendizagem do português, também é verdade que há os que se esforçam pela integração, apropriando-se saudavelmente da língua, sentindo-se frustrados pela não ajuda da maioria dos portugueses ao ocultarem dos ouvidos dos outros um bem de que se julgam o único possuidor.   


Escrevi, a propósito, um texto neste blogue, reconhecendo responsabilidade nossa nesse impulso excessivo de falar inglês, por tudo e nada, mesmo que mal, após presenciar uma situação caricata, em que falo do provincianismo, no nosso próprio país, ao omitirmos o nosso idioma e usarmos o alheio “(…) mesmo que o interlocutor se esforce por o aprender e falar, chegando ao cúmulo de ter presenciado, num hipermercado, uma portuguesa a atender, sempre em inglês, um imigrante que se esforçava, expressando-se e respondendo sempre em português (apelei a uma colega, que se apercebeu, para chamar a atenção para o exagero, que compreendeu, prontificando-se a fazê-lo, dado me ter antecipado e não poder esperar)” (A Língua Portuguesa no Mundo, XCVI - Perfil de Anteriores e Novas Vagas Migratórias).


Consciente ou inconsciente, este sentimento de posse, mero voluntarismo, desejo de simpatia, secundarização linguística, complexo de inferioridade ou de subserviência linguística, é tanto mais desadequado, irrazoável e insólito quando somos useiros e vezeiros em exprimirmo-nos em qualquer idioma, que não o nosso, dentro da nossa  casa, com estrangeiros, mesmo em relação a imigrantes residentes que nos apreciam e querem integrar-se embora, por princípio, seja dever de qualquer imigrante que nos procura aprender o básico do nosso falar.   


Este ocultar do português dos ouvidos dos que o não têm como língua materna ou oficial, é tanto mais desprestigiante quando é objetivamente verdade que a língua portuguesa é, por direito próprio, um dos idiomas mais falados mundialmente, integrando o núcleo restrito das línguas de comunicação global, sendo útil e de valor estratégico para quem a fala, incluindo estrangeiros.


Será que persiste, como carga negativa, para além de um sentimento de posse, mesmo que inconsciente, uma baixa consideração social pelos próprios falantes nativos do nosso idioma, ao não terem o português em igualdade de estatuto com outras línguas, mesmo na própria casa?   


30.06.23
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


CII - COMO VEÍCULO UNIFICADOR EM DIVERSIDADE CULTURAL E LINGUÍSTICA


A dimensão estratégica da língua portuguesa decorre de ter sido capaz de atravessar  espaços geográficos deslocalizados territorialmente por quatro continentes, via descontinuidade linguística (língua transcontinental, transoceânica, transatlântica, transnacional), ser partilhada por várias culturas que a democratizaram, enriqueceram e moldaram, dando-lhe novas colorações e valor acrescentado, como língua absorvida, apropriada, enriquecida, miscigenada, incorporando vocábulos africanos, ameríndios, formando crioulos ou protocrioulos (língua transcultural, dinâmica, migratória, mestiça), permitindo-lhe ser permanentemente atuante e viva (língua flexível e dotada de plasticidade), transitando de uma língua de comunicação internacional (de falantes de português como língua materna ou oficial) para uma língua de comunicação global (como idioma de exportação que vai para além do espaço geolinguístico e lusófono da língua portuguesa).   


Sendo uma língua global, um diassistema, une povos que a usam como um veículo unificador de um dizer, assumindo-se como um vetor estratégico para todos os que por ela comunicam, não só como fonte crucial de apreensão e interiorização de um modo de vida, de agir e pensar, mas também de afirmação cultural e identitária. Registe-se, no Brasil, ter levado à unificação de um país continental. Ter sido essencial na unificação e pacificação de Angola e na afirmação de soberania em Timor Leste. 


Por sua vez, a existência de um idioma comum não equivale a uma inevitável nivelação das diversidades culturais e linguísticas próprias da cada um dos espaços que integram organizações como a CPLP, devendo promover-se e consolidar-se a unidade na diversidade, privilegiando o que é comum quando imprescindível, sem esquecer a heterogeneidade. Exemplos ilustrativos da não incompatibilidade do português como idioma oficial e comum a nível internacional, por confronto com falas locais, é a constatação, na primeira década deste século, do reconhecimento de quase duzentas línguas vivas no Brasil, quatro dezenas em Angola e Moçambique, 20 na Guiné-Bissau, 19 em Timor Leste, 4 em São Tomé e Príncipe e 2 em Cabo Verde (a que acresce o mirandês em Portugal).      


23.06.23
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


CI - PRINCÍPIO DA NÃO DISCRIMINAÇÃO LINGUÍSTICA


Entre os princípios fundadores da nossa cultura civilizacional, sobressai o princípio geral da não discriminação do homem pelo homem, em que se inclui o princípio da não discriminação linguística.


Como organização plurinacional de maior responsabilidade quanto ao futuro e estatuto de todas as línguas, a UNESCO definiu, como regra oficial, que todos os idiomas, por inerência, têm a mesma dignidade, o mesmo merecimento e valor, inclusive para efeitos de proteção legal. Cada língua é um mundo muito especial, uma janela singular do pensamento humano aberta sobre o nosso planeta e ao mundo.


Em síntese, a diversidade linguística é um tesouro cultural da humanidade, que há que preservar. Daí que a extinção de uma língua, qualquer que seja, é uma perda irremediável.


Em paralelo com todos os seres vivos, entre eles os humanos, as línguas fazem-se de experiência, relacionamentos e permanência, vivendo, convivendo e sobrevivendo, mas também nascem, crescem e morrem, casam-se, misturam-se, reproduzem-se e esterilecem.


Se uma língua funciona como um organismo vivo, tem o seu tempo vital, estando a história da humanidade repleta de exemplos de idiomas que chegam, substituem-se a outros, impedem o desenvolvimento de línguas locais, levam à sua extinção, enriquecimento, emagrecimento, dão-lhes valor acrescentado, inclusive em termos recíprocos.


Consentir, porém, na discriminação linguística, em termos objetivos e a qualquer título, é algo que deve ser censurado e evitado, é transigir com a glossofobia, atribuindo uma capacidade glotofágica a certa língua para, em simultâneo, se substituir a outra, provocando a sua morte prematura e extinção.


Permitir que o português seja preterido por um idioma estrangeiro ou por um clube de línguas tidas (supostamente) como mais agressivas e coloquiais, em termos de estatuto ou de praxe, é aceitar a glossofobia, contribuindo para a sua discriminação pela negativa, dizendo sim à endo-glossofobia quando são os próprios falantes nativos a fazer esse culto no seu dia a dia.


Precursores da UNESCO, pela excelência identitária da nossa língua foram, entre nós, muitos nomes da clássica e atual literatura portuguesa, a que se juntam os novos pioneiros lusófonos que a enriquecem criativamente com novos vocábulos ameríndios, americanos, africanos e asiáticos, num valor adicionado que a particulariza, antecipando outros voos onde diversidade linguística se concilia com o princípio da não discriminação linguística.     


16.06.23
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


C -
CHICO BUARQUE E O PRÉMIO CAMÕES


Surpreendeu ser Bob Dylan o vencedor do Nobel da literatura de 2016, dado o prémio ter sido, até então, primordialmente associado à erudição das letras e seus autores, a grandes escritores de todo o mundo, não a um nome tido como um músico e cantor mundialmente conhecido, tendo-se justificado a escolha por “ter criado novas expressões poéticas na grande tradição da canção americana”


Embora autor de alguns livros, não foi essencialmente por eles que lhe foi atribuída a distinção, mas sim pelo conjunto da sua obra, onde sobressai a poesia e um legado poético que o imortalizou como cantor, compositor e músico. 


Embora Dylan seja poeta e haver poetas ganhadores do Nobel da literatura, o seu nome está preferencialmente relacionado com a música, tendo-se transitado de uma interpretação restrita para uma mais ampla quanto à atribuição do prémio literário. 


Com as inerentes adaptações moldadas ao seu contexto, o mesmo sucedeu a Chico Buarque ao ganhar o prémio Camões de 2019, uma vez que pelo historial da distinção os premiados são escritores, poetas, ensaístas, com destaque para o romance, conto, novela, teatro, memórias, crónica, história, crítica literária e estudos literários, estando o nome do carioca comumente ligado à música, sendo mais tido como músico e cantor.


Sucede que o laureado além de cantor e músico, também é compositor, dramaturgo, escritor, poeta, ator, autor de obras de teatro de inúmeras canções, que justificam o galardão que lhe foi atribuído, porque contribuiu, num patamar acima da média, para o prestígio da língua portuguesa e do respetivo património cultural e literário.


Nem é apenas através da escrita que se prestigia e universaliza o idioma comum, como o prova CB, universalizando-o essencialmente por via oral, como intérprete de canções, com o mérito de ainda o ter prestigiado por escrito, incluindo via literatura (com vários prémios), corroborando um maior merecimento para ganhar o prémio Camões. Recebeu-o em 2023, quatro anos após a sua atribuição (2019), por recusa do então presidente brasileiro, o que se lamenta, pois há que saber distinguir e separar o valor intrínseco da obra da ideologia ou pensar do seu autor, o que deve ser algo transversal a toda a arte e grupos sociais, sendo indesmentível que CB dignificou, impulsionou e universalizou o Brasil, a lusofonia e a língua portuguesa.


09.06.23
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XCIX - RESPONSABILIDADES E RECIPROCIDADES LINGUÍSTICAS E INSTITUCIONAIS


Nas inúmeras visitas oficiais de Estado, do anterior e atual presidente do Brasil, sobressai o uso regular, ao que me apercebi permanente, do uso da língua portuguesa como idioma de comunicação global e internacional, no mesmo plano de igualdade e de reciprocidade, com os seus homólogos de outros países. Sucedeu nos Estados Unidos, na China, Rússia, Alemanha, França, Espanha, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Hungria, Argentina, Uruguai, Chile, Japão, entre outros, incluindo colóquios, palestras e entrevistas para a imprensa.   


Nem em inglês, francês, portunhol ou espanholês, apenas em português, em paralelo com o uso da língua materna dos seus interlocutores, com a respetiva tradução.


Também em recente visita do presidente gaulês a Angola, este expressou-se em francês, o seu equivalente angolano em português, usando este, de novo, o nosso idioma comum aquando da última viagem dos reis de Espanha, comunicando estes em castelhano. O mesmo em visitas congéneres com Moçambique.   


Entre nós, é frequente os nossos políticos, ao mais alto nível, em circunstâncias similares, falarem em inglês, francês, português, alemão (se o souberem), chegando a exprimir-se só em portunhol, ou em português e portunhol, em cimeiras, reuniões ou encontros bilaterais ibéricos, sem que haja reciprocidades dos nossos vizinhos, nem sequer quando connosco o atual rei espanhol, não obstante ter vivido vários anos em Portugal.   


Esta nossa não dignificação regular do nosso idioma, em termos bilaterais ou multilaterais, em conjugação com o contexto e a não obrigatoriedade do uso da língua global franca (hoje o inglês), não eleva a língua portuguesa num espaço de diversidade e igualdade recíproca, que merece por direito próprio, corroborado pela sua dimensão geolinguística, sendo uma das mais faladas pelo seu número global de falantes e dispersão intercontinental.       


Indicia-se, de igual modo, que são os “descendentes” linguísticos de Portugal que mais contribuem para a promoção internacional do português, como idioma, em termos de responsabilidade e reciprocidade linguística num patamar institucional, apesar das responsabilidades históricas lusas neste domínio, o que é um contrassenso. 


E os exemplos duma permissividade subserviente das elites tem reflexos na população em geral dos seus países, nomeadamente quando negativos e os seus esforços não têm correspondência recíproca e são inversamente proporcionais aos dos seus parceiros e destinatários, bilaterais ou outros. Mesmo políticos que falam fluentemente inglês, como o presidente francês e o chanceler alemão, são useiros e vezeiros na sua língua materna e oficial, que é menos falada que a nossa, para não referir o uso exclusivo do mandarim e russo pelos seus líderes, mesmo que não sejam fluentes noutra língua, o que não os embaraça, pois impulsionam os seus idiomas, o mesmo devendo ser feito para estimular e dar visibilidade condigna ao português, fale-se ou não outras línguas.   


Ou será que parte significativa das nossas elites caminha para o reforço de uma vocação essencialmente europeísta, abdicando aparentemente de uma promoção mais adequada do nosso idioma, mesmo que o proclamem internacionalmente como uma prioridade estratégica reforçada via CPLP?       


28.04.2023
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XCVIII - POR UM IDIOMA COMUM SEM RESSENTIMENTOS


Eis algumas palavras da intervenção de Paulina Chiziane, escritora moçambicana e prémio Camões 2021, na abertura do festival literário da Póvoa de Varzim, este ano: “Começaria por um verso célebre: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Mas que tempos? De que tempos falo eu, que vim de África? Falo (…) dos tempos de ódio até aos tempos de paz.” 

Acrescenta:   
Estamos aqui nas Correntes d`Escritas, todos chamados a conviver apenas numa língua que é a Língua Portuguesa. Estão aqui todas as raças. Viemos de vários países. Temos várias histórias, algumas de opressão, outras de opressores, outras de lutas de libertação. O que aconteceu para estarmos aqui? O que nos uniu? Mudaram os tempos”   

Prosseguindo, responde: 
“As Correntes d`Escritas provam-nos que, (…), o mundo pode ser melhor. O opressor de ontem pode ser o amigo de hoje. As Correntes d`Escritas: este movimento que nos uniu e tirou de casa, de diferentes continentes, para estarmos aqui. Se, ontem, a língua portuguesa era para nós a língua do opressor (…) hoje é a língua do “bontu” (…) que significa língua de humanidade, (…) de harmonia, (…) de fraternidade. (…) Deixou de ser língua de opressão para ser língua de união. (…) os tempos podem mudar para melhor. (…) E, para o amanhã, na língua portuguesa, podemos construir um mundo melhor.”       

Outro moçambicano, Mateus Katupha, quando antigo ministro da Cultura, em 1999, declarou: “A língua portuguesa já não é mais só dos portugueses, é universal”. 

Linguagem só surpreendente para quem defende que os portugueses transferem para o idioma devaneios, quimeras e sentimentos imperiais, porque a língua nasceu em Portugal, pertence aos portugueses, que não aceitam o princípio simples de que pertence àqueles que a falam, tratando-se de uma visão em que o nosso país, por ter sido o ex-colonizador, tem de ser sempre o mau da fita.   

Por mais que se diga que este idioma comum pertence, em primeiro lugar, aos respetivos falantes em igualdade de partição e uso, que Portugal não programou qualquer estratégia neocolonial, nem tem poder para, doravante, por si só, se impor como “força imperial” através da língua (voluntariamente escolhida pelas ex-colónias), que os antigos impérios coloniais europeus são cada vez menos eurocêntricos, dada a emergência e ascensão, a todos os níveis, de algumas das suas ex-colónias, há sempre quem entenda, por ressentimentos, no mínimo, que tudo o que se herdou do ex-colonizador (e do ocidente) é sempre mau, incluindo a língua, por muito útil e funcional que seja, mesmo que, por mera opção dos mesmos, em qualquer momento, deixe de o ser.   

É, pois, gratificante o reconhecimento feito, sem ressentimentos, a esta língua comum, por vozes africanas, neste caso de Moçambique, nomeadamente por um dos nomes consagrados da literatura moçambicana e lusófona (Paulina Chiziane) que, juntamente com Mia Couto e Craveirinha, também a promovem internacionalmente, e a quem o português muito deve, em novas palavras e vocábulos, originários do continente africano.    


21.04.2023
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


XCVII - DIVERSIDADE, IGUALDADE E RECIPROCIDADE


Se o combate pela diversidade cultural e linguística não pode ser isolado, porque feito com os que para ele sensibilizados, significa que essa partilha é uma participação em igualdade, que acautele e evite posições de preponderância de um dos parceiros.


É saudável e gratificante cultivar e manter a diversidade linguística, dado que cada língua tem um tipo de relação com a realidade, sendo perigoso e redutor poder apenas contar com uma.         


Sendo a língua um bem imaterial, da esfera do conhecimento, difícil de quantificar, o conhecer vários idiomas dá-nos mais probabilidades de encontrar mais e melhor, usando diversas ferramentas para pesquisar a realidade.   


Se é verdade que o princípio da igualdade linguística impulsiona, em sentido crescente, o respeito pela variedade cultural e das línguas, de igual modo, em contrapartida, o progresso e a globalização, resultante dessa reciprocidade, estimula uma uniformização cultural e linguística.     


Não podemos - consciente ou inconscientemente, por predisposição, inércia, paixão, ausência de amor próprio, provincianismo ou complexo de inferioridade - deixar que a nossa língua seja preterida ou dominada por uma estrangeira, revelando baixa consideração por ela.       


O princípio da reciprocidade tem aqui papel primordial, institucionalizando-a em reuniões bilaterais, trilaterais, ou similares, em termos políticos e governamentais, onde cada elite ou poder interveniente faz questão em usar, mediática e publicamente, o seu idioma, dignificando-o num patamar de diversidade e igualdade recíproca, por maioria de razão quando línguas de comunicação global e internacional, como a nossa, nem sempre acarinhada e favorecida, por nós, a esse nível, por quem tem o dever primordial de o fazer, por confronto com terceiros que não ocultam a sua dos ouvidos alheios, nem a têm em baixa estima, muito menos na própria casa.


10.03.23
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


XCVI - PERFIL DE ANTERIORES E NOVAS VAGAS IMIGRATÓRIAS


Comparativamente às novas vagas imigratórias em Portugal, eram as anteriores, no essencial, de imigrantes das ex-colónias, cuja ligação se fixava, maioritária e naturalmente, por uma língua comum.  


Eram imigrantes preferencialmente do espaço lusófono, ao invés de um novo perfil de origem anglófona, francófona, asiática, eslava, entre outros.


Enquanto anteriormente se diferenciavam, na quase totalidade, por baixas rendas e qualificações, há um novo perfil imigratório que se particulariza por serem recursos humanos qualificados e de um elevado património líquido. 


Sendo um país intercultural, aberto a imigrantes, de emigrantes e com uma população das mais envelhecidas, é-nos dada uma esperança para amenizar o inverno demográfico e escassez de mão de obra.  


Sucede que, em termos linguísticos - e se acreditarmos que o português é um ativo que não podemos desperdiçar - há uma nova vaga de imigrantes que se limita a estar entre nós enquanto auferir um benefício pessoal imediato, não se vendo como solução para os nossos problemas demográficos, económicos e outros, alheando-se da nossa cultura, a começar pela língua, e não reconhecendo em Portugal uma fonte civilizadora. 


São, essencialmente, imigrantes muito qualificados, de altos rendimentos, criativos, cosmopolitas, globalizados, falantes fluentes de inglês, entre outras línguas, com capacidade para uma mobilização conjuntural e permanente (de país em país), ao gosto das circunstâncias, não portadores de uma mais valia estrutural, com uma experiência de inclusão limitada. 


Interessa que permaneçam, não só porque aconchegados pelo nosso clima, pacifismo, natureza, gastronomia, baixo custo de vida (para eles), mas também abrindo novos espaços e mentalidades, investindo, criando postos de trabalho e integrando-se, o que mais vezes, do que seria desejável, não acontece, manifestando-se amiúde na não aprendizagem da nossa língua.


Nem sempre por responsabilidade exclusiva, dado o provincianismo de alguns portugueses, no próprio país, omitirem o idioma materno e usarem o alheio, mesmo que o interlocutor se esforce por o aprender e falar, chegando ao cúmulo de ter presenciado, num hipermercado, uma portuguesa atender, sempre em inglês, um imigrante que se esforçava, expressando-se e respondendo sempre em português!  (apelei a uma colega, que se apercebeu, para chamar a atenção para o exagero, que compreendeu, prontificando-se a fazê-lo, dado me ter antecipado e não poder esperar).  


O que nunca exclui, por uma questão de princípio e de respeito para com o país que nos acolhe, que todo o imigrante se tente integrar e aprender, ab initio, o nosso idioma, apropriando-se dele e tornando mais fácil, por arrastamento, a compreensão e interação com a nossa cultura. 


Imigrantes de mais baixos rendimentos e qualificações, incluindo países de nível de vida inferior ao nosso, como das ex-colónias, leste europeu e de algumas bolsas asiáticas (não todas), reveem-se mais e melhor, até agora, como solução para a crise demográfica e aprendizagem da língua, sendo esta comum, para alguns. 


Anote-se que entre os originários do Brasil, falantes de português na vertente brasileira, há um novo perfil e uma nova vaga de pessoas qualificadas, de altos rendimentos, diferentes dos brasileiros comuns, singularizando-se por bolsas de brasilidade, preferindo ser vistos como “não residentes” e não como “imigrantes”, em paralelo com os que estão de passagem ou trabalham no nosso país para o exterior, em que uma percentagem relevante nos quer mais como de acolhimento que como de integração.


Em qualquer caso, o permanente aumento da população estrangeira obriga Portugal a refletir sobre o seu futuro como país, contando com o perfil das tradicionais e novas vagas imigratórias, em termos de uma maior inclusão e integração (e não só acolhimento), com reflexos na nossa história e cultura, a começar pela língua, um ativo primordial e internacional de projeção global.


03.03.23
Joaquim M. M. Patrício