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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS LUSO-TROPICAIS

 

3. GILBERTO FREYRE E O LUSO-TROPICALISMO  

 

Tendo o Trópico e a Europa como presenças decisivas na formação, espaço e tempo brasileiro, Tropicalização e Europeização constituem, em sincronia, os dois processos principais que se vêm defrontando no Brasil, existindo uma interpenetração de ambos quanto ao que seja mais particularmente nacional e original na situação brasileira.

 

Entende-se aqui por Trópico não só a ação, sobre a formação brasileira, de uma ecologia tropical preponderantemente física, no sentido climatérico ou geográfico, como a influência que vêm tendo sobre a mesma formação culturas ou civilizações e grupos étnicos de procedência notoriamente tropical: ameríndios, negros, indianos.   

 

Em “O Mundo que o Português Criou”, Freyre posicionava-se luso-tropicalmente no complexo luso-afro-asiático-brasileiro: “mundo transnacional ou supranacional que constituímos, pelas nossas afinidades do sentimento e da cultura, portugueses e luso-descendentes pela “mestiçagem” como ”um elemento (básico) de integração”, sendo a miscibilidade, mais do que a mobilidade, o processo pelo qual os portugueses se compensaram do défice de recursos humanos em face de uma colonização em larga escala e sobre áreas extensíssimas.

 

A uma visão transnacional da língua, em que a língua portuguesa se tornou após a independência do Brasil, que viria a ter como referência o conceito de Fernando Pessoa apontando para uma Pátria abrangente de mais de uma soberania, e mesmo de comunidades não soberanas, adicionar-se-ia uma visão transnacional da língua mais alargada para a área da cultura, atribuindo uma especificidade luso-tropical aos sincretismos que dela sobressaem sobre a definição das fronteiras do Ocidente.

 

Sendo, neste ponto, GF referência incontornável, inicialmente como definidor da brasilidade, depois como reabilitador da imagem dos trópicos, por fim como teórico do luso-tropicalismo, do ibero-tropicalismo e euro-tropicalismo, considerava o Brasil um pluralismo convergente, porque dinamicamente inter-regional, inter-racial e intercultural, tendo-o como uma democracia étnica e racial ainda imperfeita, mas já consideravelmente avançada, em que a mágica da mestiçagem transforma hoje o mundo luso e amanhã transformará o mundo no espaço de todas as raças. 

 

Se ninguém é perfeito, defende que in casu parecemos ser menos imperfeitos.

 

01.11.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS LUSO-TROPICAIS

 

2. GILBERTO FREYRE E O LUSO-TROPICALISMO

 

Num momento histórico em que se desenvolviam teorias que atribuíam à “mistura das raças” um dos principais fatores de “degeneração” do brasileiro enquanto povo, Gilberto Freyre via o resultado dessa miscigenação como muito positivo, tornando a multiplicidade do brasileiro mais múltipla o que, por sua vez, o tornava um povo ainda mais rico. 

 

Pronunciando-se sobre este tema, pela positiva, e ultrapassando ideias feitas até aí tidas como dados adquiridos, pôs de lado o pessimismo derrotista de gerações anteriores, que se julgavam condenadas ao fracasso, pela sua condição de parte integrante de países sem futuro, em consequência do carácter mestiço da sua população, devolvendo-lhes uma confiança e um orgulho expressos pela certeza das vantagens que a completa mestiçagem proporciona, a nível mundial, aos povos lusófonos. 

 

Freyre era daqueles que pensavam que o aspeto estético da miscigenação é de relevante importância sócio-cultural, podendo contribuir decisivamente para uma nova valorização do homem miscigenado como ser eugénico e estético e, através da sua eugenia e estética, para a sua ascensão social, para a sua integração, para uma integração pan-humana meta-racial. 

 

O Brasil era tido como um país onde não existiam nem negritudes nem branquitudes, ao contrário dos Estados Unidos e da República da África do Sul. Defendia que o Brasil se afirmava já, antecipando-se há muito, como uma nação de gente em grande parte morena, esteticamente atraente, intelectualmente capaz, socialmente ajustada numa cultura que é síntese de várias culturas contribuintes e não exclusivista.

 

Defendendo a ausência de raças capazes ou incapazes de civilização, concluiu que os portugueses nunca foram apologistas e portadores da mística da pureza da raça, o que favorece o aparecimento da verdadeira democracia, onde não se estabelecem (ou estabelecem menos) preconceitos. Daí o seu apelo veemente de que todos os lusófonos espalhados pelo mundo, nunca renunciassem ao princípio e ao método de democratização das respetivas sociedades pela miscigenação, pelo intercurso entre as culturas, método e princípio que tinha como o melhor contributo luso-brasileiro para o melhor reajustamento das relações entre os homens. 

 

Freyre nunca afirmou a existência de uma democracia racial pronta e acabada na lusofonia, mas sim que Portugal e Brasil estão mais próximos dela que qualquer outra cultura ou civilização atual, por confronto, por exemplo, em tempos recentes, com a ex-Jugoslávia, Kosovo, Serra Leoa, Uganda, Ruanda-Burundi. Pretendia também que a África e Ásia lusófonas seguissem este caminho, adaptando-se e inovando-o. 

 

Em 1952 escrevia Gilberto Freyre:  

 

”O português é grande por esta sua singularidade magnífica: a de ser um povo luso-tropical”.     

 

E acrescenta:

 

“(…) é preciso que nem os portugueses nem os brasileiros responsáveis pelos destinos das duas grandes nações luso-tropicais de hoje se deixem envolver por alguma retardatária ou arcaica mística arianista, antes se entreguem com uma audácia cada dia maior à aventura de se desenvolverem em povos de cor, para neles e em gentes mestiças, e não apenas em brancas, sobreviverem os melhores valores portugueses e cristãos de cultura num mundo porventura mais livre de preconceitos de raça, de casta e de classe social que o atual. O facto de os norte-americanos de agora antes animarem do que contrariarem os casamentos de seus soldados brancos com moças coreanas talvez já represente meia vitória do melanismo - há séculos seguido pelos portugueses - sobre o albinismo anglo-saxónico e dos alemães e dos holandeses (…)” (“Um Brasileiro em Terras Portuguesas”).

 

25.10.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS LUSO-TROPICAIS

 

1. GILBERTO FREYRE E O LUSO-TROPICALISMO    

O sociólogo e ensaísta brasileiro Gilberto Freyre é uma referência incontornável, para uns, e dispensável, para outros.

Amado e desamado, a sua obra não é consensual, mas sim polémica, aberta à controvérsia, à contestação, ao debate, à discussão.   

Adulado por uns e censurado por outros, o seu legado perdura, sem a marca da indiferença, antes a da permanência temporal.

Concorde-se ou não, merece referência, com os seus merecimentos e críticas de amores e desamores tropicais. 

Há que falar, ab initio, do seu luso-tropicalismo. 

Tentou demonstrar o papel relevante que os portugueses tiveram nos trópicos.

Os primeiros estudos sobre os trópicos foram feitos pelos escritores que acompanhavam os navegadores e pelos europeus que se fixavam nos territórios que ocupavam.   

Gilberto Freyre defendeu existir um novo ramo de conhecimento, chamado tropicologia, que se destinava a estudar as regiões tropicais, constituídas por sub-ramos ligados a diversos países coloniais, como a anglo-tropicologia, a franco-tropicologia e a luso-tropicologia. 

Cada um dos países que se tinha disseminado e participado nas navegações marítimas e na colonização tinha a sua própria tropicologia, com a particularidade específica de se diferenciarem entre si consoante o método adotado no modo de observar os trópicos e neles viver.   

Nesta sequência, o luso-tropicalismo é uma consequência do processo de colonização portuguesa nos trópicos, da especial capacidade de adaptação e relacionamento dos portugueses às terras e gentes tropicais, manifestando-se essencialmente através da miscigenação e interpenetração de culturas.   

A obra “Casa Grande e Senzala” lança as bases do luso-tropicalismo, que de modo sintético se pode definir como uma “ciência” especializada no estudo sistemático do processo ecológico-social de integração de portugueses, seus descendentes e continuadores em ambientes dos trópicos. 

Tem o português como um povo indefinido entre a Europa e a África, de origem étnica híbrida, como gente flexível, flutuante, de plasticidade intrínseca, de sentido pragmático e riqueza de aptidões, sem imperativos categóricos em termos doutrinais e morais, reinando sem governar, no Brasil, miscigenando-se com os índios e os negros, formando nos trópicos uma civilização sui generis equilibrada, apesar dos antagonismos. Estas caraterísticas de superação das hostilidades, mobilidade, plasticidade, complexidade, mestiçagem e erotismo são preponderantes na linguagem do bem conhecido livro clássico de Freyre.   

Sendo o Brasil de base mestiça, pelo caldeamento de três raças, a branca, a negra e a ameríndia, também a linguagem em “Casa Grande e Senzala” é mista, colorida de saberes, sabores e efeitos de sentido.

Para além de ter a mobilidade, miscigenação e aclimatibilidade como três caraterísticas fundamentais do povo português, Freyre acaba por mostrar ao povo brasileiro, em toda a sua obra, a necessidade de se aceitar tal e qual como é, não se envergonhando nem inferiorizando.

 

18.10.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício