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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARIA ANDRESEN 

  


Dies Irae I


(Dreyer)

A natureza é escassa e o sol quando brilha é baço;
é furtiva por aqui a alegria
quando quase sem aviso nos visita

Há um foco de luz a desenhar o mundo
a luz fria, a luz do desassombro:
porque a morte de Herlof Marthe
soa e contagia

Vai manhã alta no coração de Anne
e altas são as chamas do castigo
– aqui o sol é frio –
Assombra-nos como um canto de rotina
Herlof Marthe e o seu dom pressagiante

A sentença avançará com a sua luz contida
com a sua faca propícia
a sentença avançará na sua forma fria

Só Anne convoca o amor, o venenoso amor
e com Martin assim caminha sobre pedras –
ao longe o som do machado corta de frio o ar


in Lugares, 2010


Dies irae I


(Dreyer)

Nature is sparse and the sun when it shines is dim;
joy is furtive around here
when it visits with almost no warning

There’s a beam of light tracing the world
cold light, ungiving light:
for the death of Herlof Marthe
resounds and spreads

The morning tide is high in Anne’s heart
as high are the flames of retribution
– here the sun is cold –
Herlof Marthe and his foreboding gift
haunt us like a persistent song

The verdict will go forth with its restricting light
its propitious knife
the verdict will go forth in its coldness

Only Anne summons love, the poisonous love
and walks with Martin over stones –
in the distance, the sound of the axe cuts coldly in air


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARGARIDA VALE DE GATO  

  


Ressabiadas


Talvez lá no fundo acredite
que os seres humanos são todos sensivelmente
os mesmos em toda a parte, mas então
necessariamente as mulheres são mais.
Costumes que frequentamos:
o arame da loiça, os panos dos pratos, os ganchos e as linhas
do estendal, a vinha-de-alhos, o fogão,
o alguidar, guardamos os restos, torcemos
os trapos, os nossos recados, os nossos sacos, os nossos ovos.

Certamente que eles, em grande maioria,
escanhoam os queixos e gostam
de arejar, mas são médicos, polícias,
engraxadores, economistas
e os vários naipes da banda filarmónica
nós somos todas domésticas, mesmo

assim não nos entendemos, e
nem serve escrever isto
que o maniqueísmo em traços largos
resvala na aldrabice, e a poesia
vem dos anjos já se sabe
carecidos de sexo.

E aliás que me rala a mim,
levo a minha vida e tenho o amor
de que não desconfio
e se consolo o cio e a fome
decerto falo de cor,
nem é por isso que me doem os calos
mas por causa dos bicos
dos vossos saltos
no desnível dos soalhos, refinadas
galdérias que se tomam a sério,
pestanas certeiras e beiços
que brilham, línguas que estalam
e mamas que chispam

corada invoco a imagem mal tirada
da fêmea recortada ao macho que a conforma;
sei que desminto qualquer laço comunal
e seja como for ninguém pediu
o meu palpite, pelo que não me habilito
e me desquito, acinte
mudo, era eu

quem estava mal.


in Mulher ao Mar, 2010


Resentful Women


Maybe deep down I believe
human beings will be pretty
much the same everywhere, but then
I figure women are the more.
The things we share,
the dustcloth, the tablecloth, the clothesline,
the shopping list, the marinade, the stove,
the basin, we cook our pans and rinse’em,
our errands, our bags, our eggs.

Surely they, for the most part,
shave their chins and love
the outdoors, but they are doctors,
farm men, stockmen, stockbrokers and the
whole gamut, we are
all house-tight, and

still don’t seem to agree, writing
this will do no good, narrow-minded
border etching, dualistic bullshit,
and poetry is descended from angels
who we all know are sexless.

Fine. Why do I bother,
I do my stuff and love my man,
have nothing nasty to complain,
he feeds my hunger so why
do I snarl? It’s not my shoes
I feel tight in, it’s your tarpaulins,
your high-heels, resentful women
I take in.
Your witty snippets, cracking the dishes,
your lipstick anger, your breasts
ajar, at the coffee-table
poisoning the air.

But when I talk of prejudice inherited,
of founding fathers, of floundering mothers,
you rage, you snap,
O for christ’s sake ya full of crap
what gives you the right to patronize?
I pay my bill, I rise, I pack, away
we break,

it was
my mistake.


© Written in English by Margarida Vale de Gato, 2010
Translated by Margarida Vale de Gato
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MARGARIDA FERRA 

  


Preparação do solo


Comprei finalmente
a floreira, agora suspensa
no parapeito da cozinha.
Entre o armário e o balcão,
pode ser que sirva
ainda
de lugar a andorinhas e ervas aromáticas.
O vento há-de trazer-me
tudo isso e também
escapes, monóxido de carbono.

Esgotadas as emendas
e todos os outros males,
dediquei-me
com minúcia
e seriedade
(o possível)
a criar na terra as palavras
normais que me sobravam
no fundo dos bolsos


in Curso Intensivo de Jardinagem, 2010


Preparing the ground


At last I bought
the flower pot, now sitting
on the kitchen window sill.
Between the cupboard and the sink,
it may perhaps be good
still
to welcome swallows and herbs.
The wind will bring me
all this as well as
exhaust pipes, escaping carbon monoxide.

Corrections and other evils
having also been exhausted,
I concentrated
in detail
and seriously
(as much as possible)
on growing the
everyday words left over
in my pockets.


© Translated by Ana Hudson, 2013
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MANUEL DE FREITAS 

  


Restaurant Biblioteket


Há poemas assim, que não precisam
de ser escritos; apenas enunciados,
ditos em voz baixa a mais ninguém.
A cidade levar-te-á onde te quiser levar,
indiferente à paixão ou à minúcia dos teus passos.
Quem esteve na Toldbodgade, 5,
depressa concordará comigo.


in Brynt Kobolt, 2008


Restaurant Biblioteket


There are poems which, as they are, don’t need
to be written; just summoned,
spoken quietly to no one else.
The city will take you wherever it will,
indifferent to the passion or preciseness of your steps.
Who has ever been at 5, Toldbodgade
will promptly agree.


© Translated by Ana Hudson, 2012R
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE MANUEL ANTÓNIO PINA  

  


Ruínas


Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado interrompido.

O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam,
e talvez devesse ter começado por aí.

Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha Igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.


in Como se desenha uma casa, 2011


Ruins


Regardless of where I started,
with the form or the meaning,
all was left undone, the done and the not done,
as in agitated, interrupted sleep.

Your name held unattainable heights
and dimly lit places where
timid animals hid not showing up till dark
and perhaps I should have started there.

Now it’s too late, nothing but ruins
of what might have been;
I’ll build over them my Church
like one returning to a house at the close of day.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE LUÍS QUINTAIS  

  


XXVI


Entradas, saídas, fronteiras, lâminas sobrepostas
sobre o tecido denso da noite.

Um homem adormece, os céus deslocam-se
sobre o Atlântico, mais nocturnos que o sono

que lhe embaraça a reconhecida imagem
da sua mente comovida pela morte – «a minha morte»,

terá ele cantado por décadas -,
mais nocturnos que a casca das árvores

a lápis de cera negro pintada pelos impenitentes
desenhadores de árvores que são os filhos,

mais nocturnos que este líquido teatro
percorrendo as imagens, o irreversível tempo,

esse, onde, no interior veloz, se queimam as nossas vidas,
mais musicais que o preciso registo da vaga pauta

de onde a mente retira palavras desde o início antigo.
Um pavão abre o azul da mente, espelha-a,

e depois grita. Entradas e saídas, fronteiras,
lâminas de uma perfeição extrema e difícil expõem-se.

Um homem adormece. Os céus viajam.


in Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro, 2010


XXVI


Ways in, ways out, borders, superimposed blades
over the dense fabric of night.

A man sleeps, the skies move
over the Atlantic, more nocturnal than the sleep

that obscures the recognised image
of his mind moved by death – ‘my death’,

he must have sung for decades –
more nocturnal than the bark of trees

painted in black crayon by the impenitent
drawers of trees that our sons are,

more nocturnal than this fluid theatre
running through images, through irreversible time,

the one, where, in its flashing core, our lives burn,
more tuneful than the precise register of the vague music sheets

from which the mind has extracted words since the first beginning.
A peacock opens the blue of the mind, mirrors it,

then screams. Ways in, ways out, borders,
blades of extreme and difficult perfection are exposed.

A man sleeps. The skies travel.


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese 

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE LUÍS FILIPE PARRADO 

  


Barcos, livros, bicicletas


O nosso amor é belo
como as viagens de Inverno
que nunca fizemos juntos,
como os países quentes
que não visitámos.
É belo como os comboios perdidos
no último segundo,
ou as pequenas cidades portuárias
descobertas por acaso.
Belo como mapas rasgados
a que faltam as linhas das estradas secundárias,
como montanhas cobertas de nevoeiro
em dias de calor,
barcos numa baía deserta,
livros cheios de areia,
bicicletas sem travões nem destino.
Belo como o sol
que vai morrer depois de nós
daqui a cinco mil milhões de anos
e belo como o sopro selado
do coração das coisas.
É assim o nosso amor. Tão belo,
tão claro, tão puro
que, de olhos postos na noite,
chegamos a acreditar que existe.


in Criatura nº 4, 2009


Boats, books, bicycles


Our love is beautiful
like the winter journeys
we never did together,
like the hot countries
we’ve never been to.
It’s beautiful like a train missed
at the last moment,
or a small harbour town
accidentally found.
Beautiful like torn maps
with the minor roads unmarked,
like mountains shrouded in mist
on a hot day,
boats in a deserted bay,
books peppered with sand,
bicycles with no brakes or destination.
Beautiful like the sun
that will die after us
five thousand million years from now,
and beautiful like the sealed breath
in the heart of things.
Such is our love. So beautiful,
so clear, so pure
that, eyes set on the night,
we manage to believe it exists.


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE LUÍS FELÍCIO


E. um fogo


1.
um fogo
em cada mão

ervas –

árvores

acacia anegadensis
acacia melanoxylon –

noite pétala areia água

um nome tão submerso e
indistinto

o modo como nos levamos
como nos arranjamos –
como queremos a terra por dentro –
como pomos boca língua lábios no odor

como somos simétricos como caímos
(como o ocidente)

mapa e infância
odor e gesto
nuca e perfume

e os olhos ao centro de onde
toco de onde te toco onde
tens essa fome tão negra tão vermelha
essa que não aparece na fotografia

essa onde tens um fogo uma rosa
em cada mão essa por que eu digo
essa por que me fazes dizer

rosa árvore estrela
e a coisa marcante
essa coisa delirada essa assim tão arranjada
que tens como tens a minha boca

essa coisa arrumada aprumada dada
pelo teu assim simples gesto tão secular
de tocar a alma dos gerânios
diante daquela parede onde tive
o teu corpo

essa coisa que eu sou
pelo teu tão envolvido gesto de me cegares

onde eu quero

tenho-te mais ainda quando (te) perco
o odor dos teus joelhos
ou essa estrela essa pátria cor de mármore
esse musgo esse lastro que é como o amor ou

uma criança em meio da paisagem
(como em meio do poema eu)
assaltada pelo perfume

uma criança a dizer os nomes
uma criança a amar o centro
dos mapas a dizer

minha pátria tão infância
a dizer

como me seguras o sangue todo
como me arranjas o lugar de eu ser
aquele que diz o centro desse laço

e a cor dos lábios vermelhos a dizer

oliveiras acácias magnólias
(um modo de cair)
a querer
todo o odor do mundo
todo nos ramos o peito cercado

o sangue extremo de te tocar onde
tens a giesta mais densa
e essa fome assim tão medieval de me levares
de me despires diante das janelas sob
as ramagens carregadas de frutos
de me quereres pelo meio (por)

essa fome de não termos nem casa
nem nome apenas

dois fogos um em cada mão e

uma árvore na memória e
terra e sangue e

a fome secular da madeira
a fome a seiva o sangue (e o poema)

ao centro o rosto

um barco vermelho ou
dois vulcões

um em
cada mão
um fogo

e o amor ao centro como na fotografia

uma infância toda rasa toda entrada (tão)
no peito

e de lábio a lábio
de um lado e do outro

ervas

estrelas como sementes
rosas
sobre a mesa

a fauna que queremos –
pernas pele calor lábio mel
eu canto eu decanto –

e o odor –

e eu a querer-te já
como uma fome toda

sem nome –

(o sangue hasteado raso como um rio ou
como uma árvore uma casa no pó sem nome
como te respiro a vagem que me abres
amarela quando o sol

e sempre já
pretérita no ensejo)

da tal semente vermelha
pelo peito

pelas pernas pelo laço pelo lastro

quero-te assim
navegada acesa

e de seda quando te toco entre
o calor o sangue

quando te toco onde não tens mais nome
onde és desde sempre coisa acesa

onde sou fogo ladeado
barco lábio e semente

quando me semeio
quando sou coisa semeada
quente coisa de seiva

quando sou coisa colhida
quando te colho pelos ombros
quando quero os teus lábios

quando somos infância entrada
no calor
quando somos
dois fogos entre quatro braços
como naquele quadro de klee

que nunca te mostrei
que nunca te disse

como – quando – conto o tempo todo
pelo movimento dos teus lábios
ou todo o espaço está contido nesse
movimento de segurares de pousares
duas rosas sobre a mesa
e esse peito ladeado

esse movimento que arranjas
esse fogo que adornas
e o calor e o odor e o sangue com que me cercas

e esse gesto de segurares de teres
a infância sempre
ao meio do peito
o dia todo ao meio do rosto

(e te deitas erva)

para me dizer
como me queres
como (me) escolhes
como te colho

e como te não cinjo toda
como te sinto

semente vermelha
semente aberta
como uma fome tão certa

como dentro da madeira
a seiva coisa sublevada
(no poema)

quero-te ainda mais quando tens o fogo
entre duas mãos duas rosas pela cintura

e me cercas assim com
(metáforas)

a tal coisa que fazemos
com o mel e os lábios e o tempo

ao meio do dia
ao meio do peito

com a infância ao meio das mãos
todas as coisas que fazemos com a água
e os membros a pele a boca e o perfume

despidos
pétala a pétala tão nus
como o outono nas florestas
tão nus como um outono sem árvores

as coisas que fazemos com o amor
o fogo a lei o sangue que partilhamos sempre

à refeição

e os olhos
como crianças cegas
(assim tão subjugadas ao
jogo/jugo)

somos barco e lábio
pedra e memória
somos seiva árvore crianças cegas
(somos mãos: coisas de odor e pele)

viajando sobre os mapas

juntos somos sós
como uma paisagem sem lábios

como rios sobre a mesa temos
todas as horas ao centro do sangue
onde me tocas quando dizes que amas

e somos inteiros como frutos como
o pão

sobre a mesa

gosto quando és rosa arranjada
como te espraias pelo meu pensamento
quando me joias o sangue todo
quando eu tento dizer

a infância tão agrária de termos
entre dois braços essa coisa

densa sem memória sem séculos
essa só coisa sem erudição nenhuma
como o fogo tão descalço sobre a pedra nua

como te quero

eu sou apenas o gesto de te beijar os joelhos
e esse sangue ao centro onde seguras
tudo o que te dou

onde seguras esse gesto essa rosa
esse delta que eu quero com toda
a minha areia com toda a minha água com
toda a minha fome

essa pátria tão traída
a areia a água intraduzível
essa de dizer como tu
seguras esse movimento que me faz
esse que eu faço como sou

semente aberta pátria solícita
lugar incrível de te ter pela anca
pela boca de ter pelo que a água escolhe
de saber como eu digo

de te ter pela rosa
pela mão pelo ombro
pelo sangue que me dás quando me dizes

diante da janela
diante da terra sem nome
quando me dizes

e quando eu ouço
esse gesto de semeares infâncias sem idade nenhuma
na minha pele abalada
pelo crescimento das árvores
das palavras

quando eu digo como te toco
onde tu não podes dizer onde tu sentes tudo
o que este lugar sente tudo
o que eu sinto
quando tu fazes com que eu queira
essa rosa que tens entre duas mãos

esse fogo tão raso tão cego

como entre dois lábios eu te quero o tempo todo

apenas por essa coisa tão coisa de querer
essa só coisa que tu tens

(sou tão-só um modo de querer
a amêndoa dos teus olhos)

um amor tão puro como um livro
cortado ao meio


in a sombra dos lugares, 2011


E. one fire


1.
one fire
in each hand

grass –

trees

acacia anegadensis
acacia melanoxylon –

night petal sand water

such a submersed and indistinct
name

how we carry ourselves
how we do ourselves up –
how we want the inside of the earth –
how we place mouth tongue lips on smell

how we are symmetrical how we fall
(like the west)

map and childhood
smell and gesture
nape and scent

and eyes in the centre from where
I touch from where I touch you where
you keep that hunger so black so red
the one not appearing on the photograph

the one where you keep one fire one rose
in each hand that for which I say
that for which you make me say

rose tree star
and that striking thing
that delirious thing the one so made up
which you own like you own my mouth

that tidy upstanding thing granted
by your gesture so simple so ancient
of touching the geranium’s soul
opposite that wall where I had
your body

that thing I am
through your gesture so involved in blinding me

where I want to

I have you even more when I lose (you)
the smell of your knees
or that star that marble-coloured homeland
that moss that ballast which is like love or

a child in the landscape
(like in the poem I)
beset by the scent

a child saying the names
a child loving the centre
of maps saying

my homeland so much childhood
saying

how you hold all my blood
how you find the place for me to be
the one telling the centre of that knot

and the lips’ colour saying

olive trees acacias magnolias
(a way of falling down)
wishing for
the whole scent of the world
all in the branches the encircled chest

the extreme blood of touching you where
you keep the densest broom
and that hunger so medieval for taking me
undressing me by the window underneath
the branches laden with fruit
wanting me in my core (by)

that hunger for having neither home
nor name only

two fires one in each hand and

a tree in the memory and
earth and blood and

the wood’s secular hunger
hunger sap blood (and the poem)

in the centre the face

a red boat or
two volcanoes

one in
each hand
one fire

and love in the middle as in the photograph

a childhood all levelled all enclosed (so much)
in the heart

and from lip to lip
one side and the other

grass

stars like seeds
roses
on the table

the fauna we want –
legs skin heat lip honey
I chant I enchant –

and the scent –

and I wanting you already
a complete hunger

nameless –

(blood flying flat like a river or
a tree a house through nameless dust
as I breathe in the shell you open for me
yellow when the sun

and always already
past in the chance)

of that red seed
on the breast

On the legs knot ballast

I want you thus
alighted sail

and silk when I touch you between
heat blood

when I touch you where there’s no longer a name
where you have for ever been kindled

where I’m fire flanked
boat lip seed

when I am seed
when I am seeded thing
warm sap substance

when I am harvested
when I clasp your shoulders
when I want your lips

when we are childhood embraced
in the heat
when we are
two fires inside four arms
like in that painting by klee

I never showed you
never told you

how – when – I count the entire time
by the movement of your lips
or the entire space enclosed in your
movement as you hold lay down
two roses on the table
and your flanked figure

the movement you manage
the fire you adorn
and the heat the scent the blood that encircles me

and the gesture of holding possessing
childhood always
in your core
the whole day inside a countenance

(and you lie down grass)

to say to me
how you want me
how you choose (me)
how I gather you

and how I don’t wholly gird you
how I feel you

red seed
open seed
like the surest hunger

like inside the wood
the sap heaved up
(in the poem)

I want you even more when you have fire
between your hands two roses round the waist

and you encircle me with
(metaphors)

that thing we do
with honey and lips and time

in the core of the day
in the core of the heart

with childhood held in the core of the hands
everything we do with water
and members skin mouth and the scent

undressed
petal by petal as naked
as autumn in the forest
As naked as autumn without trees

things we do with love
fire law blood we always share

at table

and eyes
like blind children
(so subdued to
bonded game)

we are boat and lip
stone memory
sap tree blind children
(we are hands: things, smell and skin)

travelling on maps

together we are
like a landscape without lips

like rivers over the table we have
every hour in the centre of blood
where you touch me when you say you love me

and we are whole like fruit like
bread

on the table

I like it when you are embellished rose
how you flood my thoughts
when you take all my blood apart
when I try to say

such earthy childhood of having
between two arms that dense

thing without memory or centuries
that sole thing with no erudition at all
like barefoot fire on naked stone

like I want you

I’m only the gesture of kissing your knees
and that blood in the core where you hold
everything I give to you

where you clasp that gesture that rose
this flooding I want with all my
sand all my water with
all my hunger

that homeland so betrayed
untranslatable sand water
of saying how you
hold that movement that makes me
the one I do the way I am

open seed eager land
incredible place of having you your hip
your mouth what the water chooses
to know like I say

of having you your rose
your hand your shoulder
your blood you give me when you say

at the window
facing the unnamed land
when you say

and when I hear
that gesture of sowing ageless childhoods
on my skin shaken by
the growing of trees
words

when I say how I touch you
where you cannot say where you feel all
this place feels all
I feel
when make me yearn for
that rose you hold between two hands

that fire so flat so blind

like in between two lips I want you all the time

only for that thing so real for wanting
that sole thing you have

(I’m but a way of wanting
the almond of your eyes)

a love as pure as a book
cut in half


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA


Os justos


Começam o dia louvando o imperfeito
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho

Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado

Estão sentados á soleira dos espaços
trabalhados devagar pelo silêncio

Quando Deus voltar
não terá de arrombar todas as portas


in Estação Central, 2012


The just


They begin the day extolling imperfection
time that leans towards the broken side
the few oranges that turn
yellow amidst the straw
the wine-emptied amphorae

They look into the white innocence of the morning
and in everything that helps a man with his trade
they praise the vulnerable and the unfinished

They are sitting on the thresholds of spaces
slowly being worked by silence

When God comes back
he won’t have to break down every door


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese

 

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE JOSÉ MIGUEL SILVA 


Queixas de um utente


Pago os meus impostos, separo
o lixo, já. não vejo televisão
há. cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.


in Ulisses já não mora aqui, 2002


User Complaints


I pay my taxes, recycle
the rubbish, haven’t watched
telly for five months, everyday
I pray for at least two hours
with a book on my knees,
never miss a family visit,
always use public
transport, rarely forget
to leave water in the cat’s
dish, try to be civil
to my neighbours and never spit
on other people’s shadow.

I can’t remember if the doctor
told me this was the right prescription
to save the world or just
to be happy. Either way
I can’t see any results.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese