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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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VOLTAR AO ESSENCIAL

  


1. Nestes tempos do imediatismo, do ruído ensurdecedor causado pelas centrais da estupidificação, é urgente voltar ao essencial. E o que há de mais fundamental, essencial, do que a questão de Deus? Há Filosofia sem a pergunta por Deus? Se não quisermos permanecer na superfície ou nas simples convenções, se quisermos apresentar seriamente o fundamento da dignidade humana, dos direitos humanos, não é aí que vamos desembocar? Como diz Kant, o ser humano é fim e não simples meio. Ora, o que é que é fim em si mesmo senão o Infinito? E o que tem o ser humano de infinito senão a pergunta ao infinito pelo Infinito? O ser humano tem dignidade porque de pergunta em pergunta acabará por desembocar na pergunta pelo Fundamento último e o Sentido último, por outras palavras, na pergunta por Deus, independentemente da resposta que lhe dê: uns decidir-se-ão pela fé, outros pelo agnosticismo, outros pelo ateísmo.


Aprofundando, voltamos sempre à questão de Deus. Na sua obra Der Gott der Philosophen (O Deus dos filósofos), Wilhelm Weishedel mostrou que a questão de Deus constitui precisamente “a problemática central da Filosofia”, de Tales e Anaximandro a Nietzsche e Heidegger. “Mesmo onde a teologia filosófica está em decadência, continua a ter uma importância decisiva, pelo menos como algo que há que superar antes de qualquer outra coisa. Por isso, com razão o discurso sobre Deus é considerado como o problema essencial da Filosofia.”


2. Nesta quadra pascal, regresso, mais uma vez, a esse sublime e abissal texto, pavoroso, um dos grandes da grande literatura alemã, que Jean Paul, pseudónimo de Johann Paul Friedrich Richter, escreveu em 1796: "Rede des toten Christus vom Weltgebäude herab, dass kein Gott sei" (Discurso do Cristo morto, a partir do cume do mundo, sobre a não existência de Deus).


Nele, o célebre escritor descreve um sonho-pesadelo. Pela meia-noite e em pleno cemitério, numa visão apavorante, o olhar estende-se até aos confins da noite cósmica esvaziada, os túmulos estão abertos, e, num universo que se abala, as sombras voláteis dos mortos estremecem, aguardando, aparentemente, a ressurreição. É então que, a partir do alto, surge Cristo, uma figura eminentemente nobre e arrasada por uma dor sem nome. E, com um terrível pressentimento, "os mortos todos gritam-lhe: "Cristo, não há Deus?" Ele respondeu: "Não, não há Deus." Então, a sombra de cada morto estremeceu, e umas a seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo continuou, anunciando o que aconteceu no instante da sua própria morte: "Atravessei os mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci até onde o ser estende as suas sombras, e olhei para o abismo, gritando: "Pai, onde estás?" Mas apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém governa." Quando, no espaço incomensurável, procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas o cosmos infindo o fixou petrificado com uma órbita ocular vazia e sem fundo, "e a eternidade jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se". O coração rebentou de dor, quando as crianças sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo, perguntando: "Jesus, não temos Pai?" E ele, debulhado em lágrimas, respondeu: "Somos todos órfãos, eu e vós, não temos Pai." "Nada imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah! Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é que não há-de poder ser também o seu próprio exterminador?"


Para Jean Paul, a morte de Deus não era ainda um destino espiritual inevitável. Apenas a tentação de uma possibilidade ameaçadora. E ele queria estar prevenido: que, quando a tentação o visitasse, soubesse de antemão o abismo sem fim, pavoroso, a que a morte de Deus conduz. Quando acordou do pesadelo ateu, a sua alma "chorava de alegria, por poder de novo adorar a Deus - e a alegria e o choro e a fé nele era a oração".


Um século depois (1882), o louco de Nietzsche proclamou a morte de Deus: "Quem o matou fomos todos nós, vós mesmos e eu!" "Nunca existiu acto mais grandioso." Ao mesmo tempo, Nietzsche tem consciência aguda do que se segue: "Para onde vamos nós, agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para a frente, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?"


O filósofo Gilles Lipovetsky escreveu, em A Era do Vazio: "Deus morreu, as grandes finalidades extinguem-se, mas toda a gente se está a lixar para isso. O vazio do sentido, a derrocada dos ideais não levaram, como se poderia esperar, a mais angústia, a mais absurdo, a mais pessimismo." Mas mais recentemente, no seu livro A Sociedade da Decepção, reconhecendo "a reafirmação do religioso", vem dizer que, "privados de sistemas de sentido englobante, numerosos indivíduos encontram uma tábua de salvação no reinvestimento de antigas e novas espiritualidades capaz de oferecer a unidade, um sentido, referências, uma integração comunitária: é o que o Homem necessita para combater a angústia do caos, a incerteza e o vazio".


3. Aqui chegados e tomando consciência de escândalos que clamam aos céus, impõe-se que a Igreja se pergunte pela sua responsabilidade no aumento do ateísmo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 de abril de 2023

ANTOLOGIA

  


ENTRE MARTA E MARIA
por Camilo Martins de Oliveira 


Minha Princesa de mim,


De Brantôme para Congar, de frei Ivo para o Japão, onde me espera uma reflexão partilhada sobre experiências estéticas, cá estou no avião e, preparando, no caderno, umas notas sobre estética, dou com outras sobre esse paradoxo tradicional da nossa cultura que encerra a mulher numa fúria mental de diabolização-santificação... E que tantas vezes a inferioriza: discutiu-se (até em concílio!) se a mulher teria alma humana, Aristóteles, no cadinho de certos "ideais" helénicos (que aliás se refletiram em comportamentos sexuais) considerou-a uma frustração ou incompleição da natureza. E o Doutor Angélico, fiel ao seu método dedutivo e ao rigor da sua dívida para com o filósofo ateniense, terá achado de somenos importância aprofundar ou discutir um conceito que não se agitava no seu tempo. (Mas que teria dito, um século antes, Santa Hildegarda de Bingen?). S. Tomás de Aquino vai buscar a Aristóteles o conceito e a justificação da inferioridade congénita das mulheres. Assim, afirma em resposta à "quaestio" 92 da "Summa Theologiae":  "Pela própria operação da natureza, a mulher é inferior e é um erro. A causa agente que está na semente masculina tenta produzir algo completo em si, um macho. Mas quando é produzida uma fêmea, isso deve-se ao facto de a causa agente ter sido frustrada, ou por inadequação da matéria recipiente, ou por qualquer interferência deformadora, como ventos do sul, que são demasiado húmidos, como lemos no "Conceção Animal" (de Aristóteles). A esta visão da natureza da mulher, atribuirá ele a primeira razão de recusa de ordens sacras a pessoas do sexo feminino: "Como nenhuma precedência de superioridade pode ser expressa no sexo feminino, que tem um estatuto inferior, esse sexo não pode ser ordenado. Não há aqui qualquer fundamento bíblico nem argumento teológico. Trata-se de uma afirmação decorrente de um princípio aristotélico que, para nós, já não tem qualquer base científica aceitável. À ideia de inferioridade natural da mulher desde logo se associa a da sua impureza, designadamente manifestada pela fisiologia menstrual. Nas religiões antigas, e no próprio judaísmo, eram vários os interditos relacionados com esse período, em que o contacto com a mulher era considerado causa de impureza. Assim, não deviam os sacerdotes aproximar-se de suas mulheres por essa altura, sob pena de não poderem oferecer as preces e sacrifícios rituais. Aliás, é também por esta linhagem de interditos que, já no século XI, a Igreja Católica importa o celibato aos seus padres. Até aí, a castidade não era condição sine qua non do ministério pastoral e sacramental, mas um voto, em regra exigido a quem professasse numa comunidade religiosa, feito por quem escolhia uma vida de consagração especial.  Há em tudo isso uma atitude e uma tradição misógina, que até se esquece de que o primeiro papa era um homem casado, cuja sogra foi curada por Jesus... E em lado algum está dito que Pedro tenha enviuvado ou repudiado a sua mulher. Mas sabemos, pelos evangelhos sinópticos, que Jesus curou uma mulher que sofria de um fluxo de sangue, uma hemorragia que, mesmo fora do período menstrual, determinava a impureza canónica. E diz-nos S. Lucas que Jesus não encarou logo com quem lhe tocara a veste, mas disse: "Quem me tocou? ... Alguém me tocou, pois senti sair de mim uma força!" Há algo de sacramental nessa afirmação. As representações do episódio "Noli me tangere" são recorrentes na história da arte europeia, desde os primórdios do cristianismo, como no fresco romano na igreja de Santi Pietro e Marcellino em Roma. A presença importante das mulheres na vida e na Igreja primitiva de Jesus foi relatada por S. Paulo nas suas epístolas. Na primeira aos Coríntios, pergunta: "Não teremos o direito de levar connosco uma senhora cristã, como os restantes Apóstolos, os irmãos do Senhor e Kefá?" Nessa carta, em que se preocupa e procura desenhar linhas de comportamento desejável para as mulheres - que, por serem cristãs (emancipadas?) não perdem todavia o estatuto social e as conveniências impostas pela sociedade do seu tempo - afirma: "Aliás, no Senhor, nem a mulher se compreende sem o homem, nem o homem sem a mulher. É que, assim como a mulher provém do homem, assim também o homem existe por meio da mulher; e tudo vem de Deus". Na carta aos Romanos, recomenda "a nossa irmã Febe, que é diaconisa da Igreja..." e refere-se a muitas outas, incluindo a mulher de Andrónico: "Saudai Andrónico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, que são insignes entre os apóstolos e me precederam em Cristo." Santo Agostinho, num dos seus sermões, aconselha: "Devíamos ponderar a providencial aptidão da obra de Nosso Senhor. Assim, como o Senhor Jesus Cristo fez com que fossem mulheres os primeiros a testemunhar que ele tinha ressuscitado. Porque o homem caiu por uma mulher, e porque a virgem Maria deu à luz Cristo, mulheres deveriam proclamar que Ele tinha ressuscitado. Através da mulher, morte? Através da mulher, vida!" E não era o bispo de Hipona - que aliás repudiara a mulher aquando da sua conversão ao cristianismo - muito propenso a enaltecê-las, nem sequer a Mãe de Jesus: não deixou escrito um só sermão sobre Nossa Senhora, mas referiu-se a Maria de Betânia como símbolo da contemplação e à Madalena como símbolo do amor. Das duas naturezas, humana e divina, coexistentes na pessoa de Jesus, Maria de Nazaré é só mãe da primeira. E como mulher só é confiada por Jesus, do alto da cruz, a João, para que este tome conta dela e não o contrário. É esclarecedor do seu pensamento sobre o poder de intercessão de Maria, o comentário de Agostinho sobre as bodas de Caná: "Porque ela não era mãe da Sua divindade, e o milagre que ela pedia tinha de ser feito pela Sua divindade, ele respondeu-lhe desta maneira: Que podes querer de mim, mulher? Mas para que não penses que não te reconheço como mãe, acrescento que ainda não chegou a minha hora. Então reconhecer-te-ei, quando a fraqueza que deste à luz tiver começado a sua hora na cruz." Será quando entregará a mãe ao cuidado do seu discípulo. Morrendo antes de mãe, para ressuscitar antes da mãe, Ele, como ser humano entrega a outro humano o cuidado desse humano de onde lhe veio a humanidade". A condição humana de Maria de Nazaré - que a tornava herdeira do pecado original - foi reafirmada por S. Bernardo, todavia um devoto de Santa Maria e pregador de cruzadas. A piedade popular fez constar que Deus teria então marcado de negro a sua alma... o que não dissuadiu S. Tomás de Aquino, passado um século, de se pronunciar contra a Imaculada Conceição, não só porque tal significaria negar a Cristo a natureza humana (posto que nascido de uma mulher), como ainda "retirar-lhe a honra de ser o salvador de todas as pessoas"... Enfim: discussões escolásticas cuja subtileza me escapa e que não impediram a proclamação desse dogma no séc. XIX. Nem a insistência crescente na mediação de Maria, que a piedade do povo católico foi impondo à doutrina oficial da Igreja. Aproximo-me dos meus 80 anos, Princesa, nasci, cresci e vivi, num mundo em que as mulheres não podiam seguir os cursos de estudos facultados aos homens, nem votar em eleições "democráticas" (muito embora, no passado, por direito divino ou genealógico, tivessem sido rainhas e imperatrizes), nem ser diplomatas, juízes ou militares. Hoje, a pouco e pouco vão podendo ser tudo isso, e em Igrejas cristãs irmãs da nossa na fé, mesmo conservadoras (como a anglicana/episcopaliana), até já vão acedendo às ordens sacras... Mas é na Igreja Católica, e nas ortodoxas, que o culto de Maria, como medianeira entre céu e terra, mais foi e tem sido cultivado. E não se define a função sacerdotal como essencialmente medianeira? Interrogo-me acerca deste ostracismo, não tenho que me pronunciar, apenas pergunto porquê. Já que, na verdade, nada, que eu saiba, exclui as mulheres desse munus no Novo Testamento. Recordo, nesta cabine de avião onde te escrevo, prestes a aterrar em Tokyo, o texto em que Congar explica como, nessas sagradas escrituras, nem sequer surge qualquer fundamento para o sacerdócio ritual que certo "machismo" eclesiástico reclama (esta frase é minha, não de frei Ivo): "Eis os factos. A palavra "hiereus" (sacerdote, o que oferece sacrifícios) surge mais de trinta vezes no Novo Testamento, e a palavra "archiereus" mais de cento e trinta. A utilização destas palavras é tão constante, que claramente denuncia uma intenção deliberada e altamente significante, sobretudo porque os escritores da primeira geração cristã seguem cuidadosamente a mesma linha. Neles, tal como no Novo Testamento, "hiereus" (ou "archiereus") é utilizada para designar quer os sacerdotes da ordem levítica, quer os sacerdotes pagãos. Aplicada à religião cristã, a palavra "hiereus" só serve para falar de Cristo ou dos fiéis. Nunca se aplica aos ministros da hierarquia da Igreja". Já apertei o cinto de segurança. É quando, nos aviões em manobras de voo, mais se reza. E eu rezo também, para que a nossa Igreja se entenda com a sua circunstância. Não por relativismo, mais ou menos oportunista. Mas porque, como Cristo, é incarnada. E vive na história dos homens." Camilo Maria não voltaria, por modo epistolar, a assuntos eclesiais. Mas, pela atualidade de um texto escrito nos anos setenta do século passado, transcrevo uma citação do Cardeal Congar, inserta num apontamento avulso do Marquês de Sarolea: "Os conceitos de Povo de Deus e de Sacramento da Salvação impõem-se como ponto de partida para o que se procura: uma Igreja desclericalizada, uma Igreja para o mundo. Enquanto que, até ao concílio (Vaticano II) vimos o mundo a partir da Igreja, tendemos a ver a Igreja a partir do mundo, correndo o risco de a secularizar e de esquecer o facto de que, por muito que ela seja feita para o mundo, ela é uma coisa diferente do mundo: é fruto de iniciativas divinas sobrenaturais, irredutíveis à criação ou à história. Por outro lado, um estudo histórico, a valorização de um laicado ativo, e também o diálogo ecuménico levam-nos a reler e alargar a teologia dos ministérios..."


Camilo Martins de Oliveira

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
OS MEUS SETE PAPAS (II) 


1. Como alguns se lembrarão, estava perto do Taj Mahal quando, tarde e a más horas, soube da morte de João Paulo I, por tão pouco tempo meu quinto Papa.


De lá segui para as Pirâmides e para o Egipto, mas não foi entre faraós que soube do Papa posto em vez do Papa morto. Já tinha regressado à pátria, findo o meu mês de orientes, quando apareceu fumo branco por Karol Wojtyla, que, como o seu efémero predecessor, escolheu dois nomes e os mesmos dois nomes: João Paulo II. Tinha 58 anos e era o mais novo Papa desde 1846 e desde a eleição de Pio IX com 54 anos. Esse Pio IX que morrera cem anos antes da eleição de João Paulo II (a 7 de fevereiro de 1878) e fora o pontífice de mais longo reinado na história da Igreja (32 anos), se não contar a incerta duração do papado de S. Pedro. João Paulo II, que reinaria 27 anos, seguiu-os de perto.


Mas, em 1978, a grande novidade não foi a "tenra" idade do novo Papa, mas a sua nacionalidade. Pela primeira vez, desde 1523, ou seja, durante 455 anos, o Papa não era italiano e pela primeira vez, em quase dois mil anos de Igreja, o Papa era polaco. Com Wojtyla acabou uma era, que, em categorias adaptadas da história geral para a história da Igreja por Cristiani, no monumental Tu Es Petrus, correspondem à Idade Moderna (1447-1870) e à Idade Contemporânea (1870-1978). Desde o fim do Cisma do Ocidente até ao "ano dos três papas", dos 55 pontífices que se sentaram no trono de S. Pedro durante cerca de 540 anos, apenas dois não foram italianos: o aragonês Calisto III (Papa de 1455 a 1458, que, apesar das suas origens, gerou os italianíssimos Borgia) e o holandês Adriano VI, o tal que pontificou entre 1522 e 1523 e que tanto contrastou com os Medici que o precederam e lhe sucederam (Leão X e Clemente VII) em desgosto pelas artes e pelos ofícios. Mas isso já são outras conversas, pois que nenhum deles foi Papa das minhas vidas, embora nos renascentistas me tenha ficado muito da melhor parte delas. Das outras e desta.


2. "O ano dos três papas" (Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II) foi expressão corrente para o ano de 1978. Às vezes, penso em como teria vivido esse ano um amadíssimo amigo meu, poeta de 35 Poemas, que partiu deste mundo e destes papas em 1968, dez anos antes do ano trino. Digo-o porque, em 1963, quando morreu João XXIII, ele viveu premonitoriamente a febre papal que em 78 já subira uns pontinhos e em 2005 entrou no delírio a que se assistiu. Foi ele o primeiro a inventar a expressão "totopapa", enviando-me, e a outros amigos comuns, antes e durante o conclave, listas de probabilidades com os nomes que os eleitos escolheriam, caso viessem a ser os contemplados.


Dentre os inúmeros cartões retangulares que me mandou, escritos a tinta encarnada, copiei estes: Probabilidades (Flos Florum)


1 - Siri (Pio XIII, de que Deus nos guarde)
2 - Montini (Pio XIII, João XXIV ou Leão XIV que: vá lá com Deus)
3 - Lercaro (João XXIV - Deus queira)
4 - Confalonieri (João XXIV, Bento XVI ou Clemente XV, que talvez Deus queira)
Hipóteses desvairadas más
1 - Ottaviani (Alexandre IX, Calisto IV, Anastácio V ou Júlio IV)
2 - Larraona (Anastácio V)
3 - Marella (Bonifácio X)
4 - Cerejeira (Urbano IX)


Na altura, todos nos ríamos com estes totopapas, que ele corrigia, emendava e voltava a enviar. Mas a realidade excede sempre a ficção: tanto na morte de João Paulo II, como na eleição de Bento XVI, televisões e jornais ultrapassaram em excentricidade e delírio o meu amigo das "profundidades intactas". Muitos dos cardeais já nem sei quem são, como esse Lercaro que, pelos vistos, era o favorito dele. Não previu nenhum Paulo VI, mas previu um Bento XVI, que seria - se tivesse sido - o cardeal Confalonieri, "que talvez Deus queira".


Em 1963, no interior de círculos muito restritos e - vá lá - muito especiais, vivia-se assim a eleição de um papa, guardando segredo para os não iniciados que já suspeitavam da nossa sanidade mental, mesmo sem saberem destes desvarios. Quem nos diria - quem me diria? - que 42 anos depois, milhões viveriam momentos desses em delírio ainda maior, imaginando papas hindus, argentinos, chineses e até (como sempre) portugueses?


Tudo - tamanha mudança! - talvez se deva a esse Papa polaco que, entre 1978 e 2005, fez mais pelo pope system do que todos os seus antecessores reunidos. E volto a 1978.


3. Estou a começar a dizer mal de João Paulo II, ou, como alguns já lhe chamam, de S. João Paulo Magnus? Não estou. Quando foi do Jubileu dele, escrevi, neste mesmo jornal, um artigo em que disse o que pensava e penso dele, exaltando sobretudo o homem da fé.


Escrevi então e mantenho: "Não é o "Papa da minha vida", no sentido em que o foram, dos que conheci, João XXIII ou João Paulo I. Não é o Papa que me dê mais esperança ou que eu ame mais do que os outros. Mas tudo o que me separa dele de nada conta quando o vejo - sobretudo nos últimos anos - dar um tamanho testemunho que só consigo explicar pelo inexplicável mistério da Fé." Acima citei a idade com que foi entronizado. Mas parecia muito mais novo, respirando saúde física por todos os poros, o que muitos atribuíam a um passado de desportista. Três anos depois - apenas três anos dessa imagem pletórica - o atentado da Praça de São Pedro fez esse Papa de 60 anos envelhecer 20 em poucos meses. De então para cá, a pujança original quase que se esqueceu e o "atleta" deu lugar a um velhinho, atacado por mil doenças, até, no fim, mal se conseguir mexer ou falar.


Alguns lhe censuraram - velada ou abertamente - o lugar que deu, na sua própria biografia, ao dia 13 de maio de 1981, em que quase se realizou a sarcástica profecia de Buñuel no filme La Voie Lactée. Mas não é muito fácil compreender como é que se deu tal mudança num homem. Não é a questão da sobrevivência, pois que outros têm recuperado de coisas ainda piores. É a consciência, não proclamada, mas crescentemente interiorizada, de que a sua salvação teve e tem um sentido e que esse sentido só podia ser desvelado com a crescente transfiguração do corpo quebrado num corpo oferecido. Muito e muito se há-de escrever - pressinto-o - sobre os vários sentidos a dar a essa maceração. Por um lado, há a "papolatria" ou os riscos dela, tão temida nos anos 60 e tão escancaradamente recuperada nesta viragem de séculos. Mas reduzir à papolatria o calvário de João Paulo II é perder a dimensão fundamental dele. Falou-se do seu imenso carisma, do seu imenso magnetismo. Que querem dizer essas palavras? Quem saiba que explique e João Paulo II nunca explicou. Acreditou, não só com toda a sua alma (expressão já de si incompreensível), mas com todo o seu corpo e, como só este lhe podia ser imagem, fez dele o grande plano para um mistério insondável. Por agora - e por mais algum tempo - se falará ainda e muito do Papa que venceu o comunismo, sob o qual viveu desde os 25 anos. Mas não faltam nos textos papais - antes e depois da queda do Muro - advertências ainda mais graves contra a sociedade permissiva e libertária que era, aparentemente, a grande inimiga dos chamados "socialismos reais". Qual o significado da sua presença junto a Fidel em Cuba, tão estranho, por parte de um, como por parte de outro? Qual o sentido das suas mil viagens? Qual o sentido dos "estádios cheios e das igrejas vazias"? Qual o sentido do seu altivo moralismo? Porque o aplaudiam milhões de jovens que depois não fundavam famílias de 14 filhos, como nos tempos de Maria Teresa da Áustria, ou nem sequer se precipitavam para os ter, como nos tempos da geração dele? Quanto mais medito na ação deste Papa, mais ela me parece paradoxal, mas de um paradoxo que não desafia a razão, antes a busca. Por isso, grande parte do mistério de João Paulo II só será percebido com a passagem do tempo e com os pontificados que se seguirem ao deste Papa tão tirolês quanto carpático ou, se se preferir, tão terra a terra, como céu a céu.


4. Sabe-se como foi recebida a eleição de Bento XVI, conhecem-se os juízos que já se fizeram. Mas não se tem reparado muito (ou então sou eu que tenho andado muito distraído) que ao turbilhão de abril (velório e exéquias de João Paulo II, conclave, etc.) se seguiu um estranho e agudo silêncio. Ouve-se Bach no Vaticano (talvez pela primeira vez).


Perguntam-me o que penso. Pensei mal, quando pensei depressa e me vieram dizer que Ratzinger era o novo Papa. Agora espero para pensar. Bento XVI já não é Ratzinger. É o meu sétimo Papa. Seja minha a solidão deste silêncio, como escreveu o poeta dos 35 Poemas, e dos trinta e cinco cardeais.


por João Bénard da Costa

20 de maio de 2005 in Público

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
OS MEUS SETE PAPAS (I)


1. Agora que isto acalmou um bom bocado, quer em matéria de papas quer em matéria de vigílias, posso dar-me ao luxo de desfiar, nos meus romanizados rosários, contas dos papas da minha vida e de os relembrar um a um, entre arminhos e solidéus, sédias gestatórias ou detidas. Setenta anos, sete papas. Muitos anos? Não há dúvida. Muitos papas? Assim agora não me parece ou me aparece, mas a uma média de dez anos por papa, pode ser que as aparências iludam. Embora eu tenha vivido o terceiro pontificado mais longo de que a Igreja conserva memória (João Paulo II) e um dos pontificados mais curtos dos últimos sete séculos (João Paulo I).


2. A bem dizer, o meu primeiro Papa Papa de mim não foi, embora o dr. Freud, que morreu sete meses e dezasseis dias depois dele, me tenha querido ensinar, sem grande resultado, que foi o Papa de que o meu inconsciente mais ouviu falar. Refiro-me a Pio XI, o Papa Ratti, que reinava em Roma quando eu nasci e morreu, três dias depois de eu fazer quatro anos, a 10 de fevereiro de 1939, aos 81 anos. Aos quatro anos, alguém se lembra de papas? Acreditem-me ou não, se não me lembro dele, lembro-me muito bem (vá-se lá saber porquê) do dia da morte dele. Era à hora de almoço. Eu estava em casa de uns tios postiços que moravam no mesmo prédio do que eu, no segundo andar que ficava por baixo da casa da minha avó. Na casa de jantar, havia uma telefonia, dessas com ponteiro, olho luminoso verde e lãzinha branca a aconchegar os baixos. E foi da dita, ou na dita, que deram a notícia da morte do Papa. Não devo ter prestado atenção, pois o que recordo é a voz acaciana do meu velho tio (com idade para ser meu avô) a dizer-me solenemente: "Morreu o Santo Padre." Talvez tenha ficado confundido com a ideia de os santos morrerem. Talvez não associasse padres a santos, de tanto ouvir dizer que os padres ralhavam. Talvez outra razão qualquer. Mas a morte de Pio XI chegou-me em direto. Mais tarde, já grandinho ou já velhote, o Papa que queria que o futuro o conhecesse como "o Papa da Ação Católica", o papa da Mit Brennender Sorge e da Non Abbiamo Bisogno, o Papa que "tarde, demasiado tarde na vida", descobriu que as ameaças à Igreja não vinham só de um lado, e que as do lado oposto não eram menos fortes, esse Papa, Pio XI, dizia eu, olhei-o sempre com particular afeto. A paz de Cristo no Reino de Cristo. Seis meses depois da morte dele, findo um pontificado de dezassete anos (1922-1939) começou a guerra do diabo.


3. Não me lembro de ninguém me ter dito que a 2 de março desse mesmo ano, ao fim de três escrutínios e no primeiro dia de conclave (coisa que há trezentos anos não acontecia), o cardeal Pocelli, que nesse mesmo dia completava 63 anos, fora eleito e tomara o nome de Pio XII. As minhas primeiras imagens dele, ascético e severo, remontam aos dias em que Roma deixou de ser cidade aberta e houve igrejas bombardeadas. Pio XII deixou então o Vaticano para consolar os feridos e chorar os mortos. Quando a guerra acabou, gregos e troianos louvaram o Pastor Angelicus e a sua ação em favor da paz. Em 1950, ex cathedra, num Ano Santo a que só não fui pela maldição de uma bruxa, proclamou o Dogma da Assunção de Maria e, aos 15 anos, extasiei-me, mais do que me interroguei, com essa solene afirmação da infalibilidade papal, a primeira (e a única) desde os tempos de Pio IX.
Depois, ele foi o Papa dos meus anos de brasa, os anos da Ação Católica. Formei-me com a Divino Afflante Spiritu, que relançou os estudos bíblicos, ou com a Mediator Dei sobre a renovação da liturgia. Morreu, diz-se, ouvindo a Sétima Sinfonia de Beethoven, que amava mais do que as outras e Jorge de Sena dedicou-lhe um belíssimo poema na Fidelidade: "Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo / mesmo no mal que consentis que eu faça / por ser-Vos indiferente, ou não ser mal / ou ser convosco um bem que eu não conheço." Foi a 9 de outubro de 1958 e soube da notícia no mesmo dia em que soube que ia ser pai pela primeira vez. Para mim, morrera mais do que o meu primeiro Papa. Morrera o meu único Papa. O Papa por antonomásia.


4. Foi assim com algum escândalo (obviamente, o escândalo admissível num crente então fiel e obediente à Igreja) que, a 28 de outubro, soube que fora eleito Papa o cardeal Roncalli, quase a completar 77 anos, ou seja, muito mais perto das idades com que morreram Pio XI (81) e Pio XII (82) do que das idades com que tinham sido eleitos, em papados sensivelmente com a mesma duração. Um amigo meu deu voz ao que eu sentia: "Os cardeais terão mesmo ouvido o Espírito Santo ao escolherem um Papa de transição?" (era a explicação mais correta para a surpresa da escolha: após dois pontificados longos e fortes, um pontificado breve que servisse para pensar no futuro). A primeira surpresa veio com a escolha do nome de João XXIII, recuperado a um anti-Papa de 1410 a 1415 e que ninguém usara mais desde o século XV. Depois vieram todas, todas as surpresas desse papado inacreditável: a convocação do Concílio, a inauguração do Concílio, a Mater et Magistra a Pacem in Terris. O bom Papa João. Repararam bem quão estranho é chamar bom a um Papa? Mas foi com esse cognome que ele ficou, tão amado pelos não crentes como pelos crentes ou mais ainda pelos primeiros do que por muitos segundos. Vivi, sob ele, os mais exultantes anos do meu catolicismo. Não chegaram a ser cinco. João XXIII morreu a 3 de junho de 1963, aos 81 anos.


5. Já quando Pio XII morreu, eles haviam sido os mais "papabile". Refiro-me aos cardeais Alfredo Ottaviani e Giovanni Montini. O primeiro era chefe do Santo Ofício e acusavam-no de reacionarismo. O segundo, arcebispo de Milão, com fama de homem aberto ao novo e ao moderno. "Cantemos ao Senhor um Cântico novo." Os dois voltaram a ser falados em 1963. O que eu rezei para um Papa chamado Montini! E ele chegou, sob o nome de Paulo VI, a 21 de junho, com 65 anos. Foi um dos dias mais felizes da minha vida e eu tinha apenas 28 anos! E o nome do Papa era o nome do Apóstolo das Gentes.
Poucos meses depois, já se falava de "fundo Roncalli, forma Pacelli", contrastando a rigidez do novo Papa com a bonomia do seu antecessor. Mas o Concílio continuava, começavam as viagens papais (a histórica peregrinação à Terra Santa em janeiro de 1964) e foi a continuidade muito mais que a rutura que eu li na encíclica Ecclesiam Suam de agosto de 1964. Lembro-me que o meu elogio ao texto papal, nas páginas de O Tempo e o Modo, me valeu uma resposta zangada de um amigo ex-católico, então muito mais à esquerda do que eu. Ele, que, agora muito mais à direita, manda para braços anglicanos todos os "protestantes" (mesmo os mais silenciosos) à eleição de Ratzinger, acusava-me então de poetizar e lembrava-me que ao contrário do que dizia o alemão Novalis (compatriota de Ratzinger) o mais poético podia não ser o mais verdadeiro.
Paulo VI na ONU, em 1965. Mas, bruscamente, fez há muito pouco tempo trinta e oito anos, Paulo VI em Fátima, recebido por Salazar. Foi a única vez que vi um Papa. Foi o único Papa que eu vi. Não em Fátima, mas junto ao Mosteiro da Batalha, quando de Fátima ele regressava em carro aberto, olhos imensamente azuis, como nunca até esse dia eu os supusera. Por esses anos, por esses tempos, mudou muito a imagem pretérita de Pio XII, quando os silêncios do Vaticano perante a Alemanha nazi começaram a ser muito falados. Pio XII devia ter falado? Paulo VI devia ter recusado vir a Portugal? Essa questão - ou essas questões - ainda hoje as não resolvi dentro de mim. Se os olharmos como chefes institucionais (e a Igreja é uma instituição), eles defenderam-na como a deviam ter defendido, sem atrevimentos inauditos e sem riscos temerários para a unidade que lhes cabia preservar. Mas se os olharmos como pastores do povo de Deus (e a Igreja é o povo de Deus) por que temeram se o próprio Cristo garantiu a Pedro que as portas do Inferno nunca prevaleceriam contra as da Igreja? E foi no tempo do Papa que eu mais "elegi" que eu cheguei à conclusão que o sumo pontífice não podia ser um modernizador mas um contemporizador, não podia ser uma Antígona mas um Creonte (para recuperar uma imagem antiga). Podia escandalizar intelectuais impacientes como eu, mas não mansos ou feros pobres de espírito. Em 68, com a encíclica Humanae Vitae, Paulo VI enfrentou de peito aberto a revolução sexual nesse ano triunfante. Católicos insurgiram-se por todo o mundo, numa contestação inédita. Quem mudará? Eu, por certo, mudei, nesses últimos dez anos do pontificado de Paulo VI. Octogesima Adveniens? Mas 80 anos depois da Rerum Novarum, onde estavam as coisas novas? Onde estão hoje, em que a Humanae Vitae é menos contestada do que os seus contestatários de 68? Talvez por isso esse Papa seja, na minha memória, o mais amargurado e o mais torturado dos papas da minha vida. Por que é que pensar nele me faz pensar na morte?


6. Estava em casa diante da televisão, quando, em agosto de 1978, pouco depois da morte de Paulo VI, aos 81 anos e com quinze de pontificado, nos foi anunciado novo magnum gaudium. Contra todas as previsões, apareceu-me como Papa João Paulo I, Albino Luciani, patriarca de Veneza (como João XXIII) aos 65 anos. Nunca me esquecerei da alegria - infantil ou angélica - com que surgiu à varanda e com que deu a primeira bênção. Foi o primeiro Papa a usar dois nomes, em dupla homenagem aos seus mais imediatos antecessores. À época escrevia crónicas no Diário de Notícias. E o meu texto sobre a eleição de João Paulo I foi tão delirante que Mário Mesquita (à época diretor do jornal) se espantou com a minha inabalável fé (fé de um ex-católico) no Espírito Santo, que escolhera para Papa o papa do Pinocchio. Depois fui até aos Japões e pensei mais em budistas, à Sylvia Sidney, do que em papas. Já no regresso, no aeroporto de Nova Deli, vindo do Taj-Mahal, folheei um jornal. Numa página interior, em corpo pequeno, falava-se da morte do Papa. "Meu Deus" - pensei eu - "como este jornal é antigo, o Papa já morreu há quase dois meses." Quando li a notícia, percebi. Quem morrera a 28 de setembro, depois de um pontificado de 34 dias, fora esse mesmo João Paulo I, de que eu esperava nem sei bem o quê, mas sei quanto. Nunca acreditei na tese absurda do assassinato. Mas acredito que Deus, às vezes, atravessa muito depressa a vida dos homens. (continua)


por João Bénard da Costa

13 de maio de 2005 in Público

NATAL: O EMMANUEL

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       Há já alguns anos, o meu bom e ilustre amigo, o eurodeputado Paulo Rangel, e eu tivemos uma conversa muito agradável para mim sobre (imagine-se) Deus e a tentativa de dizê-lo e nos relacionarmos com Ele. Dela resultou um texto de Paulo Rangel, com o significativo título “Deus é Aquele que está”. Numa longa entrevista recente a Inês Maria Meneses, voltou ao tema, confessando a sua fé no Deus de Jesus, o Emmanuel, o “Deus connosco”. Para ele, Deus é “Aquele que está”, Deus não é “esse ser distante e estático” construído a partir da ontologia grega, o Deus que é, “mas antes o ser próximo e interactivo que está e estará connosco, Aquele que acompanha, Aquele que não abandona. Deus é Aquele que está, o Emmanuel.”

      Concordando plenamente com o amigo Paulo Rangel, volto, já em pleno Natal, ao tema, essencial nesta data. De facto, corre-se permanentemente o perigo de esquecer o determinante, já não referindo sequer a ameaça de se ficar amarrado a um consumismo devorador e à concorrência dos presentes: tenho de dar isto e aquilo de presente, para não ficar mal; não posso esquecer este, esta, e aquele, aquela, porque no ano passado também deram…  É preciso parar e reflectir, em primeiro lugar, para se não ficar encerrado em dogmas, quando a fé cristã se dirige a uma pessoa, Jesus confessado como o Cristo (o Messias) e, através dele, a Deus que Jesus revelou como Pai e poderemos e deveremos também dizer como Mãe, com todas as consequências que daí derivam para a existência.

       O que diz o Credo cristão, símbolo da fé? “Creio em Jesus Cristo. Gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, ressuscitou ao terceiro dia.” Segundo a fé cristã, isto é verdade? Sim, é verdade. Mas segue-se a pergunta fundamental: o que deriva dessas afirmações para a nossa existência de homens e mulheres, cristãos ou não? O Credo é teologia dogmática, especulativa, em contexto linguístico da ontologia grega. Ora, a teologia dogmática tem que ver com doutrinas e dogmas, com uma estrutura essencialmente filosófica. Pergunta-se: os dogmas movem alguém, convertem alguém, transformam a existência para o melhor, dizem-nos verdadeiramente quem é Deus para os seres humanos e estes para Deus?

      Exemplos mais concretos, um do Antigo Testamento e outro do Novo, até para se perceber a passagem do universo hebraico em que Jesus se moveu e o universo grego no qual aparecem redigidos os Evangelhos. No capítulo 3 do livro do Êxodo aparece a manifestação de Deus na sarça ardente e Moisés dirige-se a Deus: se me perguntarem qual é o teu nome, que devo responder-lhes? E Deus: “Eu sou aquele que sou”. Dir-lhes-ás: “Eu sou” enviou-me a vós. A fórmula em hebraico: ehyeh asher ehyeh (“eu sou quem sou”, “eu sou o que sou”) é o modo de dizer que Deus está acima de todo o nome, pois é Transcendência pura, que não está à mercê dos homens, mas diz também (a ontologia hebraica é dinâmica) o que Deus faz: Eu sou aquele que está convosco na história da libertação, que vos acompanha no caminho da liberdade e da salvação. Depois, com a tradução dos Setenta, compreendeu-se este ehyeh asher ehyeh como “Eu sou aquele que é”, “Eu sou aquele que sou”, o Absoluto. Filosofando sobre Deus, a partir daqui, Santo Tomás de Aquino dirá que Deus é “Ipsum Esse Subsistens” (O próprio ser subsistente), Aquele cuja essência é a sua existência. Isto é verdade, mas significa o quê para iluminar a existência? Perdeu-se a dinâmica do Deus que está presente e acompanha a Humanidade na história da libertação salvadora.

     No Novo Testamento, João Baptista, preso, mandou os discípulos perguntar a Jesus se ele era o Messias. Jesus não afirmou nem negou. Mas deu uma resposta existencial, prática: “Ide dizer-lhe o que vistes e ouvistes: os coxos andam, os cegos vêem, a Boa Nova é anunciada, a libertação avança, a salvação está em marcha”.

     O que é que isto significa? A teologia, a partir da Bíblia, é, antes de mais, teologia narrativa e não dogmática. Quer dizer: tem uma estrutura existencial, histórica. Na teologia especulativa, o centro de interesse é o ser; na teologia narrativa, o decisivo é o que acontece. Assim, na perspectiva cristã, o essencial consiste na pergunta: O que é que acontece quando Deus está presente? Na linha dogmático-doutrinal, exige-se e até se pode dar um assentimento intelectual, subordinando-se, mas a existência continua inalterada. Corre-se então o perigo de uma “fé” em fórmulas doutrinais coisistas, petrificadas, sem qualquer transformação da vida. Ora, a vida cristã, se quiser ser verdadeiramente cristã, no discipulado de Jesus, tem de ser determinada mais pela ortopráxis do que pela ortodoxia (sem menosprezo, evidentemente, pela ortodoxia, segundo uma hermenêutica adequada): Jesus louvou a cananeia pela sua fé, que não era ortodoxa, deu como exemplo o samaritano, que não seguia a ortodoxia, mas praticava a misericórdia, e, sobretudo, leia-se o Evangelho segundo São Mateus, no capítulo 25 sobre o Juízo Final, no qual não há perguntas sobre fórmulas teóricas religiosas, mas sobre a prática: “Destes-me de comer, de beber, vestistes-me, visitastes-me na cadeia e no hospital...”.

     A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem de dignificação de todos, mensagem que mudou a História. Bom Natal!

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 24 de dezembro de 2022

ADRIANO MOREIRA: "O EIXO DA RODA"

  

 

Estava no comboio e foi uma jornalista que me deu a notícia. Apesar de esperada, a morte de Adriano Moreira foi um choque  para mim. É sempre um choque a morte de um amigo: ah!, aquele nunca mais para sempre neste mundo!...


Éramos amigos, e tive com ele conversas e debates inesquecíveis, sempre iluminantes para mim. Até lhe devo um prefácio poderoso a um dos meus livros, Corpo e Transcendência, no qual apela, se a Humanidade hoje com excesso de poder quiser sobreviver, para a urgência do diálogo entre a cultura tecnocientífica e as Humanidades: “os temas da subjectividade, da solidão, do desespero, do nada, da ambiguidade, já não são problemas de um ou de cada homem, são problemas do género humano estarrecido com o poder que alcançou, só ultrapassado pela ignorância.” Neste contexto, apresentava a imagem da roda — “Os valores são o eixo da roda. A roda anda, passa por mudanças, e o eixo acompanha a roda, mas não anda” —, acrescentando: “Incluamos, cimeiros, os valores da relação com a transcendência.”


Era católico, católico praticante. Confessou-me que, sendo a mãe a grande teóloga da sua vida, algumas vezes, «sempre por razões fáceis de entender», lhe acudia ao temperamento «o anticlericalismo transmontano». Disse-lhe: “Não se preocupe, senhor Professor. Jesus também era anticlerical.” Evidentemente, tinha dúvidas, mas acreditava que na morte não acaba tudo – confiava em Deus. Continuava a pensar, ele que foi um marido e pai exemplar, que a fé é amparo das famílias. «Nunca adormeci sem rezar as orações que a minha mãe me ensinou», confessou-me.


Era católico também no sentido do étimo grego (katá, segundo; hólon todo): segundo o todo, ecuménico, universal. Cedo se apercebeu da urgência do diálogo ecuménico e inter-religioso – o que ele chamava o espírito de Assis, no contexto do Concílio Vaticano II –, nomeadamente com os muçulmanos, mas sem esquecer, e por isso mesmo, que não há identidade europeia sem os valores cristãos. Por outro lado, politicamente, impõe-se a urgência de pensar algo que aponte para uma governança mundial, global.


No quadro da necessidade da defesa de uma “ciência com consciência” e da “aproximação, diálogo e solidariedade das diversas crenças em face dos perigos a que o globalismo nos conduziu”, escreveu em 2015 uma carta ao Papa Francisco, da qual destaco a sugestão várias vezes feita: “Na ONU, em perda de autoridade, deveria ser criado, ao lado dos órgãos institucionais da Carta, um Conselho das Religiões, a estruturar segundo a experiência da ONU e a que tem sido ganha, sobretudo desde as reuniões de Assis, com as sucessivas iniciativas de encontros, conclusões, e acção, das Igrejas a bem da paz. Se a Igreja Católica tomasse a iniciativa, com respeito institucional, enriqueceria utilmente a contribuição que lhe pertence na doutrinação da paz, designadamente tendo enriquecido, com mestres, o património imaterial da Humanidade, tão descuidado e violado neste século sem bússola.”


A profissão cristã católica tem uma dupla face: a mística e a ético-política. O que Adriano Moreira mais criticava é o relativismo: o que acontece está legitimado porque aconteceu. Mas prevenia: ou o Ocidente reabilita a ética ou o prognóstico sobre esta área do mundo é reservado. É preciso trazer a ética para o governo, para o ensino, para as instituições.  


A sua conduta orientou-se pelo contributo a dar para o júbilo gratificante que seria podermos ter, «ao redor do mundo, uma força moral não-agressiva, convergente, praticante da regra da igualdade do género humano, cheia de amorosidade, cristãmente ecuménica, podendo ser extremamente eficaz pela observância da regra de que não são as nossas palavras, mas as nossas obras que rezam». Como académico insigne, exigia de si o que esperava dos mestres: “o esforço de ensinar para a incerteza”, e foi apontando caminhos para evitar o desastre.


A Igreja enfrenta grandes desafios. Hoje, o apelo à transcendência cresce desordenadamente. O sentido de pertença é cada vez mais frouxo. Os valores desmoronam-se. Aí está, pois, a imensa tarefa da evangelização. De qualquer modo, «a defesa da dignidade dos homens exige instituições poderosas». Entre elas, «uma Universidade realmente autónoma» e, precisamente, «as Igrejas independentes e respeitadas». E que concordava comigo, cito,  quando, enumerando os desafios para o século XXI, escrevi que o desafio essencial é a conversão de todos os membros da Igreja ao Evangelho, “a começar pelos que estão mais alto: papa, bispos, cardeais, padres, acreditar em Jesus e tentar segui-lo.”


Na sua vida longa, sempre vigilante e consciente de que «assumir responsabilidades no processo é imperativo absoluto», olhando para o mundo e também e sobretudo para Portugal, fez suas, com a imensa sabedoria que possuía, as palavras do padre António Vieira sobre os pecados do tempo: «Uma das coisas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os ministros, é dos pecados do tempo. Porque fizeram o mês que vem o que se havia de fazer o passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque fizeram depois o que se havia de fazer agora; porque fizeram logo o que se havia de fazer já. Tão delicadas como isto hão-de ser as consciências dos que governam, em matérias de momento. O Ministro que não fez grande escrúpulo de momentos não anda em bom estado; a fazenda pode-se restituir, a fama, ainda que mal, também se restitui, o tempo não tem restituição alguma.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 de novembro de 2022

RELIGIÕES: "O DIREITO À ESPERANÇA, À BELEZA, AO CÉU". 2

  


O Papa Francisco esteve no Cazaquistão nos dias 13-15 de Setembro, para participar no VII Congresso de Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais. Coube-lhe o discurso de encerramento. Na continuidade da crónica do dia 22 de Outubro, esta quer ser uma síntese desse discurso.


Uma constatação: Aí está “o peso da insensata loucura da guerra; há demasiado ódio e divisões, demasiada falta de diálogo e de compreensão do outro; isto, num mundo globalizado, resulta ainda mais escandaloso e perigoso. Não podemos continuar conectados e separados, vinculados e divididos por tanta desigualdade.”  Evidentemente, “o terrorismo de matriz pseudo- religiosa, o extremismo, o radicalismo, o nacionalismo alimentado de sacralidade, fomentam ainda hoje temores e preocupações em relação à religião”, mas “eles não têm nenhuma relação com o autêntico espírito religioso e têm de ser rejeitados e condenados sem condições nem ‘mas’. Para lá do mais, porque Deus criou todas as pessoas iguais, independentemente da sua pertença religiosa, étnica ou social, e, por isso, nós (líderes das religiões) estivemos de acordo em afirmar que o respeito mútuo e a compreensão devem ser considerados essenciais e imprescindíveis no ensino religioso.”


Tema essencial é o da relação entre religião e política. Um vínculo são entre política e Transcendência, uma coexistência sã entre os dois âmbitos implicam “distinção, não confusão nem separação”. Impõe-se um “não” à confusão, para salvaguardar o bem do ser humano, que “precisa, como a águia, de um céu livre para voar, um espaço livre e aberto ao infinito que não esteja limitado pelo poder terreno”. Por outro lado, a Transcendência “não deve ceder à tentação de transformar-se em poder”, para que “o ‘além’ divino” não fique “apanhado pelo hoje terreno”. Por fim, um “não” ao corte entre política e transcendência, pois “as mais altas aspirações humanas não podem ser excluídas da vida pública e relegadas para o simples âmbito privado.” Está aqui presente toda a questão da liberdade religiosa: “quem desejar exprimir de modo legítimo o seu próprio credo que seja amparado sempre e em todo o lugar… Sobretudo é necessário comprometer-se para que a liberdade religiosa não seja um conceito abstracto, mas um direito concreto. Defendamos para todos o direito à religião, à esperança, à beleza, ao céu.” A laicidade, que exige que nenhum Estado tenha uma religião oficial, é essencial para garantir a liberdade de todos; por outro lado, a laicidade não pode ser confundida com laicismo, que pretende que a religião seja excluída do espaço público.


Pensando em todos os seres humanos, é necessário reconhecer que “as grandes sabedorias e religiões estão chamadas a dar testemunho da existência de um património espiritual e moral comum, que se funda em dois pilares: a transcendência e a fraternidade. A transcedência, o ‘além’, a adoração.  É bonito que a cada dia milhões e milhões de homens e mulheres, de diferentes idades, culturas e condições sociais, se reúnam para rezar em inúmeros lugares de culto. Essa é a força oculta que faz com que o mundo avance. E, depois, a fraternidade, o outro, a proximidade, pois não pode professar uma verdadeira adesão ao Criador quem não ama as suas criaturas.” Este é o espírito que impregna a Declaração do Congresso, e Francisco quis concluir destacando três palavras.


A primeira é um grito angustiado e exprime a meta do caminho: a paz, peace! “A paz é urgente, porque qualquer conflito militar ou foco de tensão e enfrentamenteo hoje só pode ter um nefasto ‘efeito dominó’ e compromete seriamente o sistema de relações internacionais. Mas a paz não é a mera ausência da guerra nem se reduz só ao equilíbrio das forças adversárias nem surge de uma hegemonia despótica; com toda a exactidão e propriedade, chama-se obra da justiça”. A paz “brota da fraternidade, cresce através da luta contra a injustiça e a desigualdade, constrói-se estendendo a mão aos outros.  Por isso, a Declaração exorta os líderes mundiais a acabar com os conflitos e o derramento de sangue em toda a parte. Pedimo-vos, em nome de Deus e pelo bem da Humanidade: comprometam-se a favor da paz, não a favor das armas. Só servindo a paz é que o vosso nome será grande na História.”


A segunda palavra é a favor das mulheres. “Se falta a paz é porque falta o cuidado, a ternura, a capacidade de gerar vida. Por isso, é preciso buscá-la implicando mais as mulheres. Porque a mulher cuida e dá vida ao mundo, é caminho para a paz. Por isso, apoiamos a necessidade de proteger a sua dignidade e melhorar o seu status social como membros da família e da sociedade com os mesmos direitos. Deve-se-lhes confiar papéis e responsabilidades maiores. Quantas opções que levam à morte se evitariam, se as mulheres estivessem no centro das decisões. Comprometamo-nos para que sejam mais respeitadas, reconhecidas e incluídas.”


A terceira palavra: os jovens. “Eles são os mensageiros da paz e da unidade de hoje e do amanhã. Eles são os que, mais que outros, invocam a paz e o respeito pela casa comum da criação.” No enquadramento de sonhos e esperanças da juventude, diz Francisco: “Assim também, religiosidades rígidas e sufocantes não pertencem ao futuro, mas ao passado”. E: “Nas mãos dos jovens ponhamos oportunidades de educação, não armas de destruição.” O futuro constrói-se não esquecendo “a transcendência e a fraternidade”. “Avancemos, caminhando juntos na Terra como filhos do Céu!”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 de novembro de 2022

RELIGIÕES: "O DIREITO À ESPERANÇA, À BELEZA, AO CÉU". 1

  


1. O Papa Francisco esteve no Cazaquistão nos dias 13-15 de Setembro, para participar no VII Congresso de Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais. Coube-lhe o discurso de encerramento, no qual se socorre de várias citações da Declaração final do Congresso. O que aí fica pretende ser uma síntese dos momentos considerados essenciais dos dois textos, sendo o de hoje dedicado à Declaração. Mas começaria por sublinhar a importância decisiva destes encontros sobre as religiões, não só porque, como sublinhou o teólogo Hans Küng, “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos (atitude ética) global, sem um ethos mundial”, mas também para que as religiões reflictam, se convertam à sua essência, ao que verdadeiramente devem ser, e assim evitem barbaridades em nome de Deus. Por exemplo, no passado dia 25 de Setembro, o Patriarca Kirill, o representante máximo da Igreja ortodoxa na Rússia, no sermão de Domingo, afirmou que o sacrifício “no cumprimento do dever militar” na guerra contra a Ucrânia “lava todos os pecados”. E o que fez a Inquisição senão assar dissidentes na fogueira, apenas porque, com razão, divergiam da Igreja oficial? E a tragédia da pedofilia?  E as barbaridades em nome do islão?... Nas religiões, há o melhor e o pior…


2. A Declaração conjunta tem como ponto de partida “o facto imutável de que o Todo Poderoso criou todas as pessoas iguais, independentemente da sua filiação racial, religiosa, étnica ou de outro tipo ou da sua condição social, e, assim, a tolerância, o respeito e a compreensão mútua são a base de apoio de todo o ensino religioso.” Mais: “o pluralismo e as diferenças de religião, cor da pele, género, raça e língua são expressões da sabedoria da vontade de Deus na criação.” Por isso, a Declaração acentua que as religiões só podem ser factores de paz: “Cremos que o extremismo, o radicalismo, o terrorismo e todas as outras formas de violência e guerra,  sejam  quais forem os seus objectivos, nada têm que ver com a verdadeira religião e devem ser rejeitados do modo mais enérgico.”


Também por isso, insiste encarecidamente com os governos nacionais e as organizações internacionais “para que prestem uma assistência integral a todos os grupos religiosos e comunidades étnicas que foram e são objecto de violação de direitos e de violência por parte de extremistas e terroristas.” Apela igualmente aos líderes mundiais para que “abandonem toda a retórica agressiva e destrutiva que conduz à desestabilização do mundo e para que cessem os conflitos e o derramento de sangue em todos os quadrantes do nosso mundo.”


Em ordem à resolução dos conflitos, pede a colaboração dos líderes religiosos e dos políticos: “Apelamos aos líderes religiosos e aos políticos de diferentes partes do mundo para que desenvolvam incansavelmente o diálogo em nome da amizade, da solidariedade e da coexistência pacífica”, defendemos “a participação activa desses líderes das religiões mundiais e tradicionais e das figuras políticas proeminentes na resolução de conflitos em ordem a conseguir a estabilidade a longo prazo.” Há “a necessdiade urgente de que os líderes espirituais e políticos trabalhem juntos para fazer frente aos desafios do nosso mundo.”


Não há dúvida nenhuma de que a religião pode contribuir para uma maior humanização, uma humanização integral, plena. Com uma condição: ser bem entendida. Reconhece-se que “o Congresso de Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais desempenha um papel importante na realização de esforços conjuntos para fortalecer o diálogo em nome da paz e da cooperação, bem como dos vlaores espirituais e morais.” Por isso, a Declaração adverte: “Esforçamo-nos por desenvolver um diálogo com os meios de comunicação social e outras instituições da sociedade para esclarecerem a importância dos valores religiosos para promover a alfabetização religiosa, a tolerância inter-religiosa e a paz civil”, continuando: “Constatamos que as pessoas e as sociedades que desestimam a importância dos valores espirituais e as directrizes morais são susceptíveis de perder a sua humanidade e criatividade.” Por isso, ao mesmo tempo que acolhem “com satisfação os progressos realizados nos campos da ciência, da tecnologia, da medicina, da indústria e outros âmbitos”, chamam a atenção para a necessidade da sua “harmonização com os valores espirituais, sociais e humanos.” Fundamental é “aumentar o papel da educação e da formação religiosa para reforçar a coexistência respeitosa das religiões e as culturas e desterrar os perigosos preconceitos pseudoreligiosos.” “Pedimos que se apoiem todas as iniciattivas práticas para levar a cabo o diálogo inter-religioso e interconfessional, em ordem a construir a justiça social e a solidariedade entre os povos. Solidarizamo-nos com os esforços das Nações Unidas e todas as outras instituições e organizações internacionais, governamentais e regionais, para promover o diálogo  entre civilizações e religiões, estados e nações.”


A família e sua importância fundamental não foram esquecidas, os direitos da mulher também não. “Prestamos especial atenção à importância de fortalecer a instiuição da família. Defendemos a protecção da dignidade e dos direitos das mulheres, a melhoria do seu status social como membros iguais da família e da sociedade.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 22 de outubro de 2022

HAVERÁ SEMPRE GUERRAS?

  


1. Quando olho para a tragédia que se abateu sobre a Ucrânia: bombas atrás de bombas, milhões de refugiados, valas comuns, mortos e mais mortos, crianças afogadas no pânico, mulheres sem palavras para chorar e gritar os horrores, hospitais, creches, escolas destruídos, ruinas, mais ruinas, um mundo a desabar, ameaças de guerra nuclear..., só poderia desejar, do fundo do coração, poder responder: Não, nunca mais haverá guerra. Mas sei que não é assim. Haverá sempre guerras, a não ser que se desse uma conversão radical da humanidade.


Neste sentido, há um texto que me foi enviado, cujo autor desconheço mas com o qual estou de acordo, até porque encontrou as palavras certas para descrever este mundo de loucura. Reza assim: “Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: ‘Eu mato para roubar’. As guerras invocam sempre motivos nobres: matam em nome da paz, em nome de Deus, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia e, por causa das dúvidas de nenhuma destas mentiras ser suficiente, aí estão os meios de comunicação dispostos a inventar inimigos imaginários para justificar a transformação do mundo num grande manicómio e um imenso matadouro. Em Rei Lear, Shakespeare escreveu que neste mundo os loucos guiam os cegos, e, quatro séculos depois, os senhores do mundo são loucos enamorados da morte que transformaram o mundo num lugar onde a cada minuto morrem de fome ou doença curável dez crianças e a cada minuto se gastam três milhões de dólares, três milhões de dólares a cada minuto, na indústria militar, que é uma fábrica de morte. E as armas exigem guerras e as guerras exigem armas, e os cinco países que dominam as Nações Unidas, que têm direito de veto nas Nações Unidas, acabam também por ser os cinco principais produtores de armas. A gente pergunta: ‘Até quando? Até quando a paz do mundo estará nas mãos dos que fazem o negócio da guerra? Até quando continuaremos a acreditar que nascemos para o extermínio mútuo e que o extermínio mútuo é o nosso destino? Até quando?’ “.


2. O filósofo I. Kant escreveu que o ser humano se defronta com três impulsos fundamentais: o prazer, o poder e o ter. Por mim, penso que o mais forte é o poder enquanto domínio. De facto, o ser humano é carente e confronta-se com a morte, que o confronta com o nada. Através do poder, de poder em poder, cada vez com mais poder, alcançaria a omnipotência e mataria a morte.


Pascal, o grande Pascal, o matemático eminente, uns dos maiores de sempre, e também um dos maiores cristãos europeus de sempre, viu bem quando escreveu que a constituição do ser humano mora ali algures entre “le rien et l’infini” (o nada e o infinito). Por isso, a mais poderosa tentação, desde o início da humanidade, é a omnipotência. Embora se trate de uma estória mítica, ela diz o essencial: no Génesis, a serpente voltou-se para Eva e disse-lhe que, apesar da proibição por Deus, se comessem do fruto proibido, seriam como Deus, alcançariam a omnipotência. E deu a Adão, e ela também comeu. E aí estão as trágicas consequências: foram expulsos e, logo a seguir, Caim matou o irmão, Abel, inaugurando uma torrente de sangue sem fim.


Com o poder, vem o ter e cada vez mais teres, porque o desejo de ter é insaciável. E os teres precisam de ser aumentados sempre mais e defendidos, e aí estão a violência e a guerra, que, paradoxalmente, aumentam o poder e o ter. Neste nosso tempo, os gastos com novas armas rondam os dois milhões de milhões (2.000.000.000.000) de dólares, com a lógica de que as armas exigem guerras e as guerras exigem armas, também para gastar o armamento velho e produzir novas armas.


3. O poder fascina de tal modo que até há bem pouco tempo se cantava nas igrejas a Deus como “Senhor Deus dos exércitos” — aliás, ainda há um bispo das forças armadas, mas não um bispo da saúde e da cultura...— e a maior traição da Igreja foi ter-se transformado numa instituição de poder.


Jesus tem duas advertências essenciais. “Não podeis servir a Deus e a Dinheiro”. Ele conhecia bem a importância do dinheiro — não passou a maior parte da  vida a trabalhar? —, mas não se pode adorar Dinheiro (com maiúscula). Significativamente, os Evangelhos foram escritos em grego, mas mantiveram duas palavras em aramaico, a língua materna de Jesus: Abbá, Paizinho (era com esta ternura que Jesus se dirigia a Deus) e Mammôn, a deusa do dinheiro. Mammôn tem o radical mn, que significa confiar. A revelação de Jesus é que Deus é bom, Pai e Mãe de todos, e realmente não é possível confiar, entregar-se confiadamente a Deus e ao mesmo tempo confiar, entregar-se confiadamente a Dinheiro como salvador.


Jesus também disse: “Eu sou Senhor e Mestre”, mas “vim para servir, não para ser servido”; “quem quiser ser o primeiro seja servidor”. Deus é omnipotente? Sim, tem todo o poder, mas não enquanto dominação mas Força infinita de criar.


O latim pode ser iluminante. Mestre tem na sua origem magister, com base em magis, que significa mais, de tal modo que o mestre é o que está acima, o maior, em contraposição com ministro, que vem de minister, com base em minus, menos, e que é o servente, o que serve. (Quantos ministros — também os ministros da Igreja — se lembram que devem ser os que servem, os serventes?). E isso nada tem que ver com ser incompetente. O exemplo é Jesus: ele é o verdadeiro Mestre e Senhor, mas é servidor. Assim, todos devem levar o mais longe possível os seus dons, não para dominar, mas para a maior realização de todos.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 de outubro de 2022

AS RELIGIÕES NA ESCOLA

  


Quantos cristãos saberão que, se Adão e Eva fossem figuras reais e nossos contemporâneos, precisariam, para viajar para o estrangeiro, de um passaporte iraquiano? Quantos se lembram de que  Abraão, que está na base das três religiões monoteístas -- judaísmo, cristianismo, islão --, possuiria igualmente nacionalidade iraquiana? Quantos se lembram de que os primeiros capítulos do Génesis, referentes ao mito da criação e da queda, se passam na Mesopotâmia, onde mergulham algumas das nossas raízes culturais? As religiões estão sempre presentes. Mas quem tem delas um conhecimento mínimo? Qual é a relação entre religião e violência, religião e política, religião e desenvolvimento económico, religião e saúde?


O grande Umberto Eco, agnóstico, lamentava-se: “Nas escolas italianas, Homero é obrigatório, César é obrigatório, Pitágoras é obrigatório, só Deus é facultativo. Se o ensino religioso se identificar com o do catecismo católico, no espírito da Constituição italiana deve ser facultativo. Só lamento que não exista um ensino da história das religiões. Um jovem termina os seus estudos e sabe quem era Poséidon e Vulcano, mas tem ideias confusas acerca do Espírito Santo, pensando que Maomé é o deus dos muçulmanos e que os quacres são personagens de Walt Disney...”


Ernst Bloch, o filósofo marxista heterodoxo e ateu religioso, com quem tive o privilégio de conversar, sublinhou que o desconhecimento da Bíblia constitui uma “situação insustentável”, pois produz “bárbaros”, que, por exemplo, perante a “Paixão segundo São Mateus”, de Bach, ficam como bois a olhar para palácios. 


É um facto que não é possível ensinar literatura, história, filosofia, artes, sem uma cultura religiosa mínima. Por outro lado, vivemos num mundo cada vez mais multicultural e multireligioso e, sem paz entre as religiões, não haverá paz no mundo. A paz exige o diálogo inter-religioso, mas o diálogo pressupõe o conhecimento das religiões, como acentuava o teólogo Hans Küng.


Neste contexto, em 2002, a pedido do ministro francês da Educação Nacional, o filósofo agnóstico Régis Debray apresentou o Relatório sobre  “O ensino do facto religioso na escola laica”. O ministro Jack Lang escreveu no Prefácio: se “a escola autêntica e serenamente laica deve dar acesso à compreensão do mundo”, as religiões enquanto “factos de civilização” e “elementos marcantes e, em larga medida, estruturantes da história da humanidade” têm de estar presentes, e os professores, sem privilegiarem esta ou aquela opção espiritual, devem dar o justo lugar ao seu conhecimento nas várias disciplinas escolares. Uma melhor formação dos professores em ordem a poderem tratar serenamente o facto religoso é uma necessidade.


Há o perigo da incultura religiosa que faz com que, perante uma Virgem de Boticelli, qualquer dia um jovem pergunte: “Quem é a gaja?”” De qualquer forma, Régis Debray sublinha que “a história das religiões não é a recolha das lembranças da infância da Humanidade”. Não há ninguém que não se confronte com a pergunta: Qual é o fundamento e o sentido último de tudo? E esta pergunta abre inevitavelmente à questão religiosa. Mesmo se as religiões não têm o monopólio do sentido, integram o universo simbólico, como o direito, a moral, a história da arte ou o mito, sendo dever da escola aprofundar a sua inteligência reflexiva e crítica. Este esforço impõe-se tanto mais quanto o paradigma da economia, da gestão e das novas tecnologias não pode constituir “o horizonte único e último”. É preciso reconhecer também que relegar o facto religioso para fora dos circuitos da transmissão racional, portanto, escolar, não é o melhor remédio para enfrentar “a vaga esotérica e irracionalista” bem como o fundamentalismo. Como recentemente sublinhou o Papa Francisco, “a educação é essencial para superar fundamentalismos.”


Uma vez que se trata da escola laica, deve tornar-se claro que “o ensino do religioso não é um ensino religioso”. Por outras palavras, não se pode confundir informação histórica e crítica com catequese. Aqui, não se faz catecismo, pois o objectivo é uma “aproximação  descritiva, factual e nocional das religiões em presença, na sua pluralidade, sem privilegiar nenhuma”. De qualquer forma, a perspectiva “objectivante” não colide com a perspectiva “confessante”, desde que as duas possam “existir e prosperar simultaneamente”. São duas ópticas não concorrentes: a da fé e a da cultura.


É a laicidade que torna possível a coexistência das várias opções espirituais. Mas “a faculdade de aceder à globalidade da experiência humana, inerente a todos os indivíduos dotados de razão, implica a luta contra o analfabetismo religioso e o estudo dos sistemas de crenças existentes”, sendo preciso passar de “uma laicidade de incompetência” – a religião não nos diria respeito – a uma “laicidade de inteligência” – é nosso dever compreendê-la.


O princípio a manter no ensino do facto religioso na escola pública foi formulado pelo filósofo Hegel: não se trata de tornar os crentes descrentes nem os descrentes crentes, mas contribuir para que todos se tornem lúcidos.


Neste quadro, não pode deixar de ser veementemente saudada a criação da Academia para o Encontro de Culturas e Religiões da Universidade de Coimbra (APECER-UC), com o objectivo fundamental da promoção do “diálogo cultural e inter-religioso”, dentro da missão da Universidade, que é formar pessoas integrais para um mundo bom, justo, na paz.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 8 de outubro de 2022