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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR


A farsa e a arte da nova vanguarda.


«Art today has reached a new extreme of decadence, in which it dialectically incorporates all the past signs of artistic rejuvenation – the dregs of old and already won struggles for reintegration, reinvigoration – while denying their contemporary possibility» (Kuspit 1993, 13)


A partir do final dos anos sessenta do século XX, declara-se que em cada indivíduo existe um caráter único e uma personalidade exclusiva, mas o eu (simultaneamente verdadeiro e falso) está sempre a progredir e deve ser cultivado.


 O advento da nova vanguarda assinala que, entre outras coisas, a arte perdeu o seu propósito terapêutico, a sua capacidade de curar e de salvar. A arte da nova vanguarda não tenta transformar os valores do seu público, nem realçar os seus pontos fortes ou eliminar fraquezas, nem faz rejuvenescer e simplesmente não restaura vontade de viver. Explora sim a suscetibilidade do seu público em relação à arte e a sua esperança inconsciente de transfiguração, mas oferece pouco em troca. Certamente não aborda a condição do público, pois o pós-modernismo sinaliza que a arte perdeu a sua vontade de poder. Não é mais uma afirmação abençoada, não tem uma existência divina e não é produzida em plenitude e em perfeição.


A arte da nova vanguarda não cura, nem redime. Evita a espontaneidade e nega a primordialidade, apresentando ao falso eu complacente, qualquer ironia, e não é claro que pretenda triunfar sobre o verdadeiro eu. Padroniza o verdadeiro eu num estereótipo, num ready-made, numa falsa identidade. O pós-modernismo afirma a decandência do déjà-vu e oferece uma espécie de conformidade com o contexto e com o histórico. Prefere o secundário ao primário, o recuo ao avanço, o disfarce à transfiguração. (Kuspit 1993, 12-13)


A ideia de farsa está relacionada com a suposição de que é mais fácil falar acerca de si próprio através de algo ou de alguém.


«Eu só me preocupo comigo, o resto é uma paisagem humana. Posso dizer pela experiência que tenho tido, que viver assim debruçado cá para dentro é apaixonante.». Ruben A. In O Mundo à Minha Procura, p.12-13.


O encontro consigo mesmo vem por meio de coisas que existem por causa de uma combinação única de memórias reunidas. A soma de cada experiência interna e externa constrói uma identidade subjetiva. O pós-modernismo não incorpora, nem sintetiza a experiência do objeto a favor do sujeito. Objetifica sim em demasiado a arte. Materializa de modo que as suas implicações subjetivas pareçam o seu ponto mais visível e a sua aparência mais espetacular. (Kuspit 1993, 13)


O pós-modernismo aceita uma multiplicidade de linguagens, de estilos, de expressões e de autores: o artista pode produzir objetos que coincidam totalmente consigo mesmo - expondo experiências de vida e objetos individuais com significado pessoal - ou produzindo-os fingindo ser outra pessoa. O artista pós-modernista não apresenta necessariamente uma vontade criativa – nem uma vontade de poder e de verdade, nem uma vontade em transformar ou transfigurar. A ideia do artista como alguém superior e raramente dotado pela livre auto-consagração, torna-se uma farsa.


No final dos anos 60, autores como John Cage, Susan Sontag, Robert Venturi começaram a desenvolver uma visão baseada na ideia de que «a verdadeira vida é a vida que vivemos». Isso significava apagar as fronteiras entre a arte e as demais atividades humanas - indústria, comércio, moda, design e política. A sua filosofia consistia no pressuposto de que todos poderiam estar abertos a toda e qualquer variedade e riqueza de coisas, materiais e ideais. (Berman, 1989)


Por isso a farsa aceita a complexidade, a diferença e a incerteza. Ao quebrar dogmas e modelos racionais absolutos, a arte pós-modernista substitui estes modelos por incoerência e ambiguidade, que agora aparecem como virtudes. E usa o humor e o absurdo como meio de expressão, como uma forma alternativa de escapar, de descontextualizar, de mudar o sentido, de estabelecer a liberdade, o instinto, a distorção e o paradoxo. (Calinescu, 2003)


A expressão pós-modernista adota conceitos de ligação ao lugar, ao momento e ao contexto. Aceita a apropriação de linguagens mesmo que pertençam ao passado - porque podem ser manipuladas de acordo com objetivos pessoais, analogias urbanas, dimensão pública e até mesmo monumental (Calinescu, 2003).


A memória é assim um legado importante. O artista pós-moderno é um colecionador de memórias que nunca trabalha do zero, porque a história pode ser constantemente reutilizada. Cada artista pode aplicar diferentes interpretações da história - é consequentemente aberta a multiplicidade de caminhos, pontos de vista e um imenso legado. O uso da memória renova o interesse pela tradição – que é usada no sentido de representar formas atemporais; o conhecimento ancestral e o arquétipo.


O artista pós-modernista considera sempre o contexto concreto e essa presença do contexto é a chave para o entendimento e para o desenvolvimento do seu processo. É nessa interpretação do contexto - como fator de imprecisão - que se podem incluir valores como a poética (que o artista subjetivamente fixa e insiste). E é nesse sentido que cada objeto é único - por pertencer a um determinado contexto, a um preciso momento e a um lugar concreto – e por isso se amplia e subverte assim a tendência racional do modernismo ao exacerbar a expressão do edifico e do autor (sempre em busca de uma metodologia precisa, de uma síntese da forma e da clareza de um conceito que fazia justificar uma certa austeridade formal).

 

Ana Ruepp

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