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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

A indeterminação é a matéria da arte.


A solidão acompanha-nos sempre como se de uma sombra se tratasse. Faz parte da condição humana. Fazer arte é estar em silêncio, é fazer parte dessa solidão, é estar em completa fusão e em constante metamorfose com o que rodeia. É aceitar o que é, o que existe e o que cessa. Porque se olharmos simplesmente sem ideias preconcebidas e sem expectativas nunca nada está completo, nem parado. Há um momento em que temos de deixar e esperar que tudo aconteça.


A origem da arte é confusa. O artista nunca consegue saber bem o que está a comunicar, porque na verdade está sempre à procura daquilo que vai dizer. Essa indeterminação e esse constante contacto com o abismo e com a escuridão é a matéria da arte.


“...a arte é sempre impaciente (...) Nela não há nada de adicional, de cumulativo, não há progresso verdadeiro (...) procura compor um corpo, uma coisa finita, em escorço, em miniatura, uma nova feição do apelo das forças do obscuro, do irracional, trazendo-as à luz simbolicamente.” (Molder 2020, 16-17)


A arte não tenta escapar, nem perceber a vida, nem muito menos dar a entendê-la. É um simples testemunho dos nossos sentidos e de impressões dispersas. Fazer arte talvez seja a oportunidade única para se estar em contacto direto com a matéria em transformação, com a ultrapassagem de um estado ao outro, com esse espaço intermédio que fica entre o que realmente é e o que se desejaria que fosse. Ao formar o artista está a testemunhar e a participar de uma metamorfose que de repente faz sentido. Uma metamorfose que sem o artista não se daria. O artista ajuda a entender uma evidência. A arte pertence e vive de um momento muito específico: “...diz respeito a um modo de conhecimento, que tende sempre a superar a morte, a investir contra a escuridão...” (Molder 2020, 15)


Os pensadores modernos atribuíram especial integridade e poder ao artista, por ser o único capaz de ser ele mesmo de uma forma que é impossível para as outras pessoas e por ser o único capaz de ter experiência primordial e direta e uma sensibilidade profundamente realista. O artista moderno é singular ao ser capaz de experienciar a vida de um modo muito mais fundamental e original. Ao ser capaz de permitir que todos se libertem da agonia da vida. E de realizar a metamorfose do sonho da vida em algo concreto e palpável. A arte moderna é até capaz de ser uma grande ressuscitadora e de transferir a experiência da vida real em infinitude.


O artista moderno tem a singular e a espontânea capacidade de conduzir todos para fora do mundo comum da perceção e para longe do senso comum da vida - em direção a um mundo promissor e a um sentido de vida totalmente novo. O artista moderno é um herói que todos devem adorar porque consegue superar o seu destino através da criatividade, e consegue densamente, através daquilo que faz, libertar todos do sofrimento da vida. É a promessa da totalidade. É a promessa de ligar e de pertencer a tudo o que pode ser ligado, mesmo que seja por um instante. A arte moderna é assim ainda considerada um ofício divino em que o artista é considerado excecionalmente o único ser autêntico numa sociedade inautêntica. (Kuspit 1993, 2-6)


“... o mal na arte está numa representação do mundo que deixa o mundo abandonado, desprovido de forma, uma arte de passa-tempo para matar o tempo.” (Molder 2020, 19)

 

Ana Ruepp