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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR


Os filmes de Eric Rohmer e a imanência da graça de Deus no mundo.


"My films are pure works of fiction, I don’t claim to be a sociologist, and I’m not making investigations or collecting statistics. I simply take particular cases that I have invented myself, they aren’t meant to be scientific, and they are works of imagination.", Eric Rohmer, Eric Rohmer: Interviews, Fiona Handyside


Nos filmes de Rohmer o mundo é detido como sendo intrinsecamente belo porque faz parte da criação divina. Fiona Handyside no livro Eric Rohmer: Interviews (University Press Mississippi, 2015) considera que Eric Rohmer é um realizador teológico - o poder da concepção inteligente, para Rohmer, é a manifestação da claridade do espírito, que se abre no meio do caos físico da existência humana.


O cinema, para Rohmer é o instrumento que permite mostrar o que existe, o que está na vida: não o que está nos artigos de revistas ou na televisão. É o meio para a evidenciar a realidade crua, não pré-digerida pela imprensa ou pelas pesquisas de opinião. (Eric Rohmer em entrevista a Rui Nogueira, Eric Rohmer: Choice and Chance, 1971)


O cinema é a reprodução do mundo exterior, e tem a capacidade de abordar temas eternos que estão dentro do pensamento de cada ser humano. Os seus filmes são um conflito entre o estável e o instável, a imobilidade e a mudança. Para Rohmer, o cinema é o instrumento que permite descobrir e testemunhar a beleza do mundo - mas sobretudo porque é o único meio de expressão que nos leva de volta à natureza e às relações entre o indíviduo e o ambiente físico que o rodeia (as estações do ano são fundamentais para o desenvolvimento de uma narrativa). O lugar é assim determinante para introduzir variações ao tema que domina por exemplo uma série de filmes.


A filosofia do seu cinema está coberta por uma visão disposta a aceitar as manifestações que pertencem à substância ou à essência de algo, à interioridade das coisas. O papel do realizador é o de aceitar a beleza ordenada do mundo, Rohmer não deseja transformar - deseja mostrar disponibilidade e abertura para a incerteza se manifestar. A incerteza para Rohmer pode ter um significado divino e em forma de graça pode abrir fendas na vida das personagens e drasticamente pôr em causa aquilo que era tido como certo.


“What interest me are the thoughts that fill his mind at that particular moment. And I wanted to use the cinema to show them, even though as the art of objective and exterior images, it might seem the least appropriate.", Eric Rohmer, Eric Rohmer: Interviews, Fiona Handyside


No texto Imagination and Grace: Rohmer’s Contes des Quatres Saisons de Keith Tester, lê-se que os filmes de Rohmer podem ser ententidos como explorações da imanência da graça de Deus no mundo - e o cinema é o meio mais eficaz que, com o seu realismo, consegue, sem distorcer, explorar conceitos relacionados com a essência do ser humano e com a essência de Deus.


O cinema, segundo Rohmer é o meio por excelência que tem a capacidade de preservar a constante mudança das paisagens. É a constante relação entre o pensamento e o mundo exterior, entre o espaço onde se move corpo e as escolhas e os ideais que cada um transporta dentro de si. É a incessante ligação entre a gravidade e a graça.


Para Keith Tester, gravidade permite conter todas as coisas do mundo no lugar, concedendo a cada uma das coisas substância e solidez. A imaginação é a gravidade intelectual que permite olhar para todas essas coisas do mundo e estabelecer entre elas relações de modo a atribuir-lhes um significado preciso. Por isso e consequentemente tudo neste mundo é extraído da imaginação e gira em torno do indivíduo que é o criador dessa imaginação. Mas se o mundo é entendido como sendo produto de uma criação divina, então a gravidade afasta-nos de Deus - Keith Tester escreve que segundo Simone Weil a prova do amor de Deus é essa da gravidade e da escolha de poder ser livres. Ainda assim Deus chama através do dom gratuito da graça. A graça fissura, parte e fende a ordem imaginária do mundo fornecendo a possibilidade de mais claridade. Os filmes de Rohmer, para Tester exploram então este conflito entre a imaginação e a graça. E assim a graça ao manifestar-se dentro do ser em forma de incerteza, de sonho ou de desejo existe para demolir sistemas e fazer colapsar ilusões.


“For me what is interesting in mankind is what is permanent and eternal and doesn’t change, rather than what changes, and that’s what I’m interested in showing.”, Eric Rohmer, Eric Rohmer: Interviews, Fiona Handyside

 

Ana Ruepp

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