A FORÇA DO ATO CRIADOR
Fool with a Flower, 1944, Cecil Collins
A arte sensibiliza o interior de cada indivíduo, sincronizando-o com cada elemento do mundo.
“For beneath the tyranny and captivity of the mediocre culture of political dictatorships and their mechanical systems, and beneath our own commercial travellers' civilisation, there still flows the living river of human consciousness within which is concentrated in continuity the life of the kingdom of life, animals, plants, stars, the earth and the sea, the life of our ancestors, the flowing generation of men and women as they flower in their brief and often tragic beauty. And the artist is one of the vehicles of the continuity of that life; he is its guardian, and his instrument is the myth and the archetypal image, his language the symbol.” Cecil Collins (Collins 2002, 113)
O ser humano tem uma vida interior que vai para além da sua existência quotidiana, essa vida interior pode revelar-se através da prática e da experiência da criação, isto é, através da arte.
No texto ‘Art and Modern Man’, Cecil Collins revela que o ser humano tem uma existência exterior e uma existência interior, porém a existência interior para que exista, floresça e seja ativada tem de ter um espaço (um mundo e um ambiente próprio) para se desenvolver e expandir. E, de acordo, com Cecil Collins a arte é o único instrumento que pode ajudar a construir esse mundo e ser casa arquetípica - o centro de tudo aquilo que o ser humano procura. Assim, se os dois mundos (interior e exterior) viverem unidos e em comunhão dar-se-á em cada indivíduo um equilíbrio e um sentido definido e derradeiro.
A civilização atual, Collins explica, é organizada de acordo com a ordem da alta tecnologia e deixou de olhar para o mundo como se fosse um vasto poema escrito com forma e cor. Esse mundo, onde cada elemento e objeto real tinha um significado escondido, sagrado e essencial, cessou de existir no mundo de hoje. Era um mundo que quando entendido permitia fundir-se com o seu recetor por ressonância e mútua compreensão.
O domínio do conhecimento, focado simplesmente nos aspetos físicos, afasta e esvazia a vida interior do ser humano. Sendo assim, o ser humano é impedido de se aproximar e de criar uma resposta em comunhão com aquilo que o rodeia. E, por isso, vê-se obrigado a viver num estado de alienação, de esvaziamento e de escapismo constante, permitindo que cada indivíduo se transforme numa máquina sujeita a constantes pressões de eficiência e abandone o verdadeiro propósito da sua existência.
Cecil Collins acredita que os fatores e elementos mais significativos para a vida só poderão ser transmitidos e ensinados através da experiência humana e nunca através de máquinas. Numa cultura viva existe um equilíbrio entre a energia, a força, a experiência, a realidade, o sonho, a imaginação, a abstração e a sabedoria. É a comunhão e a unidade que existe entre o ser e o cosmos que traz vida e dá sentido à vida.
“Ours is the only civilization I know of in the whole history of man which has a purely exterior environment. In the metaphysical civilizations the environment was created entirely by artists so that the human spirit through the human hand was imprinted directly upon the material objects surrounding man.” Cecil Collins (Collins 2002, 107)
Collins escreve que, desde sempre, o artista é aquele que manifesta e que ativa a vida interior do ser humano. A concentração de todos os meios disponíveis num só aspeto determinado mundo pode contribuir para a sua destruição. Por isso, é preciso entender que existem diferentes níveis de conhecimento e de inteligência – cada indivíduo tem uma linguagem e uma expressão particular e irrepetível e é através de experiências diversas que se vai descobrindo e aperfeiçoando essa linguagem que revela e que pode ajudar a revelar. O artista está primeiramente interessado em criar significado através da revelação de identidade, de experiência, de lugar, de presença, isto é, através do entendimento do ser humano como um todo.
“And then secondly we understand, that the signature or form is no spirit, but the receptacle, container, or cabinet of the spirit, wherein it lies; for the signature stands in the essence, and is as a lute that liest still, and is indeed a dumb thing that is neither heard or understood; but if it be played upon, then its form is understood, in what form and tune it stands, and according to what note it is set.”, Jacob Boehme In The Signature of all things
Collins afirma que o ser humano é um instrumento da consciência, que transporta em si o sentido da vida e que vai para além da superfície. A transformação e a revelação da consciência humana não pode ser analisada, pensada nem descrita. Pode só dar-se perante pequenas relações e sensibilidades que acontecem em resposta a vibrações que existem nas outras vidas, elementos e objetos que existem. A arte ou a capacidade de criar ajuda a sensibilizar o interior de cada indivíduo e da sua consciência, de modo a poder sincronizar-se com cada elemento (por mais insignificante que seja) do mundo e do cosmos. Para que o ser humano possa entender, estudar e conhecer um elemento do mundo, ele próprio tem de se transformar nesse elemento: “Never did eye see the sun unless it had first become sun like and never can the soul have vision of the first beauty unless itself be beautiful”, Plotinus (Collins 2002, 109)
Mas a arte (e tudo o que é criado pela mão humana) só possibilitará a comunhão, a visão e a semelhança com aquilo que existe, se for a realização da essência daquilo que existe. E será um instrumento da natureza interior do ser humano se permitir a manifestação, por meio da matéria, da sua essência e da essência do mundo - de modo que o cosmos possa estabelecer relações profundas, próximas e sincronizadas com a vida.
Por sua vez, o ser humano ao permitir que a sua consciência seja transformada e tocada através da arte, torna-se mais sensível a qualquer pormenor e vibração e assim haverá uma ligação mais profunda com cada elemento do mundo.
Collins escreve que o ser humano deve contactar com o seu centro pois assim entrará em comunhão com o centro do universo – e só assim deixará de ser prisioneiro de um mundo vazio e superficial. O centro do universo transporta o sentido da vida e a nostalgia do paraíso perdido (já mencionado entre as comunidades primitivas, cujo drama e energia flui no sentido de fazer parte do mundo arquetípico).
Ao artista cabe então refletir sobre aquilo que dá sentido à vida. A arte ajuda a reativar o verdadeiro eu eterno do ser humano. Arte, para Collins, é assim uma interpenetração de mundos, é um encontro entre o que se conhece e o desconhecido – o desconhecido refresca a vida humana, pois sem esta dimensão cada ser crescerá estéril e mortal.
Por isso, Collins fala da importância do artista em usar a linguagem dos símbolos, a linguagem das formas originais. Os símbolos existem não para responder a questões, nem resolver soluções. Os símbolos são vestígios, são formações e transformações dos diversos modos de ser. Um símbolo é um contentor, é uma imagem de contemplação e de participação. É um veículo e um meio. É uma imagem pronta a receber. Estados profundos do ser humano podem ser espelhados num símbolo: “In contemplation all these symbols have to be returned to our being and dipped into its profound depths and thus be reborn again.”, Cecil Collins (Collins 2002, 113)
Collins termina com a ideia de que a arte é a entrada para aquilo que mais importa – não só para o artista que cria e que aprende a ver mas também para aquele que perante a arte se transforma. A vida interior do ser humano deve manter-se viva e transmitida pois essa é a verdadeira fonte da vida e do propósito humano e a arte é o único veículo que pode salvar perante o abismo.
“The modern technological world has the real possibility of poisoning in us those inner instruments by which we contact the very source of life…”, Cecil Collins (Collins 2002, 114)
Ana Ruepp