A FORÇA DO ATO CRIADOR
A verdadeira arquitetura manifesta-se como um ponto do universo que permite compreender e dar sentido.
A verdadeira arquitectura existe sempre que se manifesta uma experiência aberta, única, nova, central e individual.
No texto “Half an Hour of Silence.” Christophe Van Gerrewey (OASE # 90. 2025) afirma que a ocorrência de verdadeira arquitetura só poderá acontecer se houver contraste direto com o contexto. Algo diferente deve acontecer - algo desconhecido, algo que quer ser conhecido mas que resiste ao conhecimento total. Desta maneira, tudo o que é fundamental e abrangente fica envolvido. Por isso, a arquitetura é uma experiência acima de tudo relativa à existência precisamente porque diz respeito ao ser humano em continuidade e em movimento no espaço.
Christophe Van Gerrewey sublinha que a arquitetura é uma experiência individual. No verdadeiro sentido, é uma experiência que não se reproduz, porque o que é importante é a singularidade de cada espaço e lugar e a maneira como isso se revela em cada indivíduo. Cada ser humano está sempre em busca de algo extraordinário e a verdadeira arquitetura poderá ser o caminho para essa procura. Em solidão e em silêncio a arquitetura revela uma exceção. E é precisamente a descoberta, e não aquilo que constitui espectáculo, que determina a importância da arquitetura em cada ser humano. Para Van Gerrewey, a verdadeira arquitetura é capaz de silenciar tudo resto onde apenas só o silêncio interior é audível - o silêncio do cosmos, o silêncio divino, o silêncio de meia hora.
A verdadeira arquitetura, escreve Van Gerrewey, permite a abertura a inúmeras possibilidades, porque anteriormente não existia algo assim de semelhante. A verdadeira arquitetura é algo que se formou num lugar específico e determinado e que trouxe novas ligações e novas capacidades. A verdadeira arquitetura é singular, é criada através de uma impressão que reverbera no tempo e em cada um que experiência a sua condição e o seu limite. A arquitetura abre a possibilidade para aquilo que não existia antes e forma uma vida que nunca tinha sido antes vivida - uma vida que não é descrita pelos costumes e hábitos dominantes, uma vida que possibilita o desapegar de certas condições, conceitos e regras.
“Architecture - it might as well be a design paper project or even a concept - turns the client and each spectator temporarily into a Houdini who gets provided by the means to detach himself from the straitjacket of the well-known conditions of laws and prescriptions.”
Van Gerrewey revela que a arquitetura traz à atenção tudo aquilo que muitas vezes não se quer enfrentar ou reconhecer. A verdadeira arquitetura tem a qualidade de apresentar com claridade contradições, desejos, perdas, preocupações e camadas não visíveis da existência humana. É uma construção que quando executada tem a capacidade de iluminar cada ser humano através de uma série de acções que só a cada indivíduo diz respeito. É um programa único, individual e irrepetível que reflete aquilo que é mais importante para cada ser.
Lê-se ainda no texto, que a arquitetura não se torna verdadeira ao referenciar-se em modelos clássicos, nem na precisão técnica e nem em preferências estéticas. Para Van Gerrewey, a verdadeira arquitetura manifesta-se sim através do questionamento constante de todas as referências conhecidas. Questionar o que é conhecido evita criar fórmulas e impede ditar diretivas. A arquitetura não pode deixar de ser ambígua, porque não deve ser obrigada a nada externo. Deve sobretudo reformular tudo aquilo que já é conhecido, de modo a que a experiência possa ser totalmente nova, única e nunca antes pensada. Van Gerrewey explica que o passado e toda a história é importante somente no sentido em que se pode verificar que cada projeto é singular e irreproduzível - a verdadeira arquitetura tem de ir contra a generalidade, tem de ir contra a formatação e ir além da criação de padrões e de relações óbvias.
Van Gerrewey declara ainda que a verdadeira arquitetura nunca está completa, nem terminará jamais. A verdadeira arquitetura distingue-se do seu contexto e do resto do mundo através dessa abertura, desse vazio e desse interstício que cria de modo único, pessoal e intransmissível. No caos infinito do cosmos, de repente, abre-se um espaço de articulação e de organização, que pode ser projetado no seu contexto mais próximo, e que pode permitir uma compreensão ainda que momentânea do mundo. Só a verdadeira arquitetura se manifesta então como um ponto do universo que permite compreender e dar sentido. A arquitetura dá a ver a infinitude do cosmos mas ao mesmo tempo a insignificância, as limitações e as imperfeições humanas.
“Of course, thanks to this aspect architecture tries to transfer old religious, sacred, holy, mystical, spiritual cosmic claims to a disenchanted world.”
Por isso, na opinião do autor a verdadeira arquitetura é uma manifestação singular daquilo que é mais sagrado. É um ponto absoluto e fixo no centro do universo. É um intervalo e um meio que permite que a vida de cada ser humano seja única e irrepetível.
Ana Ruepp