A FORÇA DO ATO CRIADOR
A Hexenhaus estende no tempo os pequenos detalhes.
(https://artlecta.com/producto/a-house-for-a-man-and-a-cat/)
A arquitetura é uma experiência sensorial que pode tornar o indivíduo mais humano. Mais humano porque é um conhecimento adquirido por uma prática física, individual, intransmissível e única. Os movimentos no espaço nunca se repetem e só existem num lugar específico.
Anna Bach na apresentação “Design is a way to condense time - The Hexenhaus Case” revela que Alison Smithson descrevia a arquitetura como sendo uma atividade produtora de pequenas alegrias. Para Smithson a arquitetura tem, pois, essa capacidade de aumentar e estender no tempo os pequenos detalhes e os pequenos deleites que preenchem e dão significado e sentido à vida. É acima de tudo uma experiência corpórea e tátil e que coloca o ser humano perante a imensidão do universo.
Ora, o projeto que Alison and Peter Smithson fizeram para a Hexenhaus de Axel Bruchhäuser e o seu gato é exemplo dessa capacidade da arquitetura criar uma ligação, mesmo que momentânea, aos pequenos detalhes e aos pequenos prazeres da vida.
O projeto prolongou-se no tempo, e durante quase vinte anos (1986-2002) os Smithson conceberam inúmeras intervenções que consistiram em adições, extrações, introduções, cortes e sobreposições numa pequena casa de arquitetura vernacular situada junto ao rio Weser, no topo de uma colina, em Bad Karlshafen, na Alemanha.
Neste projeto os Smithson testaram um vocabulário que já vinha a ser estudado desde o projeto de St Hilda’s College (Oxford, 1970). Porém, é preciso explicar que os Smithson proclamavam uma arquitetura sem retórica, isto é, uma arquitetura que deveria ser compreendida por todos e deveria ter intenções de purificar a cultura. Desejavam retirar a arquitetura do plano meramente intelectual, isto porque a arquitetura deveria ser acima de tudo uma experiência física, que depende da vida e que vai tomando forma com cada vivência.
Para os Smithson a arquitetura é um fenómeno real que tem luz, sombra, textura, cor, que é tátil, que tem movimento, que tem vistas e que permite o posicionamento e relacionamento das pessoas e das coisas no espaço - é, por isso algo não abstrato.
No livro The Charged Void: Architecture, Alison and Peter Smithson escrevem que já o movimento moderno celebrava a luz e a sua entrada nos espaços interiores - através do branco das paredes e dos enormes panos de vidro. A qualidade e a presença da luz na arquitetura tem essa capacidade de indicar, por exemplo, a hora do dia, o lugar, a estação do ano e colocar o ser humano em presença com os ciclos da natureza. Para os Smithson, a luz na arquitetura significa a possibilidade de renovação, não só da sociedade mas do próprio ser humano (no plano físico e espiritual). A luz tão celebrada no movimento moderno é aquela que dá forma e volume ao objecto construído.
“In architecture light can be thought about so that we can live more easily with things; see them in many moods, let them change us; not pin everything down as the butterflies in a drawer.” (Smithson 2001, 425)
Em Bad Karlshafen, ao longo do rio Weser, um homem e o seu gato sentiram necessidade de se ligar à paisagem. Uma casa vernacular no meio de uma floresta estava fechada sobre si mesma. A ideia de Alison e Peter Smithson seria, tal como num observatório, ir abrindo a casa à luz, à floresta e às árvores.
A primeira intervenção abriu uma varanda (Axel’s Porch) que tinha como efeito estender para fora o padrão, os hábitos e a vida daquele homem e daquele gato de modo a que ambos pudessem adaptar-se, conjugar-se e talvez fundir-se com os padrões das estações e com o ciclo daquela natureza - quer seja no verão, quer seja no inverno, com neve, ao sol, à chuva e ao vento. A varanda funciona como um pequeno espaço protegido de ligação, uma porta aberta àquela paisagem. E é um exemplo de como uma pequena mudança física, neste caso uma pequena abertura numa pré-existência pode trazer mais sincronia entre um ser e o seu lugar.
No texto “Méditations sur les bords de la Weser” (L’Architecture d’aujourd’hui 344, Janvier-février: 66-69.) Louisa Hutton revela que Alison Smithson se referiu às varandas feitas na Hexenhaus como sendo uma sobreposição de camadas de ar, como sendo mediações entre os espaços originais, a floresta, as árvores e o céu. Hutton explica que as varandas são espaços que estão entre, criados por uma necessidade física de estar no meio, dentro e fora em simultâneo. São espaços que expandem a casa a partir de aberturas existentes (que não foram alteradas em tamanho). Por isso, o interior expande-se de forma discreta e inesperada. A pele desses novos volumes, que se acrescentam às paredes exteriores da casa, é constituída predominantemente por vidro e por pinho e formam uma família uniforme que se confunde e se mistura com os ramos das árvores da floresta.
As varandas surgem surpreendentes a partir do interior. A casa vai-se assim abrindo gradualmente ao sol, às árvores e ao rio, ganhando extensão e outra dimensão, como se de um organismo vivo se tratasse. Alison e Peter Smithson afirmam que o período heróico do movimento moderno tinha como princípio esse, o de promover continuidade espacial entre o interior e o exterior, no que diz respeito ao que é sentido e visto - dentro / fora, fora / dentro (Smithson 2001, 559). E as varandas permitem, essa capacidade extraordinária de criar uma nova camada de espaço contínuo e possibilitar estar meio fora, meio dentro - estar no interior do conforto e da segurança da casa, mas também estar junto às paredes de pedra da casa e ver o teto estender-se pela floresta e pelo céu afora. As varandas têm essa capacidade de alterar a noção do espaço - porque ao espaço existente adiciona-se outro espaço que estende, expande e adiciona novas vistas e luz e traz para dentro imagens que são reais e sem filtros.
Anna Bach declara que o projeto dos Smithson para a Hexenhaus tenta fazer isso mesmo, expandir o espaço para além dos seus limites e da sua dimensão - um espaço abre-se dentro de outro espaço que leva a outros lugares, dentro e fora, a outras dimensões e a outras camadas visíveis e invisíveis que se vão abrindo e descobrindo.
Por toda a casa, os Smithson abriram, do mesmo modo, buracos selecionados, enquadrados e estrategicamente colocados. Essas aberturas são pequenas pinturas que permitem que os ramos se vejam dentro e façam parte da casa. Também existem perfurações no telhado e nos tetos para deixar passar a luz. Outras aberturas interiores são um resultado da experiência corporal de viver naquela casa, de ligar espaços interiores e de possibilitar a existência de outras e novas perspetivas que nunca acabam, nem nunca estão completas.
Também houve necessidade de criar e adicionar objetos soltos e independentes e que teve como objetivo possibilitar a visualização da casa de fora e ligar-se ainda mais à floresta e ao rio. Por exemplo, a Hexenbesenraum tem como referência as torres de vigia usadas pelos caçadores na região, mas também se assemelha a uma casa construída numa árvore. Este objeto está fisicamente ligado à casa através de um passadiço que cria uma extensão do segundo nível e que permite introduzir uma nova zona de estar e de levitar sobre a paisagem, enfatizada pelo chão de vidro.
Anna Bach esclarece que já o Sun Pavilion é um espaço sagrado e que representa uma casa dedicado ao sétimo dia, um espaço onde o ser humano se pode elevar - não é concebido para o corpo mas sim para o espírito. Não está fisicamente ligada à casa mas está simplesmente rodeado pela paisagem que se vê através dos vidros. O chão em mármore demonstra que já não se está no domínio doméstico, está-se perante um lugar mais austero e de contemplação.
Estas e outras inúmeras intervenções que Alison e Peter Smithson conceberam para a casa de Axel Bruchhäuser, estabelecem relações transformadas entre um objeto construído e a sua paisagem envolvente. A singularidade da casa estabelece-se através do contraste entre a durabilidade da construção pré-existente e a efemeridade de uma nova camada mais frágil que permite estabelecer uma relação direta entre o ser humano e aquela floresta.
E assim, os Smithson provam que a arquitetura tem a capacidade de aumentar e estender no tempo as pequenas alegrias da vida - ao permitir ser-se testemunha do cair das folhas no Outono ou do entrar da luz baixa do sol de Inverno. A Hexenhaus é o contrário de uma arquitetura produzida por uma máquina e que que é resultado de um algoritmo ou de um processo de cálculo. É sim, uma casa imaginada pela experiência que advém de um corpo que se move e que contempla. É um projeto que não depende de uma imagem concluída, estática, nem terminada. Estabelece, acima de tudo e de modo inesperado uma nova forma que se adapta às condições mutáveis e infinitamente abertas ao sentido da vida e aos pequenos detalhes.
Ana Ruepp