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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

A arquitetura e o cinema permitem que o ser humano e o espaço se dissipem um no outro.


    Imagem do filme Nostalgia (Andrei Tarkovsky, 1983)


“The place and the event, space and mind, are not outside of each other. Mutually defining each other, they fuse unavoidably into a singular experience; the mind is in the world, and the world exists through the perceiving mind. Experiencing a space is a dialogue, a kind of exchange - I place myself in the space and the space settles in me.”, Juhani Pallasmaa (Pallasmaa 2012, 165)

Aquilo que existe dentro de cada ser humano cria um contínuo imparável e infinito com o mundo exterior. O mundo cria imagens, que cada indivíduo incorpora dentro de si e a partir dessas imagens, cria outras imagens. O ser humano e o lugar dissipam-se um no outro, coincidem, existem em simultâneo. 

No texto “The existential image: Lived space in Cinema and Architecture” (2012), Juhani Pallasmaa escreve que a arquitetura, tal como o cinema, articula espaços  vividos de modo experiencial e permite a formação de imagens que constroem e contribuem para a vida. A arquitetura e o cinema definem a essência do espaço existencial e do espaço que transcende, ambos projetam imagens, dispõem bocados de vida, dão lugar a situações de encontro e possibilitam uma maior compreensão acerca dos outros e do que existe.

Segundo Pallasmaa, a arquitetura estrutura o ser no mundo e une experiência à existência física. O cinema dá a mostrar lugares onde situações e interações acontecem. Ambos possibilitam a construção de espaços, que pertencem a um sítio e a um tempo, que têm uma escala e uma luz. Tanto a arquitetura como o cinema são capazes de dar a entender os espaços através de perceções de natureza sensorial. E têm a capacidade de contribuir para a construção de imagens na mente do espectador, projetando assim um mundo que traz à superfície pensamentos, sonhos, desejos e memórias comuns.

“The world is wholly inside me and I am wholly outside myself”, Maurice Merleau-Ponty, 1962 (Pallasmaa 2012, 158)

Pallasmaa explica, que na verdade o espaço da arquitetura, apesar de ser matéria e geometria, ultrapassa os limites e a ordem física. O ser humano ao habitar um espaço, aí projeta os seus propósitos existenciais. Os espaços físicos, que fazem parte da vida, reverberam as construções efémeras do espaço interior de cada indivíduo. O espaço vivido define-se através do constante diálogo que existe entre o exterior e o interior, entre o passado e o presente, a memória e o sonho, o medo e o desejo, o valor e o significado. O espaço real, físico, deste modo, funde-se e coincide com a vida do sujeito.

Para Pallasmaa, não existe separação entre a dimensão material e a dimensão mental. O autor afirma que o mundo não é objetivo, é antes um entrelaçar infinito de experiências, sensações, espaços, objetos, lembranças, desejos e imaginação - de passado, presente e futuro. Cada objeto construído é uma transferência de realidades, de dimensões e de experiências - o objeto construído é simplesmente um mediador, uma imagem. E o cinema tem essa capacidade de acentuar a ideia de que os espaços são imagens efémeras e ilusórias que escapam e vão para além da realidade do ser humano.

Pallasmaa revela que a arquitetura e o cinema determinam a realidade física mas conseguem de igual modo acrescentar à realidade uma camada ilusória e imaginária. Pois, efetivamente o objeto construído, o ser humano e o cosmos estão incessantemente ligados. A arquitetura e o cinema têm a capacidade de reestruturar, articular e reordenar o tempo. Têm de facto, a faculdade de acentuar o significado do espaço vivido, que não é neutro, nem desprovido de valor - o significado de um gesto pode alterar-se de acordo com a hora do dia, a estação do ano, os sons que se fazem ouvir, a luz que entra - o lugar e a vida fundem-se de modo contínuo. O cinema e igualmente a arquitetura conseguem tornar a vida, o espaço e o tempo uma entidade inseparável.

“Alltogether, art articulates the boundary surface between the human mind and the world.”, Juhani Pallasmaa (Pallasmaa 2012, 162)

A arquitetura e o cinema têm a capacidade de concretizar a membrana, a superfície que separa a mente humana do mundo. Pallasmaa declara que, na verdade, toda a arte tenta criar contextos e definir lugares. Mas um espaço é um fenómeno que excede todas as capacidades de descrição, representação ou gravação - é sempre experiencialmente infinito. O cinema e a arquitetura têm a capacidade de enfatizar esta possibilidade de expansão e de ativar a imaginação de cada indivíduo através da projeção de um espaço - porque todas as imagens poéticas incidem uma força aberta e emancipatória que pode ajudar a reforçar o sentido de cada ser humano. 

Por detrás de cada imagem criada existem outras ainda por criar. A arquitetura e o cinema conseguem promover a construção de imagens tão reais e ressonantes que permitem que o indivíduo interromper o curso habitual da vida e tenha como referência identidades e situações alternativas.

A arquitetura confere ao cinema definição do seu contexto e, por sua vez, os significados propagados pelo cinema são projetados na arquitetura. A arquitetura e o cinema são assim um veículo, um eco, um reflexo, um amplificador de ideias, pensamentos, emoções, sentimentos, memórias, sonhos e ilusões do sujeito. No cinema e na arquitetura os espaços deixam-se vulnerabilizar, transformar e metamorfosear pelo ser que os habita.

“A good space can’t be neutral, for an impersonal sterility gives no food for the imagination.”, Peter Brooks (Pallasmaa 2012, 168)

Pallasmaa acredita que a verdadeira arquitetura (e também o verdadeiro cinema) está relacionada com a ativação de sentimentos humanos contraditórios e por vezes extremos como a melancolia e a alegria, o maravilhoso e a tristeza, a contemplação e a nostalgia. O espaço exterior flui e inunda todos os interstícios interiores de cada ser - o espaço não é móvel (mas é capaz de transportar), não é um objeto é antes uma condição de ser, um fragmento do mundo capaz de absorver e de refletir, de dar sentido, propósito e atenção e de levar a acreditar e a ver até aquilo que não é visível.

Sendo assim, o cinema e a arquitetura projetam espaços e possibilitam uma troca de sentimentos e significados entre o espaço construído de matéria e o espaço mental do sujeito. O ser humano ao experimentar um espaço entra em conversação e permite que o espaço se instale dentro de si e manifeste emoções e significados encobertos. O cinema e a arquitetura fazem com que o indivíduo pense, veja e experimente para além daquilo a que está exposto e possa, assim, criar outras imagens que despertem para a vida. O valor do cinema e da arquitectura está, deste modo, nas imagens e nas emoções evocadas em cada ser. O cinema e a arquitetura reforçam a experiência do eu colocado no contínuo do cosmos.


Ana Ruepp