A FORÇA DO ATO CRIADOR
Com o cinema constroem-se ideias.
Imagem do filme Les Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle (1987)
O cinema pode ajudar a compreender e a desenvolver ideias que não são expressas na linguagem escrita ou falada. Aimée Israel-Pelletier escreve no texto “Rohmer’s realism: Women on the border of what is and what might be” (In The Films of Eric Rohmer. French New Wave to old Master, editado por Leah Anderst, 147-158. New York: Palgrave Macmillan.) que as personagens nos filmes de Eric Rohmer estão sempre na fronteira entre o que é e o que poderia ser e exploram uma zona de oportunidade de modo a testar limites e liberdades dos seus pensamentos.
Os filmes de Rohmer mostram sentimentos, sensações, intenções, reflexões, crenças, natureza, ambiente e espaço onde as personagens se movem e experienciam. São uma peça só – o cinema tem a capacidade de fazer isso, de juntar tudo. O cinema de Rohmer afirma e subsiste de ambiguidades, de conflitos e de inúmeras possibilidades. Tal como na realidade, as histórias vão-se fazendo e as ideias vão-se encontrando. Rohmer deseja que os espectadores reconheçam uma experiência difícil de descrever – e por isso questiona a capacidade da linguagem escrita em contribuir para o verdadeiro esclarecimento de um conhecimento adquirido por uma prática vivida.
Rohmer diz que a diferença entre a literatura e o cinema é que a literatura é forte ao apresentar e discutir ideias, o cinema é uma outra forma de dizer e de explicar. É possível construírem-se pensamentos e intenções, ao longo de um filme, através dos espaços e das personagens. O cinema, tal como o espelho, reflete vidas – complexas, incompletas, indecisas, cheias de eventos e de considerações difíceis de descrever por palavras.
Aimée Israel-Pelletier afirma: “I believe that knowledge Rohmer is referring to and that his films try to show is that sentiments, sensations, thoughts, beliefs, nature, environment, and the spaces in which characters experience them are all wrapped up together. They are as of one piece. Characters are most tuned into this form of knowledge at moments when they are no longer compelled to act, to make decisions and choose a side, but are allowed simply to be, to experience life directly with its contradictions and incoherences. How they handle these moments is the subject of many of the films.” (Israel-Pelletier 2014, 148)
As personagens nos filmes de Rohmer são simplesmente, vivem e a câmara filma a experiência direta das suas vidas. Rohmer diz: “I myself, as a filmmaker, lack ideas, and that is probably why I made films. I'm not at author. I have no ideas.”
Ideias ou temas em Rohmer vêm muitas vezes por acaso ou demoram muitas vezes a tomarem forma e a desenvolverem-se. Para Israel-Pelletier, os filmes de Rohmer são isso mesmo – são acerca do tempo que demora a ampliar e a tornar clara uma certa ideia. E alguns dos seus filmes são variações de uma mesma ideia. As personagens vão manter a posição que ocupam ou vão explorar outra que contemplam ou que outros pressionam. Os espectadores assistem assim às dúvidas, às hesitações das personagens e os finais nunca são conclusivos nem apresentam soluções claras.
Rohmer refere-se muitas vezes a sentimentos ou pensamentos que não são traduzíveis em linguagem falada. Nos momentos em que as situações quase se transformam, as personagens, muitas vezes, não conseguem nomeá-las, classificá-las e formulá-las. Rohmer recorre a estes momentos para mostrar a realidade tal como ela é naturalmente, não tentando necessariamente esclarecer essa realidade ou explicá-la. Rohmer dá antes a ver - a ver simplesmente dentro do ecrã. Uma determinada realidade tem várias camadas, contextos, narrativas e nem todas contribuem para uma única verdade – há várias verdades dentro de uma realidade.
Os filmes de Rohmer transparecem essa complexidade inexplicável e irredutível. São um espelho do mundo, das personagens, da sociedade e da natureza – e a arquitectura e a cidade fazem parte desse mundo, constroem esse mundo. A história e a narrativa ajudam a definir um lugar e tentam apresentá-lo como é. Os filmes de Rohmer não vêm explicar, nem esclarecer, captam simplesmente.
Israel-Pelletier cita Rohmer em Le Gout de la Beauté : “And when I film, I try to extract as much from life as possible, in order to fill out the line of my argument. I no longer think about this argument, which is just a framework, but about the material with which I flesh it out, such as the landscapes where I situate my story and the actors, I choose to act in it. The choice of these natural elements and the way I can hold them in my net without altering their momentum, absorbs most of my attention.” (Israel-Pelletier 2014, 150)
Realismo num filme, é isso mesmo, relaciona-se com a representação da experiência total e não parcial. Em Rohmer, Israel-Pelletier insiste, o mundo e a câmara são um só – o filme é uma espécie de trompe l’oeil (uma janela para o mundo).
No filme Les Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle (1987), Reinette, ao querer partilhar a experiência da hora azul, persiste em querer que Mirabelle experiencie esse momento porque é difícil explicar por palavras. Personagens como Félicie, no Conte d’Hiver (1992), têm a confiança que a decisão certa virá por meio de uma revelação ou graça e não através da razão e de argumentos. Em alguns momentos, no Le Rayon Vert (1986), o entendimento não vem por palavras e na verdade, por vezes, as palavras até parecem agravar a situação de impasse. O entendimento ou crença chega através dos sentidos.
Nos filmes de Rohmer os momentos mais completos ou de resolução para as personagens dependem do acaso, da sincronicidade, de encontros não planeados e do inexplicável. A hora azul, o raio verde, o vento nas árvores são eventos raros, mágicos e misteriosos e devem continuar a sê-lo porque são momentos de revelação únicos para aqueles que os testemunham. Cada indivíduo terá a sua interpretação e leitura e nunca serão momentos universais - o seu impacto em cada contexto e narrativa é individual e singular. E Rohmer, assinala a importância dessa inexplicabilidade, porque ao analisarem-se estes momentos únicos corre-se o risco de se banalizarem, de se tornarem tão triviais que não causam nenhuma sensação. No fundo é a captação do espírito e o espírito é subtil, individual e misterioso e se ficar reduzida à razão não haverá espaço para o surpreendente.
Sendo assim, na opinião de Israel-Pelletier, filmar para Rohmer significa seguir as personagens a moverem-se no mundo e permitir a ideia de que é possível a câmara inserir-se no tecido da realidade e deixar que o filme fale por si próprio sem grandes explicações ou teorias.
Ana Ruepp