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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

A cidade como espaço de criação


    Imagem do filme Les Nuits de La Pleine Lune (Eric Rohmer, 1984)


Annabelle Cone no texto “Misplaced Desire: The Female Urban Experience in Colette and Rohmer” (1996. Literature/Film Quarterly Vol. 24, No. 4: 423-431. Salisbury University.) analisa a relação dos efeitos do ambiente urbano moderno (masculino) nos indivíduos (feminino).  

Annabelle Cone escreve que a cidade da literatura francesa do séc. XIX aparece como sendo um espaço de distopia moderna - o campo aparece íntegro e total e a cidade aparece dominada por forças nefastas e corruptas. Sentimentos de alienação, pobreza, deriva, solidão, desenraizamento e anonimato estão corporizadas na figura do flanêur (que é a encarnação do homem moderno). Cone afirma que este sentimento geral de desenraização e de perda numa cidade maioritariamente dominada pelo mercado e pelo consumo é do foro masculino. E esclarece que a mulher, na cidade moderna, está limitada ao seu papel de cuidadora, simplesmente circunscrita à casa e ao espaço urbano comercial. A mulher moderna é também caracterizada através de fobias e neuroses associadas à histeria (Emma Bovary) e ao androginismo (George Sand). Cone deseja, pois, com este texto estudar, na literatura francesa do séc. XIX casos de mulheres que derivam e que se perdem e que não estejam simplesmente associadas a neuroses ou psicoses. E assim poder refletir sobre o caso de Louise no filme Les Nuits de la Pleine Lune (1984) de Eric Rohmer. 

Cone questiona: “Can a modern woman be posited outside biological parameters of ‘wondering womb’?” E por isso, a autora pretende com o seu artigo explorar as tentativas das mulheres, não somente, experienciarem pequenos e curtos momentos de libertação dos seus confinados e restritos papéis domésticos, mas sobretudo os seus esforços em talhar na cidade moderna uma identidade não pré-atribuída, e por isso, fora dos parâmetros da ideologia burguesa.

Cone explica que a singularidade de Paris do séc. XIX, como sendo um artefacto, um objeto e uma máquina cultural moderna atraia não só as mulheres, mas pessoas de várias camadas sociais. Paris de Walter Benjamin é o começo da sociedade espetáculo, a cidade dos mil olhos, com as suas infinitas arcadas comerciais com os seus gigantes centros comerciais e as suas constantes exibições nas ruas. Paris, do séc. XIX, materializa o capitalismo burguês, onde o quotidiano já não é ditado pela indústria (no sentido da produção em pequena escala) mas pelo consumo. As mulheres participam em massa nesta nova vaga de consumismo, inundando os centros comerciais. Mas o acesso às mulheres a esta nova cultura da modernidade era limitado.

Para a mulher, ir à cidade e misturar-se com a multidão, composta por várias camadas da sociedade, era não só assustador, por ser estranho, mas também por ser moralmente perigoso. Já para o homem a mistura com a multidão era desejável de modo a proteger a sua liberdade, sendo-lhe até concedida uma invisibilidade poderosa e fictícia. Cone explica que as mulheres eram objetos do olhar e aos poucos conseguiram adquirir uma certa liberdade não tanto nos espaços da modernidade – ruas, cafés e salões de música - mas através da mobilidade proporcionada pelas linhas de transporte público que ligavam a cidade aos novos subúrbios. A cidade de Haussmann abriu-se ao exterior com boulevards e com o metropolitano e o comboio. Os novos meios de transporte permitiram a abertura da cidade às mulheres que conseguiram conquistar assim novos lugares (antes não acessíveis e proibidos) e que se estendiam no tempo e no espaço. 

A atração sentida das escritoras Sand, Colette e Duras por espaços proibidos e interditos resulta num sentimento de emancipação. Cone utiliza como exemplo, as mulheres protagonistas dos romances de Colette que demonstram esse desejo, essa ânsia de passear nas ruas de Paris, sozinhas, anónimas, sem serem objeto de desejo e sem serem objetos do olhar. Segundo Cone, nestes romances as mulheres têm o potencial e a capacidade de se emanciparem através de uma experiência original que advém de um território sem nome, sem ordem e sem controlo e que advém do território da intuição. A categorização, a nomeação e o regresso ao que é familiar e ordeiro pertence ao domínio das instituições e das estruturas masculinas que enfraquecem e controlam as mulheres. Para Cone, a mulher ao regressar ao familiar e ao confortável está a renunciar à curiosidade e ao desejo de uma nova experiência ainda sem nome, num espaço não colonizado cheio de pessoas de fora e periféricas. Cone menciona que as digressões e as derivas das mulheres no séc. XIX ainda são codificadas, controladas e manipuladas pelo comportamento patriarcal - a liberdade supostamente existente nos espaços públicos não direciona a mulher para uma subjetividade alternativa, fora das novas normas aceites de comportamento. 

Na opinião de Cone, no filme de Eric Rohmer, Les Nuits de la Pleine Lune (1984), Louise acaba por se conformar a uma certa domesticidade após ter experimentado ter duas vidas e duas casas. De modo a poder manter esta vida dupla, Louise depende sempre da boleia de alguém (entre o centro e o subúrbio), depende do comboio e depende da companhia de amigos. Louise deseja imensamente liberdade e independência, mas sempre na companhia de alguém. O apartamento que Louise constrói para si em Paris, é um espaço virado para si próprio desligado do mundo exterior. A independência tão desejada por Louise no apartamento de Paris, rapidamente se transforma num sentimento de abandono e de solidão. 

Annabelle Cone escreve que essa necessidade de constante companhia e dependência se traduz no consentimento de dar acesso a estranhos ao seu espaço mais íntimo. E Cone aponta para o seu fracasso em desenvolver uma identidade urbana separada da sua identidade suburbana mais doméstica, mais submissa e confinante. A cidade (na dicotomia centro e periferia, pertença e exílio) para Louise seria ideal se o lazer se associasse ao que é seguro e conhecido. 

Para Cone, a dependência de Louise em relação aos outros confirma o seu vazio interior. Louise usa o centro da cidade somente como um espaço de sedução e não de criação. Octave, por outro lado, sabe bem como usar a cidade como sendo centro de criação. Octave não trocaria o centro pela periferia (nem percebe muito bem quem o faz) por ser, na sua opinião, deprimente. Octave afirma “Les Villes Nouvelles, je n’y crois pas” para mostrar como é falsa a utopia dos novos espaços periféricos. Octave adora a cidade consolidada. Sem ela, não conseguiria escrever. Por isso, para Octave, a cidade é espaço de criação, de imaginação, de inúmeras e infinitas imagens imparáveis. 

Já Louise usa a cidade somente para estabelecer relacionamentos. O tão desenhado e planeado apartamento de Louise não é usado para o seu trabalho, nem para desenvolver qualidades que vão para além de relacionamentos amorosos – o apartamento não serve de laboratório de experiências a ser recolhidas para o seu trabalho criativo. Cone argumenta que os dois espaços, o centro e o subúrbio, são ambos artificiais, estéreis e alienados e o filme de Rohmer é uma tentativa feminina (ainda que falhada) de romper com a norma doméstica estabelecida. 

O centro da cidade é um lugar menos ameaçador, mas ainda é um lugar que consegue manter a mulher dentro de um certo controlo masculino. Por isso, para que as mulheres conquistem um espaço próprio na cidade e para que se consigam conciliar-se com a esfera pública, as mulheres não devem atuar só passivamente como consumidoras, devem sobretudo assumir um papel ativo como produtoras de criação. 

Portanto, o que Annabelle Cone traz com a sua análise é a relação entre as mulheres e a cidade antevendo a possibilidade da cidade ser um espaço de criação que vá para além do domínio do desejo – fora do domínio masculino e fora do consumo material – e no qual as mulheres poderão conquistar um lugar mais à sua imagem e semelhança.


Ana Ruepp

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