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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

 

Agnes Martin e a alma visível.

 

‘There are two endless directions. In and out’, ‘The thinking Reed’, Agnes Martin

 

O trabalho meticuloso que Agnes Martin (1912-2004) desenvolveu a partir de 1960 revela a imaterialidade que habita o interior do sujeito que cria. Os seus textos revelam a alma como sendo o único elemento necessário para a criação. Agnes Martin acreditava que através dos meios mais simples poderia atingir uma possibilidade de revelação. Martin utilizava várias palavras para descrever a experiência ilimitada que a arte poderia indicar: ‘infinity’, ‘joy’, ‘bliss’, ‘the sublime’. E identificava o seu trabalho com a tradição metafisica de Rothko e Newman – nascida em 1912 – estes eram os artistas da sua geração.

 

‘When the mind is untroubled, is when inspiration is most possible

Life has passed me by and I am content

I would like my work to represent the Ideal in the Mind. ’, ‘The Untrouble Mind’, Agnes Martin, 1971

 

As pinturas de Agnes Martin, a partir de início dos anos sessenta, relacionam-se com o estado puro e limpo da mente do criador. Para criar Martin acreditava ser necessário viver experiências profundas e intensas. Depois de viver em Nova Iorque Agnes Martin mudou-se para o Novo México onde passou a viver quase como ermita - e ai dava sobretudo importância ao lado espiritual e reflexivo da arte. Acreditava que a alma se revelava através da matéria sendo independente dela e que a alma ao libertar-se do corpo do sujeito poderia ser devolvida à sua origem divina. Assim Agnes Martin conseguia criar uma alma visível nas suas telas através do uso de rectângulos, linhas horizontais, o branco e o preto.
 

Ora o infinito no trabalho de Agnes Martin é entendido como imaterial, ilimitado, revelação, insubstancial, repetição e diferença. É a imensa expansão do sujeito transcendental. Para Martin o necessário era reconhecer a inspiração e representá-la. O seu sentido visionário de infinito já está presente no final dos anos cinquenta, a partir de experimentações que lidam com o efémero e com o quotidiano, através da utilização do ready-made. Só no Novo México, abandona esta realidade mais material. E a partir de então os seus trabalhos passam a explorar a lógica da grelha e sugerem o sentido do todo infinito mas também do fragmento limitado. Os seus desenhos e as suas pinturas equilibram-se assim entre a regularidade e a irregularidade, a precisão e a imprecisão, o ritmo e o intervalo. Apesar de cobrir a superfície na totalidade com linhas que se repetem infinitamente e através de intervalos contínuos, as grelhas apresentam sempre um limite e são executadas manualmente, onde as diferenças e as irregularidades aparecem. As suas telas podem ser vistas como sendo o espaço do seu espírito. Alguns dos trabalhos apresentam títulos como Leaf ou Wood – Agnes Martin insistia na existência do infinito num grão de areia. Martin escreveu 'Look between the rain, the drops are insular.'(The Untrouble Mind’, Agnes Martin, 1971) - na realidade exterior Agnes procura entender o mistério infinito da vida. Os seus desenhos e telas revelam o entendimento subjectivo desse mistério. Esse entendimento e revelação intensifica a profundidade do sujeito sobretudo através da execução de cada trabalho - a demora e a repetição associam-se a um intenso monólogo interior.
 

'Experiences recalled are generally more satisfying and enlightening than the original experience.', 'What is Real?, Agnes Martin, 1976
 

E a repetição no trabalho de Agnes Martin é usada como um processo de sublimação e igualmente como uma maneira de mostrar o interminável trabalho de um trabalho. Os desenhos e as pinturas são espaços de contemplação e de imaterialidade mas também de trabalho meticuloso e monótono. E dependem sempre da subjectividade e profundidade do sujeito de modo a serem integrados e interpretados.

 

Ana Ruepp

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