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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Raoul De Keyser e a pintura gestual do lugar concreto.

 

‘Monochromes are not really monochromes they always relate to something.’, Raoul De Keyser, 2012

'Pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.', Clarice Lispector In 'A Hora da Estrela' (1977)

Raoul De Keyser (1930-2012) apresenta nas suas pinturas a visão de um mundo concreto. Segundo uma perspectiva muito individual, evidencia no seu trabalho o lugar específico que o homem ocupa, num determinado momento e num determinado local. Estabelece uma ligação ao passado (através de referências directas à história de arte abstracta e através de referências directas a trabalhos já por si feitos), ao futuro (no sentido de fazer evoluir uma linguagem que cria através da sua circunstância específica) e passando pelo presente (determinante para situar as suas pinturas no espaço e no tempo concreto).
O que rodeia De Keyser estende-se para o que pinta, criando assim uma continuidade espacial. Existe também a ideia de uma continuidade histórica, porque algumas das suas pinturas trazem à memória composições da tradição abstracta - através do uso da cor pura e através da linha e do espaço que têm uma ligação emocional. De Keyser anseia por materializar uma interpenetração entre o interior (visão própria e individual) e o exterior (a árvore, o canto da sala, a maçaneta, o campo de futebol da sua rua, o corredor escuro, as portas e as escadas). Permanece sempre a preocupação de enfatizar o lugar que o sujeito ocupa. Localizar o sujeito que concebe é muito importante – situá-lo no presente, integrando o passado e olhando para o futuro. Durante anos, De Keyser pintou exaustivamente as linhas brancas do campo de futebol que via da sua janela – tentando criar um diálogo entre o vizinho que pintava na relva e ele próprio que transportava para a tela o mesmo gesto.

A questão da realidade concreta é uma questão que se põe com grande afinco. Tornar visível o que é invisível a todos de maneira não óbvia, ainda que eternamente circunstancial. A escala das suas pinturas é humana e íntima – os quadros de De Keyser são aproximações (do pintor à sua circunstância, do fruidor ao universo particular do pintor).

‘Quero acrescentar, que vivemos exclusivamente no presente.’, Clarice Lispector (1977)


Para conseguir transgredir os seus próprios limites, De Keyser pinta sobre uma realidade, já que essa o ultrapassa. De modo a tornar nítido o que está quase apagado à vista de todos, só De Keyser é testemunha da sua realidade – só ele vê o que está para dentro e para fora da sua janela. Procura assim por uma verdade – porque a sua pintura é corpórea e revela a verdade do seu tempo. De Keyser desenvolve uma obra autónoma, para a qual não existe um programa prévio. As suas composições evocam a efemeridade impressiva do mundo – do seu mundo, à volta de sua casa. O presente real que o rodeia penetra nos seus quadros.

‘Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.’, Clarice Lispector, 1977

A simplicidade do trabalho de De Keyser adquire-se através de muita experimentação (visível nas telas riscadas e raspadas). A acção que se cristaliza nas suas pinturas talvez resulte de uma materialização do sujeito no seu objecto – tão imensa é a necessidade de possuir a realidade que o rodeia e na qual se integra diariamente. E a tela é o lugar dessa fusão entre si próprio e a realidade concreta que lhe está próxima, todos os dias, ali… A verdade da sua pintura igualmente implica um contacto com o interior e o inexplicável – o gesto, a marca e a intensidade do traço do pincel são muito importantes para a afirmação da sua pintura. E por isso, dá-se uma união entre o indivíduo e o objecto e a sua percepção e a realidade. Pintar para ser mais do que se é, numa tentativa de possuir, fundir, completar e descobrir. Pintar para suportar, possuir e eternizar uma rotina concreta.

'Paintings are not very planed before. I let the circumstances speak.’, Raoul De Keyser, 2012

O carácter aleatório das suas pinturas é muito concreto. No resultado final das suas obras, o que é importante é a impressão do transitório, do provisório, do circunstancial e a impressão de um processo, o processo de pintar. Nas pinturas de De Keyser a correcção e o erro são muitas vezes visíveis como meio para questionar a própria pintura. Deste modo, De Keyser assegura-se do fundamento da sua pintura através do seu suporte físico – visível também por exemplo ao pintar as lombadas dobradas da tela, ao engradar de novo uma tela já pintada numa grade um pouco maior de modo a que a madeira da grade surja ou criando pinturas em fatias tridimensionais.

Sendo assim, a pintura de De Keyser incorpora uma reflexão profunda e o gesto intuitivo. E é um exercício espontâneo de acesso ao espírito do lugar do sujeito. O mundo pintado de De Keyser aparece fluído e evidencia o essencial da condição do sujeito. De Keyser consegue então pertencer ao seu tempo e ao seu lugar e apesar de diverso formalmente, apresenta uma obra de grande estabilidade e que garante uma continuidade entre o passado, o presente e o futuro.

 

Ana Ruepp

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