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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Phoebe Unwin, do impressivo singular ao universal intemporal.
 

‘Estávamos sempre próximos da nossa sombra

e assim nos juntávamos ao poente,

delineados em linhas suaves oblíquas.’

(Fiama Hasse Pais Brandão, ‘Cenas Vivas’, 2000)
 

Phoebe Unwin (Cambridge, 1979) explora diversas camadas de tempo e espaço através do simples acto de pintar. A ideia e a comunicação clara dessa ideia são levadas ao limite, na pintura que executa. É muito importante para o seu trabalho, comunicar através da matéria, da justaposição de camadas e da intensidade da pincelada. Phoebe Unwin trabalha um tempo particular (o tempo das suas experiências e memórias) de maneira a se tornar intemporal e universal – compreensível e perceptível a todos. São acções, sensações e situações experienciadas pelo próprio sujeito e que estendidas/projectadas para a tela, com uma intenção material muito específica, são transformadas em acções, sensações e situações que todos experienciamos de alguma maneira.

‘O momento

é um monumento.’

(Adília Lopes, ‘Poemas Novos’, 2004)
 

O particular e o único tornam-se assim universais. Unwin declara que deseja descrever algo acerca de uma sensação ou situação específica e que poderá ser aplicada a muitos lugares – estar na praia e tirar os óculos escuros, ir ao parque e fazer um picnic, reconhecer na mesa posta uma refeição, uma sala de cinema às escuras, a luz que entra pelas persianas, as cortinas que abrem e que fecham. A ideia concretizada torna-se intemporal. Não se trata só de um momento ou espaço particular, mas da possibilidade desse momento ser comunicado e passar a pertencer a quem vê.

A pintura de Unwin é igualmente física e material – as superfícies das suas pinturas têm muitas camadas intencionais e experimentais. A sua pintura abre-se a verdades simples, que se concretizam através de uma densidade, que advém de uma aturada exploração física e material (da cor, da tinta, do pincel, do spray e do papel.) As camadas vão revelando, a pouco e pouco, uma verdade maior. A superfície permite ao observador avistar-se e reconhecer-se.

No seu processo de trabalho, confirmam-se dois momentos distintos: um mais experimental e imediato que se materializa num diário gráfico e outro mais racional e demorado que se actualiza no acto de pintar. O diário informa e trás as ideias mais relevantes e já filtradas para a pintura. O registo do diário é intencionalmente rápido, livre, depurado e essencial. Unwin revela que, o aspecto mais importante deste processo, é o de que este meio lhe permite ser muito delicada com as suas ideias. Estas páginas são quase um conjunto de notas visuais e muitas páginas apresentam o âmago e a ossatura de algumas das suas pinturas. E Unwin revela ainda que o começo deste processo pode ser também muito físico – através da eleição de uma cor ou superfície (papéis padronizados) ou ainda de diferentes tipos de tinta (acrílico, óleo, carvão, ou uma tinta metalizada). E por isso o seu diário é o meio que mais aproxima a matéria às ideias.

Todos os trabalhos de Unwin revelam sempre um elemento de figuração, que funciona como uma restrição conceptual – o que provoca sempre uma certa tensão, porque deste modo existe uma relação directa entre o elemento que está ali presente e que é real com os materiais, com as cores e com a escala da pintura. E é esta tensão/relação que direcciona o seu trabalho e que determina até onde a pintura pode ir.

As suas pinturas evocam todos os sentidos – as marcas são institivas mas intencionais. É matéria sensorial experimentada. Unwin afirma que trabalha o tempo em camadas e que tenta revelar e explicar todos os processos que utiliza na superfície da tela. O opaco, o transparente, o brilhante, o mate, a pincelada rápida, a pincelada longa convivem todos no mesmo plano – não podendo ser descrição aturada, nem a própria realidade, tudo existe para ser sentido. Unwin prefere a lentidão, a delicadeza, o assombro dos pequenos gestos e elege acontecimentos quotidianos reconhecíveis. Mas há sempre a procura pelo novo e por isso essa busca transporta a sua pintura para a frente do seu tempo. Os temas das suas pinturas aceitam a grandeza da menoridade, do gesto mais simples e do movimento mais arcaico – como se verifica na pintura ‘Girl’ (2005) que representa uma rapariga de perfil, cujos ombros estão em tensão e o rabo-de-cavalo é completamente sólido.

Unwin aborda um tempo que passou e que foi experimentado mas esse tempo continuará a passar ao ser reconhecido pelo fruidor. É uma pintura aliada à memória mas que preserva e reinventa o essencial – e talvez por isso Unwin se recusa a recorrer ao uso da fotografia – para a fazer perdurar no fruidor que se revê nessa memória, também no fundo sua. Existem assim avanços universais vindos de recuos (memórias, experiências e momentos) muito singulares.

É uma pintura que abraça a questão do novo através de uma suave complexidade e densidade, no sentido em que convida a um olhar lento para que nos possamos sentir encadeados na praia a olhar para o rapaz que inclinado deixa cair os óculos escuros (‘Falling Glasses’, 2007) ou para que nos possamos sentir fazer parte de um piquenique e assim rodearmo-nos pela relva e pelas árvores que se desenham vazias no fundo cinzento (‘Grey Picnic’, 2008).

São, enfim, pinturas que avivam memórias acerca de gestos e situações simples, vindas da vida e de algum modo experienciadas. Tentam ser fiéis a esse momento específico, revelando o que for necessário para o poder descrever. A intenção é muito definida e levada ao limite – porque o que é importante é a comunicação clara de uma ideia concreta. O sujeito que cria, ao eleger e experimentar, gera várias camadas de matéria. E por isso, Unwin dá a ver o que vê de modo a ser entendido por todos e assim pertencer a todos.

 

Ana Ruepp