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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Bob Law e os Desenhos de Campo Metafísicos.
 

‘In fact one only gets back from the work what one projects into it.’, Bob Law, 1975

 

O desenho é a génese do trabalho de Bob Law (1934-2004). Para Law o desenho tem um estatuto mítico e é o modo primeiro de qualquer comunicação.

 

‘What does exist is an imprint and that is the beginning of art, in there being nothing which is something.’, Bob Law, 1967.

 

Os primeiros desenhos que se conhecem de Bob Law, do final dos anos cinquenta, são acerca da paisagem que rodeiava a sua casa, em St Ives, Cornwall. Através destes desenhos, Law desejava encontrar-se a si próprio. Gravava aquilo que via através de uma linguagem gráfica. Law priviligeava uma relação física (e não visual ou óptica) com o mundo, desejava uma fusão total com a paisagem. Pretendia assim criar uma transcendência com os seus desenhos – e mostrar como o sujeito se pode transformar e projectar através da sua obra. Deste modo, o sujeito pode manifestar-se através de uma oscilação entre a presença e a ausência, entre o visível e o invisível.

No ensaio ‘Bob Law: Drawing Degree Zero’, Anna Lovatt afirma que Law mudou a sua prática de desenho para um modo de fazer muito mais primário e revelador, um processo de auto-descoberta. Estes desenhos eram um resultado do que o artista via enquanto deitado no campo contíguo à sua casa. Trabalhava intensamente – produzia cerca de 50 a 60 desenhos por dia, destruía o excesso e ficava só com muito poucos. A rapidez e a intensidade deste processo é bastante evidente – o resultado manifesta-se através de linhas bem marcadas de grafite, desenhadas à volta do perímetro do papel e que marcam o limite do campo visual. A colocação dos elementos no desenho sugere um complexo e intelectual processo de codificação. Apresenta-se sempre uma vista circular da natureza. São estruturas que radiam do centro para a periferia (quase mandalas) e estão sempre datadas. Estes desenhos contêm ainda ideogramas para os vários elementos da paisagem – as árvores, a relva, o sol, a linha do horizonte, as estrelas e as nuvens aparecem como espirais, asteriscos, triângulos, linhas em zigzag. A moldura e a marcação do limite são de enorme importância em trabalhos posteriores.

 

‘The early Field drawings were about the position of myself on the face of the earth and the environmental conditions around me: the position of the sun, the moon and the stars, the direction of the wind, the way in which the trees grew, no awareness of nature’s elements, no awareness of nature itself and my position in nature on earth in a particular position in time.’, Bob Law, 1974

 

Law acentua a importância do céu em relação à terra (esta regista somente uma visão abstracta e periférica). Em vez de representar uma paisagem de um modo cru e imediato, Bob Law tenta sobretudo traduzir uma experiência subjectiva de um tempo e de um espaço específico através de uma linguagem simbólica. Lovatt declara a importância e a urgência de Law em se rever e se encontrar nessa paisagem – talvez influenciado pela leitura do livro ‘The Story of my heart’ de Richard Jefferies (1848-1887), que descreve a procura pelo transcendente na paisagem, através de uma série de experiências espirituais. No livro de Jefferies, o sol simboliza a alma e os pensamentos do escritor são direccionados para o exterior e para cima numa urgência por uma revelação qualquer, muito semelhante à libertação de energia que se solta a partir do centro de alguns dos desenhos de Bob Law. E nos escritos de Jeffferies, tal como nos desenhos de Law, dá-se a importância do espaço particular e concreto que, por sua vez, facilita um profundo entendimento da vastidão do tempo e intensifica o sentido do momento presente.

 

‘Metaphysical Field Drawings could be a kind of environmental chart, a thesis of ideas, energies, transmutations.’, Bob Law, 1962

 

Segundo Anna Lovatt, estes desenhos ambicionam transcrever o universal dentro do particular, mapeando a posição do artista na terra e numa determinada posição no tempo. Law desejava descobrir-se na paisagem e fazer a gravação desse momento particular e único através do desenho. E assim através de um trabalho intenso e rápido Bob Law chega perto da verdade, não a partir de uma ilusão mas através de algo palpável e físico.

 

Ana Ruepp

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