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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Uma leitura acerca da realidade urbana de Cergy-Pontoise em ‘L’ami de mon amie’(1987) de Eric Rohmer.

 

’C’est un peu comme un village ici. Ça m’avait dejá arrivé de tomber sept fois sur la même personne alors que j’avais lui dit bonjour une première fois.’

Fabien em ‘L’ami de mon amie’ de Eric Rohmer

 

Eric Rohmer (1920-2012) apresenta-nos no filme ‘L’ami de mon amie’, uma cidade totalmente independente, com vida e imagem próprias, concebida à luz dos princípios de zonificação urbana determinados por Le Corbusier. ‘L’ami de non amie’ traz-nos uma Cergy-Pontoise para trabalhar, habitar, circular e cultivar o corpo e o espírito.

 

‘Alexandre – Vous plaisez Cergy?

Blanche – Oui, beaucoup.

Alexandre – Evidemment avec les quinze chaîne de television, les lakes, le tennis et bientôt les deux theatres, on a du mal à s’ennuyé. Je plaisante, mais je ne me trouve pas trop mal ici.

Blanche – Mais, je ne me sens faite ni pour la grande ville ni pour la province.’

 

A visão, dada por Eric Rohmer, acerca de Cergy-Pontoise é parcial, especulativa e irreal. Há uma tentativa de recriar uma cidade que se deseja e que, na verdade, não existe.

Projectada entre 1981-85, Cergy-Pontoise constitui-se uma das Villes Nouvelles planeadas pelo governo francês nos arredores rurais de Paris, ainda sob domínio ideológico surgido no período pós-guerra – para descongestionar centros urbanos, controlar comunidades na periferia e oferecer habitação social.

 

‘Soleil. Espace. Verdure.

Les immeubles sont posés dans la ville derriére la dentelle d’arbres.

Un cycle s’accomplit quotidiennement, incriminant logis, travail et recuperation.’, Le Corbusier

 

Rohmer define Cergy-Pontoise, como sendo um grande lugar de encontro, onde as ruas e as praças se cruzam. Cergy-Pontoise é apresentada como uma Ville Nouvelle utópica, que pretende ser modelo de uma comunidade burguesa nos arredores de Paris. Cergy existe em perpétua atmosfera solarenga e saudável (a história do filme desenrola-se no verão). A cidade oferece vida artificial, realidade criada e idílica, centro comercial paradisíaco, com lugares reais de encontro.

Eric Rohmer já tinha filmado ‘Les Nuits de la Pleine Lune’ (1984) em Marne-la-Vallée. O seu fascínio pelas Villes Nouvelles ficou marcado pelas emissões que realizou, para a televisão, acerca destas aglomerações, nos anos 70.

Cergy-Pontoise oferece três possibilidades a Rohmer:

  1. Contexto urbano de linhas espaciais geométricas e próximo da natureza.
  2. Facilidade em fundir personagens com a cidade, enriquecendo a ficção. A cidade oferece sítios para trabalhar, para habitar, para lazer e para férias.
  3. Desenho espacial que serve uma estrutura narrativa franca e transparente. A nova cidade traz novos costumes, uma nova moral – a nova arquitectura determina os trajectos e assim como a evolução sentimental das personagens.

Ora, pelas funções que representa, Cergy determina-se totalmente singular, com unidade urbana e identidade social, capaz de viver por si própria e que recusa a imensidão de Paris. O filme retrata um único estrato social – uma população jovem urbana que reside e trabalha na cidade.

Cergy apresenta, em relação a Paris, uma dependência histórica (o passado de Cergy tem de ser simulado por formas construídas que fazem lembrar palácios), dependência funcional. Existem certas actividades que só Paris oferece. Paris trazida por Rohmer só aparece como um cenário de fuga para Blanche e não como espaço de permanência.

E seguimos Blanche e os lugares de Cergy que mais se identificam com a sua personagem – trabalho na Câmara Municipal, almoço na cantina, piscina, residência de aparência aristocrata, as compras, as deslocações, os tempos livres (ténis, windsuf nos lagos, caminhadas pelas grandes zonas verde, pela margem do l’Oise,).

O centro de Cergy surge totalmente polifuncional – oferece trabalho, serviços administrativos, espaços de encontro (praças com vários níveis de circulação), de lazer (parque e piscina), universidade, comércio e residência.

O esquema urbano pensado por Bofill, onde Blanche mora, apresenta uma praça, no sentido mais tradicional, monumental com um marco de referência – a Torre do Belvedere. Bofill ao projectar para as Villes Nouvelles, afirma uma habitação social com sentido e importância exaltado e rico. Bofill ao procurar referências na arquitectura clássica propõe numa escala colossal, um modo de viver artificial e teatral. Bofill traz ao quotidiano elementos formais dos palácios aristocráticos, acreditando numa sociedade cuja posição social e o poder político são determinantes. Bofill objectiva com o poder das suas formas, puramente visuais, exaltar o estatuto do homem, eliminando problemas de segregação social e de falta de condições de vida (desemprego e pobreza).

O centro comercial de Cergy, no filme oferece espaços de consumo local e ocasional, cuja escala é a de bairro ou de pequena vila. Aparece como peça central, sendo espaço importante para trocas sociais e comerciais – aqui proporcionam-se encontros ocasionais mas determinantes entre Fabien e Blanche.

A favor do espaço verde, aberto a todos – ar, sol, lagos, relvas, jogos – Cergy possui uma base náutica e lagos de banho. Os populares vindos dos arredores aqui passam os fins-de-semana (‘Les heures librés hebdomadaires doivent se dérouler dans des lieux favorablement préparés, parcs, fôrets, terrains de sport, stades, plages, etc.’, Le Corbusier, 1933).

Eric Rohmer apresenta, assim uma Cergy com uma dimensão adequada às necessidades dos seus personagens. O filme oferece imagens de uma cidade ideal que permitem permanência de vida. Cergy-Pontoise é, para Rohmer, uma entidade constituída por unidades isoladas, capaz de materializar a vida repartida em diversos espaços que permitem o encontro – descrevem-se sectores para o trabalho (áreas industriais, universitárias, empresariais, comerciais e administrativas), sectores residenciais, comunicações e transportes, e esferas recreativas e verdes.

 

Ana Ruepp

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