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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Acerca da génese da nova concepção espacial no movimento moderno.

Lê-se em ‘Space, Time & Architecture. The Growth of a New Tradition.’, de Sigfried Giedion que a nova concepção do espaço, que se deu com o advento do movimento moderno, foi consequência da necessidade em criar uma harmonia entre o estado de alma mais profundo do homem e a sua circunstância. E Giedion afirma que o espírito por detrás da arquitetura moderna está relacionado com a nova concepção de espaço criada pelos pintores cubistas.
 

‘The creative artist does not want to copy his surroundings, on the one hand, or to make us see them through his eyes, on the other. He is a specialist who shows us in his work as if in a mirror something we have not realized for ourselves: the state of our own souls.’, Giedion 


E por isso, o cubismo tem uma enorme importância na nova concepção do espaço, no contexto do movimento moderno. O cubismo, com as suas regras racionais, traz novos conceitos espaciais muito importantes para a arquitetura, no que diz respeito à introdução de uma nova dimensão ao espaço que até então era só concebido tridimensionalmente.

A obra de Cézanne teve uma enorme importância, neste contexto porque coloca importância na ideia de que se o horizonte da arte coincide com o da consciência, não podem mais existir perspectivas unívocas. Segundo Giedion, o método de apresentar as relações espaciais que os cubistas desenvolveram, é expressão de uma atitude colectiva quase inconsciente. Desde o Renascimento até à primeira década do séc. XX, um constante elemento se manteve durante quatro séculos: o mundo era visto segundo três dimensões. O uso da perspectiva estava tão enraizado, sempre com a possibilidade de receber novas expressões, que nenhuma outra forma de percepção poderia ser imaginada. Porém a partir do séc. XIX, o uso da perspectiva começou a dissolver-se, novas dimensões foram introduzidas e o sentido de espaço tornou-se, a partir de então, ilimitado.
 

‘Exhaustive description of an area from one point of reference is, accordingly, impossible; its character changes with the point from which it is viewed. In order to grasp the true nature of space the observer must project himself through it.’, Giedion.
 

O espaço moderno é concebido em relação a um ponto de referência, que não é absoluto nem estático, mas sim um ponto de referência em movimento. Uma quarta dimensão é acrescentada – o tempo. E o cubismo conseguiu conscientemente alargar as diversas formas de percepcionar o espaço. Procurava reproduzir a aparência dos objectos através de vários pontos de vista e assim conter a sua constituição externa mas também interna. Os cubistas ambicionavam fazer coincidir este acto de pintar ao moderno modo de viver, através da simultaneidade. Na fase inicial do cubismo a decomposição dos objectos é conseguida através de: a) transformação das superfícies das formas, em planos angulosos; b) não distinção entre a imagem e o fundo; c) decomposição dos objectos e do espaço segundo um único critério estrutural e de agregação; d) sobreposição e justaposição de múltiplas visões; e) realização de uma unidade espácio-temporal absoluta – o objecto interpenetra o espaço e o espaço por sua vez, também se desenvolve dentro e através do objecto; f) a luz e os planos cromáticos resultam desta interpenetração. No cubismo, a espacialidade do quadro é não-natural mas absolutamente real. Por isso o espaço do quadro enquanto espaço real é capaz de acolher elementos retirados directamente da realidade: pedaços de papel, de tecido, etc. A superfície do quadro não mais é uma superfície distinta da realidade mas a própria realidade.

 

Ana Ruepp

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