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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

PousadaSantaBarbara.jpg

 

Acerca da Pousada de Santa Bárbara de Manuel Tainha.

 

‘Quando olhamos para Gropius ou Le Corbusier o espírito moderno era a negação da história. Para os que vêm a seguir é a negação dessa negação. A história é uma grande lição.
As pessoas são iguais mas também diferentes. É essa geração que tem o grande papel e eu sinto-me protagonista dessa geração e a grande contradição que traz. Aplicá-los, criticá-los e ligá-los à realidade concreta. Os arquitetos nos anos sessenta e setenta aplicam e criticam os princípios modernos na realidade concreta, histórica, cultural, política, física, geográfica.’
Manuel Tainha em entrevista, 11 de Julho de 2008

 

Entre Coimbra e Guarda, Manuel Tainha (1922-2012) projeta a Pousada de Santa Bárbara (1955-58 / 1968-71). É uma das primeiras obras de Manuel Tainha, que embora encomendada em 1955, só ficou concluída em 1971.

As Pousadas Regionais, às quais pertence a Pousada em Oliveira do Hospital, estão integradas no programa preliminar das Comemorações dos Centenários de iniciativa do Secretariado da Propaganda Nacional – primeiramente lançado em 1938, para promover a propaganda turística. Os projetos e a construção eram promovidos e acompanhados pela DGEMN (Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais) e deveriam corresponder a um entendimento correto do sítio. A partir de 1954, iniciou-se um novo ciclo no projeto das Pousadas Regionais que criadas no quadro institucional adotam uma expressão cada vez mais contemporânea. A Pousada de Oliveira do Hospital pertence ao conjunto de pousadas regionais encomendadas à segunda geração moderna – tal como a Pousada de Valença de João Andresen e a Pousada de Bragança de José Carlos Loureiro.

O projeto da Pousada de Santa Bárbara incorpora os diversos caminhos da arquitetura portuguesa do final da década de 50. Decorreu a par da elaboração do Inquérito à Arquitetura Popular em Portugal, sendo por este fortemente influenciada.

Manuel Tainha foi pioneiro em anunciar o questionamento dos princípios do Estilo Internacional, adotados dogmaticamente no Congresso de 48. No final da década de 50, era já generalizada uma nova posição atenta à necessidade de uma diferente adequação social e histórica, que correspondeu a um momento de revisão. Em Portugal este momento foi materializado com o Inquérito à Arquitetura Popular. Manuel Tainha participou nesta ação, assim como na posterior publicação do livro Arquitetura Popular em Portugal (1961). A elaboração do Inquérito permitiu assim compreender a reciprocidade existente entre o homem e a paisagem na arquitetura popular. Possibilitou uma inspiração na autêntica cultura portuguesa para humanizar a arquitetura, assinalando a reconciliação com as tradições locais, mostrando a multiplicidade de estilos existentes de acordo com as várias regiões do país.

Tainha revela, também na década de 50, Alvar Aalto através da publicação e tradução das suas reflexões escritas. A leitura de Alvar Aalto transporta os vários caminhos do realismo na constatação da falência das posições mais radicais das vanguardas do Movimento Moderno entre as duas guerras mundiais. O projeto da Pousada evoca o princípio orgânico de Aalto, ao ir à descoberta de um funcionalismo dentro da autêntica cultura popular portuguesa. Ao estabelecer uma relação íntima entre o Homem e a Natureza, ultrapassa o estrito racionalismo contido na era da máquina. A escala é mais humana e intimista. É revelada a importância do lugar. Assiste-se a um processo de humanização – o utente já não é um homem abstrato, ideal, genérico e com necessidades-tipo. Mas um homem concreto e real, individual, com gostos e desejos concretos – definido no pensamento existencialista do pós-guerra, pleno de contradições e imperfeições.

Manuel Tainha sempre cultivou o seu espírito crítico e intervencionista, reclamando a necessidade de uma abordagem da arquitetura moderna aberta e lúcida. Ao organizar a partir de 1958, os dez primeiros números da revista Binário – Arquitetura, Construção, Equipamento, Tainha revela as suas preocupações mais eminentes: a necessária relação recíproca da arquitetura com a comunidade; o reconhecimento da importância da ‘arquitetura sem vanguarda’ e nessa medida a não valorização do trabalho de autor; a defesa das virtudes da arquitetura enquanto ofício artístico baseado num saber de séculos que liga teoria à prática, em detrimento da procura de uma nova linguagem como objetivo final; a necessidade de cruzar os diversos ramos do saber que isolados caem na abstração; a necessidade imediata da cultura portuguesa para elevar a construção a um processo integrado e unitário.

A planta da Pousada de Santa Bárbara é orgânica ao revelar a total incorporação no terreno, ao ‘fazer daquele sítio rude e agreste um lugar habitável em louvor da paisagem’. Tainha encosta a pousada no declive, de frente para a vasta paisagem. E cria um lugar, ao desenvolver o método de trabalhar o corte, que combina um único piso do lado de quem chega com dois pisos do lado da paisagem. Os principais espaços internos determinam-se contemplativos para o exterior. Os volumes são baixos e espraiados em torno de pátio. O pátio funciona como filtro que separa o ponto de chegada e a vista da Serra.

Verificam-se os paradigmas modernos e racionais na clareza funcional de distribuição do programa e na nítida diferenciação volumétrica.

Organiza-se a paisagem que vai sendo revelada através de uma sequência de acontecimentos – esconde-se através da criação do pátio, é observada a partir das salas comuns, é percorrida através da varanda corrida.

Manuel Tainha contrapõe o aberto e o fechado. Entende-se o aberto através das qualidades ambientais de grandeza e austeridade, interiores e distantes, próprias da Serra da Estrela. Entende-se o fechado através das características de interioridade, de acolhimento, de abrigo e de clausura, que a pousada oferece.

Os pilotis cilíndricos em granito fazem a adaptação ao terreno e suportam expressivamente o volume dos quartos. Referenciados à arquitetura popular local declaram o interesse de Tainha em utilizar os materiais tradicionais e revelar os seus valores plásticos.

Em osmose com o sítio a Pousada de Santa Bárbara sugere imagens várias e contrastantes – os pilotis orgânicos e geológicos, o volume monolítico e geométrico dos quartos, as coberturas de telha cerâmica, a utilização da alvenaria de granito à vista, o xisto, o betão à vista, a madeira e o vidro.

 

Ana Ruepp

 

 

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