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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Shirley Jaffe e a rutura com a pintura do gesto puro.

 

'I became aware that gesture as gesture was not sufficient for me. Something wasn’t working.', Shirley Jaffe.

 

Quase figura, quase gesto, quase geometria, quase símbolo. Shirley Jaffe (1923-2016) é uma pintora que se distingue dos da sua geração - veja-se Joan Mitchell (1925-1992), que também expatriada em França, nunca abandonou a pintura gestual. Em 1949, Shirley Jaffe trocou, para sempre, Nova Iorque por Paris.

 

A pouco e pouco o expressionismo abstrato de Jaffe, transformou-se numa pintura de gestos construídos e de contornos bem definidos.

 

Jaffe sempre desejou referir-se a uma experiência complexa e deslocada e em dar expressão a uma multiplicidade de acontecimentos visuais. No livro 'Shirley Jaffe. Forms of dialocation', de Raphael Rubinstein lê-se que deslocação é de facto um conceito que teve muito peso na vida de Jaffe. Durante a sua longa vida, Jaffe teve duas mudanças geográficas decisivas - mudou-se para França aos 26 anos e nos anos sessenta, em Berlim, passou um ano decisivo para a sua pintura.

 

Shirley Sternstein (só depois Jaffe) iniciou a sua educação artística em Nova Iorque. Graduou-as na Cooper Union em 1945 e até então desconhecia o trabalho de Pollock, De Kooning e Rothko. Os seus professores da Cooper Union e da Phillips Gallery School of Art (escola onde prosseguiu os seus estudos) trabalhavam sob influência cubista. Porém ao referir-se a estes anos Jaffe afirma: 'I preferred to draw in the subway and look for my own way somewhere else.' E as pinturas de Kandinsky que Jaffe visitava no Museum of Non-Objective Painting tiveram em si uma influência decisiva, por causa da intensidade do gesto.

 

Ao mudar-se para França, com o seu marido Irving, resultado de um impulso, possibilitou a existência de novas perspetivas, novas oportunidades e uma abertura ao mundo. Jaffe fazia parte do grupo de pintores, que incluía Sam Francis, Norman Bluhm, Jean-Paul Riopelle, Joan Mitchell e Kimber Smith. E sobretudo partilhavam ideias, porque desde cedo Jaffe pintava como que cada gesto fosse único. E este exercício, que evitava repetir a marca que a mão pinta, deu desde logo à pintura um desejado sentido de multiplicidade, justaposição, coexistência e complexidade - e que em grande medida antecipou o desenvolvimento da sua pintura.

 

'Intellectually, it seemed to me that it was stupid to continue making gestures to develop the painting when the gesture wasn't pure. I was reworking a gesture, which should be beautiful in itself, and in the process what I was doing was destroying the color because I overworked and repeated. You know, I was destroying the essence of what we would call gesture. It was like taking a beautiful Chinese line and constantly redoing it.', Jaffe, 2010.

 

Em 1963, Jaffe foi para Berlim, com uma bolsa concedida pela Ford Foundation. E foi a partir deste momento que Jaffe teve a oportunidade de iniciar um caminho que vai além da abstração simplesmente gestual.

 

'The real change in my work started when I came back from Berlin, in ‘68 or ’69. Prior to Berlin my paintings were gestural, with an all-over surface of strokes vaguely suggestive of relationships. In Berlin those gestures began to become more defined, often starting with compositional devices: criss-crosses, ovals, and so on.', Jaffe.

 

Em Berlim, ao viver 'uma nova adolescência', Jaffe começou a assistir a concertos de música contemporânea (ouvia Xenakis, Carter e Stockhausen) e retirava, destas experiências que achava estruturais, analogias para pensar a sua pintura: 'Composition appeared to me in a much more visible way. To listen to concerts was like visiting an exhibition.'

 

O anseio por uma pintura mais analítica, mais direta e mais construída fez com que Jaffe ao regressar a Paris, desejasse ter também um papel mais ativo na sociedade e a interessar-se pelo ambiente urbano que a rodeava.

 

'I wanted to give, in my paintings, a vision of the city as I was seeing it. That took me a long time.'

 

E foi finalmente a partir de 1968, que Shirley Jaffe definitivamente rompeu com o gesto puro e começou a pintar estruturas muito rígidas:'I started to paint in the most summary fashion, beginning to paint the way you learn the ABC, like learning a language. I knew that if I wanted to control my paintings, I would have to control the gesture.'

 

Ana Ruepp

 

 

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