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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Arquitetura no final dos anos sessenta – breve contexto internacional.

 

‘A Post-Modern building is doubly coded – part Modern and part something else: vernacular, revivalist, local, commercial, metaphorical, or contextual… It is also double coded in the sense that it seeks to speak on two levels at once: to a concerned minority of architects, an elite who recognize the subtle distinctions of a fast-changing language, and to the inhabitants, users, or passersby, who want only to understand to enjoy it.’, Charles Jencks In Current Architecture, 1982

 

A abertura de fronteiras é um dado fundamental dos anos sessenta, do séc. XX. A circulação de novas influências vai, assim tornar-se marcante. Neste período, o panorama da arquitetura caracteriza-se por atuações e expressões que tentam resolver temas do presente concreto e de um lugar específico, produzindo para um público mais alargado. Como pano de fundo e sempre presente está o declínio do Estilo Internacional. A crítica constante à ortodoxia do Movimento Moderno traz uma enorme vontade na procura por um vocabulário próprio, fruto de uma forte expressão individual.

 

Anunciam-se, programas que valorizam o singular, o real, o banal, o popular, a individualidade, a localidade, a complexidade, a relatividade e até a inexplicabilidade. Alguns arquitetos referenciam-se ao passado (regressam à história e até mesmo a Frank Lloyd Wright, a Alvar Aalto, a Bruno Taut e aos Siedlung dos anos 20), outros ambicionam por uma arquitetura mais eficaz e mais concreta, sobretudo em termos sociais e ambientais, e outros ainda desejam construir para o futuro numa atitude de vanguarda dentro de uma lógica de revolução permanente.

 

A unidade do Movimento Moderno tinha já sido quebrada, no final dos anos cinquenta, com a dissolução dos CIAM. A atitude de tábua rasa do Movimento Moderno foi assim alvo de reapreciação e autores como Jane Jacobs reclamavam de novo vida e espírito para as cidades através da apologia da rua. (ver aqui)

 

Os arquitetos que trabalham por estes anos anunciam preocupações comuns e até semelhanças estilísticas mas daí não se constitui nenhum movimento unificado. Algumas das soluções arquitetónicas advém do rápido crescimento económico e tecnológico que se faz sentir. Os programas mais característicos são de implicação urbana e estabelecem diálogo com as formas da cidade pré-existente – o espaço público é agora tema, as megaestruturas representam a compactação de uma cidade complexa. Desenham-se cidades em altura, ruas elevadas para peões, sobrepõe-se malhas, criam-se camadas de memória, deseja-se a cidade de espaços em detrimento da cidade dos objetos. Cada arquiteto tem a sua linguagem, a sua forma de expressão. Agora as novas estruturas têm de se adaptar à cidade preexistente.

 

Herman Hertzberger acreditava que ao arquiteto não competia cumprir uma solução completa e total. As estruturas desenhadas, por este arquiteto, deveriam antes ser preenchidas pela vida – capazes de integrar diferentes hábitos e usos. Hertzberger pretendia criar a possibilidade de interpretação pessoal do padrão coletivo. Insiste, assim, na importância cultural do lugar interpretável, onde forma e atividade se ajustam constantemente contra a tirania da organização funcionalista.

 

A modernidade revela-se agora empírica com um desejo dual de conservar e inovar. Na segunda metade dos anos sessenta, desenvolve-se em grande medida a produção teórica – é o momento de livros tão determinantes para a década que se segue como A Arquitetura da Cidade de Aldo Rossi, de Complexidade e Contradição em Arquitetura de Robert Venturi.

 

Esse esforço teórico cristalizou-se igualmente em torno da obra dos New York Five – grupo constituído por Peter Eisenman, John Hejduck, Charles Gwathmey, Michael Graves e Richard Meier. Influenciados pelas vanguardas europeias do pré-guerra, sobretudo Eisenman e Hejduk referenciam o seu trabalho a Theo Van Doesburg, aos construtivistas russos e ao trabalho de G. Terragni enquanto os outros três assumem o período purista de Le Corbusier como ponto de partida. Mas é preciso ver que os New York Five assumiam a ideia de uma arquitetura autónoma do compromisso funcionalista proposto pelas vanguardas e assim projetos como o da Wall House de Hejduk foram possíveis sem ajustes à Nova Objetividade (em arquitetura a Nova Objetividade nega problemas linguísticos – tornam-se antes explícitos princípios de constituição das formas que se ligam a um programa específico, associa-se ao funcionalismo e ao racionalismo proclamado desde logo pela primeira geração de modernistas.)

 

No final de sessenta, verifica-se igualmente a emergência da utopia, como por exemplo acontece com o grupo britânico Archigram que começou a projetar megaestruturas high-tech irónicas a partir de 1961, respondendo ao apelo do imaginário da ficção científica (esta visão aparece ligada à influência de Buckminster Fuller, que por sua vez projetou em 1962, para o centro de Manhattan uma gigantesca cúpula contra a poluição). Ou ainda através do exemplo de Claude Parent e Paul Virilio que, ao propor a cidade oblíqua, resolvem o futuro do Homem Moderno. Através do imaginário e do sonho (esquecendo a lógica do número), Claude Parent projeta a vida em planos oblíquos onde a relação do corpo com o solo é necessariamente mais dinâmica e a deslocação quotidiana mais imediata e automática. A eliminação de obstáculos traz economia no uso do solo, criando uma infinitude de espaços (os espaços são utilizáveis em cima e em baixo do plano), eliminando conflitos e prevendo uma comunicação sem fim. E não esqueçamos o grupo japonês Metabolist – que pretendia responder à desordem e ao caos, criado pela construção de um elevado número de pequenas casas em Tokyo, através do desenho de estruturas gigantes no céu, mesmo por cima destas pequenas casas.

 

Pode reconhecer-se, por outro lado, responsabilidade social e uma tentativa de construir para a vida quotidiana, nas propostas utópicas e antifuturistas do grupo italiano Superstudio que a partir de 1966, começou a produzir formas de acordo com um Movimento Contínuo – onde se descreve uma cidade muda, da qual os monumentos e qualquer bem de consumo são eliminados e em que o pensamento é energia, matéria-prima e produto final, são o único objeto de consumo. 

Ana Ruepp