A FORÇA DO ATO CRIADOR

O verdadeiro sentido do habitar - La Casa Chica de Smiljan Radic.
‘All things are so very uncertain, and that’s exactly what makes me feel reassured.’, diálogo entre Moomintroll e Too-ticky em ‘Moominland Midwinter’ (Tove Jansson, 1968)
Entender o lugar como refúgio abre a possibilidade da sua imediata apropriação, de dar protagonismo ao corpo que experiencia e de conceber o espaço como abrigo.
O verdadeiro espaço de habitar permite uma constante comunicação entre as várias formas de vida, que estão sempre em mudança e que circundam o ser humano.
Em Vilches, Smiljan Radic construiu a Casa Chica com materiais desperidiçados e elementos encontrados. É um objecto que parece, desde sempre pertencer, àquele sítio - completamente ancorado e aberto aos seus sons, às suas mudanças, ao seu ar.
Vilches é um sítio recôndito, abandonado e desconhecido - leva tempo e algum esforço para lá chegar: ‘There are still dirt on the roads that give you the feeling of distance, which is all that’s necessary for a refuge (...) A series of houses have appeared and disappeared here.’ (Smiljan Radic, em Apartamento, issue #12)
Dentro da Casa Chica está-se sempre imerso na paisagem, porque esta está sempre visível. A circunstância está sempre lá, é referência para tudo e determina os limites da casa. Por isso o seu espaço interno é incerto mas completamente apropriável.
‘La Casa Chica is completely overturned on the outside and doesn’t have any possibility of an inside.’, Smiljan Radic
A solidez dos materiais usados (pedra, madeira, metal) e a resistência dos elementos fixos (janelas, fogão, loiças) dão ao espaço um certo sentido de permanência e de segurança.
A natureza, que faz parte integrante do objeto construído, é o seu elemento improvável e variável - até o clima dentro do abrigo é inconstante, relacionando-se diretamente com o que acontece lá fora.
O espaço de habitar torna-se assim flexível, com verdadeira possibilidade de proteção, de pertença e de densidade.
‘Architecture is a moment expanded in time and nothing less than a permanent installation’, Smiljan Radic
Ana Ruepp