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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

O Raio Verde _ ana ruepp.jpg

 

O Raio Verde’ e o encontro com a luz efémera

 

‘The sun / the gilt and green / bodies / sand, stone / the immensity sea-mountain / nature animal-vegetable / ecology-vegetarian, nonviolent / asceticism-detachment / solitude-the crowd / the meeting / luck-chance / cards-horoscopes / vacations-work.’, Eric Rohmer, rascunho manuscrito dos diálogos de ‘O Raio Verde’.

 

No filme ‘O Raio Verde’ (1986) de Eric Rohmer, da série ‘Comédias e Provérbios’, apercebemo-nos que os espaços criam em nós ressonâncias. O nosso corpo não é imune ao mundo físico que nos rodeia. E os filmes de Eric Rohmer sublinham a importância das ligações entre espaços e que, em grande medida, muito contribuem para as ligações entre as pessoas: ‘I love the streets, the squares, the shops. Many of my films are based on meetings, and in a city like Paris, there are so many people that they are always somewhat exceptional.’, Eric Rohmer

 

As ligações estabelecidas dentro da cidade, entre transportes e entre cidades, nos filmes de Rohemr, representam redes de movimento, de entendimento, de conhecimento e de encontro - mas também podem representar mal entendidos e desencontros. Na série das ‘Comédias e Provérbios’, as personagens possuem um desejo imenso e intríseco de se relacionar. Desejam viver um acontecimento extraordinário, querem que algo lhes chegue com grande força - não há medo em colocar em causa uma determinada ordem. E essas mudanças tão desejadas chegam através do espaço do mundo físico exterior. Em ‘O Raio Verde’ Delphine deseja, através da sua intuição e imaginação, ultrapassar a sua solidão durante as suas férias de verão.

 

Segundo Guy Debord, os espaços tem o poder de modificar o ser humano - porque as reacções físicas e emocionais revelam o seu estado mental, a sua psicogeografia (em 1957, Debord criou um mapa ‘The Naked City’ que divide Paris em dezanove secções, aleatoriamente dispersas, e os utilizadores deste mapa são livres de escolher a sua própria direcção de acordo com um contexto emocional que desejam atribuí-lo). No espaço, certos ângulos e certas perspectivas que se aproximam ou que se afastam, permitem vislumbrar, confirmar ou fragmentar emoções ou comportamentos. A vida vai-se tecendo através dos sitios por onde passamos, através dos espaços onde vivemos, através das pessoas que cruzamos. Somos a membrana que separa o interior único que respira e o exterior físico que nos rodeia.

 

Quem tiver a sorte de avistar o raio verde (esse raro fenómeno de refracção óptica que acontece num pôr do sol de horizonte plano, limpo e claro), segundo conta Júlio Verne, será capaz de ler todos os seus próprios sentimentos e também os sentimentos dos demais. Na história do filme, Rohmer utiliza um fenómeno físico / geográfico, exterior e não controlável para mudar a vida da sua personagem.

 

‘É muito difícil separar a força das coisas exteriores e a liberdade que é dada ao indivíduo como destino. Na teologia Deus é considerado sempre um ser completamente livre e eu pergunto mas é completamente livre ou a fatalidade dele é ser livre? (...) As coisas estão intricadas de tal maneira que estamos a separar liberdade, de destino, e talvez não valha a pena - quem quiser pode dizer o meu destino é a minha liberdade. (...) Aquilo que lhe apetece fazer é capaz de ser o correcto.’, Agostinho da Silva em conversa com Isabel Barreno, 1990.

 

As alterações que acontecem nas nossas vidas não dependem totalmente de nós - há fenómenos inexplicáveis e inalcançáveis que estão fora do nosso controlo. E talvez a ordem/forma do mundo tenha um destino específico para cada um de nós.

 

O filme de Rohmer explora as deslocações de Delphine, através do acaso, mas sobretudo em busca de uma revelação, em direcção à luz - desde a cidade até ao mar, onde se descobre, ainda que fugazmente, o sentido de tudo. Delphine é de carácter evanescente, efémero, aéreo e infinitésimal. E está empenhada a mudar o seu destino através do movimento da natureza - mas esta pode ser esmagadora e opressora. Delphine confia mais no destino ou na força das coisas exteriores, que na sua própria e individual liberdade e a aparição do raio verde funciona como uma recompensa à sua constância e persistência, por saber esperar pelo momento certo. O momento exacto e efémero do raio clarifica, por instantes as acções e impulsos de Delphine - que finalmente parecem acertadas, justificadas e com sentido. Esse fenómeno geográfico raro permite uma saída, um escape ao impasse onde Delphine se encontra. Delphine procura claridade e lucidez fora de si mesma e por isso a qualquer momento está exposta a voltar a perder-se.

 

E sendo assim, o filme divide-se entre o vermelho e o verde e é uma osmose perfeita entre a natureza (o mundo físico exterior) e o interior de Delphine. Eric Rohmer, em ‘O Raio Verde’ faz com que o espaço físico funcione como uma força exterior (destino) que muda a vida e a vontade das suas personagens.

 

Ana Ruepp