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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A INTUIÇÃO MÍSTICA É DA MÃO ESQUERDA…

 

Minha Princesa de mim:

 

Está tão linda a manhã, que quase tenho pena de não poder sair... Mas abri as janelas todas, para que o sol me entre em casa, com o cheiro tónico destes campos que hoje me parecem tão felizes! Aves várias cantam, confortam-se lagartos ao sol e alegra-se a minha esperança de ver andorinhas a dizer promessas... Talvez pela melancolia que tem sido esta lenta primavera, comecei o dia a ouvir Couperin e Rameau, logo me lembraram Ravel, e com Ravel tenho ficado. Vou escutando toda a sua música para piano, interpretada pelo Robert Casadesus, incluindo o concerto para a mão esquerda, com a Philadelphia Orchestra dirigida pelo Eugene Ormandy. Quiçá por ser canhoto, sempre me interessei  -  muito embora não toque  -  por composições para a mão esquerda, da Fantasia nº 1 do Alkan (1838) às Diversions do Britten (1940), passando por Bartok, Saint-Saëns, Korngold e outros. Diz-se que o primeiro concerto para a mão esquerda foi composto em 1895 por um conde húngaro  -   melómano e tocador de piano  -  que perdera o braço direito num acidente de caça. Mas o de Ravel foi encomendado por Paul Wittgenstein, conhecido pianista austríaco, a quem acontecera o mesmo, mas nas trincheiras da guerra de 14-18... Também a Richard Strauss, Korngold, Prokovief e Britten foi este Wittgenstein buscar música para si. Para a sua mão sobreviva, para a única mão ainda cheia da sua alma de artista. Não a que, como norma, define prioridades, simboliza o poder ou a revolução, maneja a pena e a espada, ou leva à boca a colher da sopa. Mas a mão esquerda, a que se usa por intuição ou coragem. O outro Wittgenstein, irmão de Paul, chamava-se Ludwig, era filósofo, e também andou nas trincheiras da guerra... Os livros que então acompanhavam esse soldado austríaco eram dois: o Resumo do Evangelho de Tolstoi e Os Irmãos Karamazov de Dostoievsky, os escritores russos que mais digeriram a mensagem evangélica nas suas obras. Perto do fim desta sua vida, já depois da 2ª guerra, Ludwig Wittgenstein confiava a Maurice Drury, anglicano irlandês e seu aluno (o filósofo austríaco era professor universitário de lógica) que aqueles dois  eram os dois únicos grandes escritores europeus que, recentemente, tinham dito algo importante acerca da religião, e confessava a sua dívida para com eles: posto que  eu não sou um homem religioso, mas não consigo olhar para qualquer problema a não ser desde um ponto de vista religioso... e referia a frase de Tolstoi sobre o Cristianismo: um muito estrito, puro e completo, metafísico e estético ensinamento, acima do qual a razão humana não subiu. E data do seu período de serviço militar durante a 1ª guerra, quando ia relendo as obras citadas, a parte final do seu Tractatus Logico-Philosophicus, e a intuição mística: Nicht wie die Welt ist, ist das Mystiche, sondern dass sie ist! Místico não é como o mundo é, mas só que é! ...Es gibt allerdings Unaussprechliches. Dies zeigt sich, es ist das Mystiche. Há sem dúvida coisas inexprimíveis. Mostram-se a si mesmas, e é isso o místico. E nos Vermischte Bemekungen afirmará: Uma das coisas que, entre outras, o Cristianismo diz, penso eu, é que todas as doutrinas consistentes são inúteis. Temos de mudar a nossa vida (ou a direcção da nossa vida). Diz que todo o saber é frio; e jamais o poderemos utilizar para resolver a nossa vida, tal como não se forja o ferro quando está frio. Certo é que a boa instrução não nos agarra necessariamente; podemos segui-la como receita médica... Mas aí, precisamos de algo que nos agarre e nos dê a volta... (pelo menos é assim que o entendo). E logo que nos tiver dado a volta, assim teremos de ficar. O saber é desapaixonado. Mas a fé, pelo contrário, é o que Kierkegaard chama uma paixão. Sabes bem como penso que há coisas que ainda não sabemos explicar, sendo melhor guardá-las e meditá-las no secreto silêncio do nosso pensarsentir, isso a que chamamos coração. Talvez aí haja uma mão esquerda capaz de tocar um concerto que puristas e sábios julgariam incompleto. Dou-te ambas as mãos: não quero que a minha direita fique ciumenta.

 

                                              Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira 

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