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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXI - DAVID MOURÃO FERREIRA

 

“Não acredito propriamente no Quinto Império; nem estou seguro do advento da Idade do Espírito Santo. Mas reconheço o que estas utopias contêm de positivo e de exaltante se delas não excluirmos a Magia do Corpo e da Palavra, a Palavra e o Corpo da Magia. E continuo a crer que os textos literários de matriz lusófona terão, também quanto a isto, um principal papel a desempenhar” (David Mourão Ferreira, “Magia, Palavra, Corpo: Perspetivas da Cultura de Língua Portuguesa”, Cotovia, Lisboa, 1993, p. 28).

 

Esta citação do texto de David Mourão Ferreira, parece ter por função não permitir confundir o discurso (pretensamente objetivo) do seu autor com quaisquer conceções providencialistas, míticas ou messiânicas, tantas vezes cheias de emotividade, sobre o destino manifesto e universal do povo português, do seu insondável mistério e da sua irreduzível originalidade, afastando, desde logo, qualquer familiaridade com a ideia do Quinto Império, de Joaquim de Fiore, Padre António Vieira e Fernando Pessoa, com a Idade e Culto do Espírito Santo, de Agostinho da Silva e António Quadros, com as teorias providencialistas, ocultistas e esotéricas, com particularidades próprias, de António Telmo, Manuel Gandra, Dalila Pereira da Costa, Eduardo Amarante, Rainer Dachnhardt, Raul Leal e Augusto Ferreira Gomes, o sebastianismo ou a saudade de António Sardinha, o lirismo sonhador de Jorge Dias, entre outros.

 

Conclusão que as palavras seguintes não confirmam, dado reconhecer o que essas utopias têm de construtivo, desde que assentes no valor da língua, para além da crença no papel a desempenhar pela palavra escrita, neste particular pela literatura de matriz lusófona.

 

Assim, apesar de todos os cuidados tidos pelo autor para se exprimir, não deixa de, curiosamente, permitir que se coloque o seu prognóstico num lugar próximo ao que as conceções do Quinto Império e do Espírito Santo têm de comum: o visionar e o advento de um tempo novo ou de uma nova era em que Portugal, neste caso, a Cultura da Língua Portuguesa, tem uma missão fraternal e solidária a cumprir, por desígnios manifestos da sua própria história, e o constatarmos revestir-se essa missão de um universalismo augurado em vários momentos da nossa existência secular. Cita, a propósito, Afonso Lopes Vieira ao admitir, cinquenta anos antes, a enorme importância do número de falantes que viriam a exprimir-se em língua portuguesa.

 

Nesta perspetiva, encontramos aqui, uma vez mais, a tal linha de continuidade entre utopias que só aparentemente são diversas: a do Quinto Império, religioso para António Vieira, cultural para Fernando Pessoa, a da Idade do Espírito Santo para Joaquim de Fiore, Agostinho da Silva e António Quadros, a da Era Lusíada para Teixeira de Pascoais e a da Cultura de Língua Portuguesa para David Mourão Ferreira.

 

Sonhos ou utopias que pressupõem todos uma realidade espiritual, imaterial, um universalismo como vocação de um Povo ou de uma Cultura que conseguirá com vantagem substituir-se ao poder predominantemente económico que outras culturas atualmente dispõem.

 

Defende, porém, uma relação igualitária da cultura portuguesa com outras culturas de língua portuguesa, defendendo uma Comunidade Lusófona com uma componente de absorção e recetividade, em termos linguísticos e literários, criticando os que se crispam ao verem o nosso léxico “invadido” por termos vindos de outros países lusófonos (por exemplo, de telenovelas brasileiras ou de canções cabo-verdianas), posição também defendida por Eduardo Lourenço e Gilberto Freyre. Refere palavras de Afonso Lopes Vieira, segundo as quais “para tal glória da Linguagem é mister que a leguemos pura e forte, latina na raiz e nacarada nos Trópicos, com a sintaxe plantada em chão natal, mas liberal no acolher de vocábulos, Língua sempre dona e perpétua donzela, nobre de passado senhorial e crioula em todas as latitudes, capaz, enfim, de aparelhar com gesto airoso para os rumos prodigiosos do porvir” (ibidem, p. 7).

 

Portugal crescerá porque a sua língua crescerá também, em comunhão de esforços com o restante mundo lusófono, apesar do caráter mais restrito desta Cultura de Língua Portuguesa, em termos literários e linguísticos, a que não foi alheia a profissão do seu autor.  

 

20.03.2018

Joaquim Miguel De Morgado Patrício 

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