A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

XLVII - NEOLOGISMOS
Neologismo - “emprego de palavras novas, derivadas ou formadas de outras já existentes, na mesma língua ou não” (Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa).
Toda e qualquer língua viva está aberta a alterações. Daí que os neologismos, em si mesmos, não sejam um problema e dificilmente se podem encarar como uma “heresia”, uma vez serem um fator de vitalidade da língua, pelo que esta sem neologismos é tida como morta.
Se esses neologismos forem apenas “estrangeirismos” ou “empréstimos”, ou seja, palavras importadas de outras línguas, necessitam de uma intervenção linguística que permita a sua integração harmoniosa na língua importadora. Essa realidade releva em especial quando se trata de palavras importadas de línguas que possuem sistemas fonológicos e morfológicos diversos dos da língua importadora e com convenções ortográficas notoriamente divergentes, como sucede com o inglês e o português. Por exemplo, há a importação de palavras inglesas que são escritas e pronunciadas como em inglês sem qualquer esforço de adaptação ao sistema fonológico e morfológico do português, caso de palavras como “site”, “on line”,”drive”, “farmodrive” em que a vogal “i” se lê “ai”. E que dizer da useira e vezeira utilização por escrito da palavra “shampoo”, em desfavor da bem portuguesa “champô”?!...
Uma entrada maciça de palavras importadas pode levar à descaraterização do idioma de acolhimento e, por outro lado, a que a língua que importa indiscriminadamente deixe de ser usada em contextos de comunicação técnica e científica, conducente à perda do seu estatuto de língua de ciência e de cultura.
É necessária uma política de planificação linguística que permita que uma língua com o estatuto de comunicação quotidiana e de aprendizagem, transite para uma língua de comunicação científica e técnica, adaptada e apetrechada para qualquer situação.
Não existe em Portugal uma política de língua credível, nem de planificação linguística. Mesmo ao nível da CPLP é insuficiente, na medida em que ao pretender criar-se um espaço geopolítico, cujo principal elo de união é a língua, não se vislumbra uma estratégia suficientemente sólida e concertada para a desenvolver e promover o seu uso.
Há ausência de uma instituição credível encarregada de proceder à normalização do português e, em particular, dos seus neologismos, uma Academia com atribuições comparáveis às da Academia Francesa ou à do país vizinho.
Carecemos, ainda, de um efetivo investimento na produção de materiais que possibilitem o desenvolvimento e a promoção do nosso idioma, nomeadamente de dicionários bilingues, de terminologia mono e multilingue, materiais de ensino como língua estrangeira ou para fins específicos, além de um investimento sério e programado, incluindo via internet.
23.04.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício