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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 31 de maio a 6 de junho de 2021

 

«Ver é Ser Visto – Fragmentos Essenciais» é uma Antologia de Eduardo Lorenço (1923-2020), na qual se reunem alguns dos textos mais significativos do grande ensaísta.

 

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DE FORA PARA DENTRO…

Eduardo Lourenço sempre sentiu a necessidade de analisar a realidade cultural de fora e por dentro. A sua ideia de heterodoxia deparou-se, desde que surgiu, com múltiplas incompreensões – já que várias ortodoxias se sentiram atingidas. Procurando salvaguardar sempre a independência de espírito, causou em muitos dos seus leitores e investigadores sentimentos diversos e contrastados. Manteve-se, porém, fiel às inquietações fundamentais. Longe das certezas, sempre preocupado em pôr-se na pele do outro, considerou como necessário evitar conclusões simplistas, partindo da imperfeição humana e da responsabilidade de caminhar no exigente sentido de uma singularidade e de uma sociedade melhores. A escolha do ensaísmo, no caminho indicado por Montaigne, significa, aliás, a preocupação fundamental de procurar, a partir da reflexão pessoal, não uma ordenação do mundo, mas o entendimento da complexidade humana e das suas metamorfoses. E percebemos, assim, a influência de Sílvio Lima, mestre que encontrou na Alma Mater de Coimbra, e a aplicação de uma persistente análise que fez do método ao longo da vida, com engenho e inesgotável capacidade inovadora. Os textos que constituem a antologia procuram abranger momentos importantes do percurso do seu autor, começando pela definição da atitude independente e heterodoxa e pela referência fundadora da relação com a Europa e com o diálogo que então nos faltava (1949), colocando essa reflexão na continuidade de quantos portugueses recusaram fechar-se dentro das fronteiras, desde os renascentistas aos românticos, como Garrett e Herculano, até à complexa atitude de Antero de Quental e da sua geração, de quem se sentiu tão próximo sempre. E nesta linha repensa Portugal (num contexto existencial), glosa a conferência de Antero sobre as “Causas da Decadência”, interroga Oliveira Martins, analisa criticamente o papel dos mitos, desconstrói a saudade e o sebastianismo, encontra-se com o Camões histórico enquanto referência cultural perene e diversa, e mergulha numa reflexão sobre Fernando Pessoa, rei da nossa Baviera, aprofundando, à medida que mais se ia conhecendo a obra do poeta, a significação do seu lugar no tempo, para além da sua consideração portuguesa. A existência mítica e os caminhos vários que abre foram uma preocupação permanente do ensaísta, em busca da diversidade, da porta aberta, do melting pot português, do significado da nossa Nau de Ícaro (de um quadro de Breughel, o velho), das aventuras e desventuras migrantes, do País entre a realidade e o sonho, da língua projetada universalmente. Mas o sentido crítico, sempre muito agudo, levaria à reflexão sobre a Europa desencantada, labirinto de uma realidade necessária e frágil. E, por fim, nesta recolha, encontramos a relação pessoalíssima com a poesia – porque o ensaísmo de Lourenço procura insistentemente as intuições poéticas para deslindar o significado das ideias no mundo. Hölderlin diria “o que permanece / os poetas o fundam”. A amizade com Carlos de Oliveira obriga a explicações sobre “o sentido e a forma da poesia neorrealista”, a crítica e a metacrítica aprofundam a atitude criadora do autor, Camões é símbolo da nossa cultura e Antero revela a tensão essencial (bem presente neste ensaísmo) entre o pensamento e a utopia.

 

NOSTALGIA DA UNIDADE…

Eduardo Prado Coelho falou de uma nostalgia da unidade e do absoluto em Eduardo Lourenço. Num texto inédito de 1954, publicado pela revista “Relâmpago” (nº 22, 4-2008) (“Ísis ou a Inteligência”), o ensaísta diz: “a mitologia é a verdade dispersa, túnica rasgada de um deus morto a quem só podemos ressuscitar juntando com paciência piedosa todos os pedaços. Essa tarefa é superior às nossas forças”. É essa interrogação permanente sobre os mitos que nos revela uma das facetas mais originais do autor. Se bem virmos, é a desconstrução de mitos, como a saudade e o sebastianismo, ou como os excessos contraditórios sobre a nossa identidade, que permite avançar no sentido de uma ideia de emancipação individual ou coletiva. A melancolia ou o sonho não mobilizam vontades. Precisamos ir além da ilusão. É necessário “rever, renovar, suspeitar sem tréguas as imagens e os mitos que nelas se incarnam”. E o ensaísta é o primeiro a reconhecer uma certa ambiguidade no seu pensamento – expresso em fórmulas como “Poesia e Metafísica” e “Existência e Literatura” (no subtítulo de O Canto do Signo). Mas é a necessidade de entender a diversidade que o leva nesse sentido. “Perceber uma coisa é ver outra no lugar daquela que estamos vendo. Entender uma ideia ver outra no lugar dela. Sempre a ausência é o pano de fudo da presença, mas essa ausência é a grande presença”… “Ver é ser visto”. Esta consideração, sempre presente em Eduardo Lourenço, permite entender o seu sentido crítico, feito de contrapontos entre presença e ausência, entre eu e o outro. Daí a permanente perspetiva crítica e a nostalgia da unidade e do absoluto. São as grandes intuições de ordem global que considera primordiais, e é delas que parte análise dos fenómenos. E é assim que a poesia de Camões, Antero e Pessoa se projetam entre o sonho e a realidade, com a preocupação e evitar a tentação pura do abstrato.

 

CLARIFICAR O ENTENDIMENTO

Em entrevista concedida a António Guerreiro e publicada no citado número da revista “Relâmpago”, Eduardo Lourenço sente necessidade de clarificar a sua relação, falsamente empolada, com o tema Portugal: “Como os meus livros não têm uma sequência clara, muitos deles são muito marcados pela contingência, e são diversificados nos seus objetivos, acabo por não saber muito bem como é que eles são percebidos. Fundamentalmente, sou identificado com O Labirinto da Saudade. Este rótulo que me foi colado deve-se certamente ao facto de esse livrinho ser o único dos livros que suscita interesse por parte de gente dos mais diversos credos (…). E assim apareço eu investido de uma famosa preocupação por Portugal que é o contrário daquilo que penso ter escrito”. De facto, o ensaísta procurou libertar-se dessa simplificação. Mas esse rótulo também se alimentou “desta minha ideia diabólica e masoquista de querer sempre estar também do outro lado, inclusive do lado que me põe em causa”. E é certo que, contra a lógica de um só discurso, existente nas várias famílias ideológicas, o pensador “quis sempre dar uma chance a um discurso antagónico, contra o qual prossigo o meu combate mas que de algum modo integro no meu próprio discurso”.Os textos e as ideias encadeiam-se – numa procura permanente de posição e de sentido. A ordem é difícil de estabelecer – porque o ensaio é uma ginástica do espírito. O labirinto que o ensaísta percorre traz-nos a saudade não como melancolia ou como lembrança e desejo, mas como interrogação e dúvida, paradoxo e demanda de síntese. A paixão por Camões, Antero e Pessoa significa a procura de compreender a cultura como um diálogo permanente entre o sublime e a vida comum, a unidade e a diversidade... Eis o fascínio da leitura.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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