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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 15 a 21 de novembro de 2021


“A máquina de fazer espanhóis”
de Valter Hugo Mãe (Porto Editora, reedição, 2021) é um motivo muito sério de reflexão sobre o momento presente.


 

SOCIEDADE ANTIGA E COMPLEXA
Com originalidade, apercebemo-nos de como uma sociedade antiga e complexa vive inúmeras contradições. António Jorge Silva de 84 anos vê-se privado da companhia de sua mulher Laura, com quem viveu 48 anos. A perda é sentida duramente e dá lugar a uma reflexão sobre o envelhecimento, a surpresa e a angústia. Os temas são de uma atualidade premente – tudo parece estar em causa quando chegamos ao fim de um caminho, ou quando esse termo se anuncia, mas sobretudo quando não sabemos quanto restará. Silva segue o caminho previsível. Vai para um lar que tem a designação estranha e absurda de “feliz idade”. E a que assistimos? A tudo o contrário do que a designação sugere. É um modo de iludir o tempo e uma maneira de criar uma armadilha humana. O romance de Valter Hugo Mãe foi publicado em 2010, quatro anos depois de “O remorso de Baltazar Serapião”, e dez anos antes da pandemia Covid-19. E se falo deste último sobressalto é porque, com o seu quê de antevisão, estamos confrontados nesta complexa narrativa com o que se tornou um universo concentracionário imposto por uma catástrofe que atingiu sobretudo os mais velhos e os lares onde foram confinados. E a pandemia condenou duplamente os habitantes destes lares que a “feliz idade” representa – confinou-os, proibiu-lhes o contacto com o exterior, e deixou-os mais vulneráveis, já que se tornaram bodes expiatórios de uma estranha peste, com que ninguém sabia lidar. Se isto não existia quando Valter Hugo Mãe escreveu, a verdade é que, lendo bem todos os sinais presentes no seu relato, tudo parece anunciado nas linhas e entrelinhas. E o clima sentido no romance, em vez de se ter atenuado, só se agravou – com os mais velhos a ser vistos como pesos-mortos e dispensáveis. Se os progressos da medicina permitem antever que em breve poderemos ter uma esperança média de vida próxima dos cem anos nos países ditos ricos, fica-nos uma certeza: a de que estamos cada vez mais longe da qualidade de vida, nesses armazéns de unidades dispensáveis com o prazo ultrapassado. E o ambiente da pandemia agravou tudo, e deixou a dignidade cada vez mais esquecida.


Vejamos o caso de Silva. Ele não se esforça por se adaptar à “feliz idade” – e a amargura pela ausência de Laura é cada vez maior. Sente intensamente o declínio das forças e do entusiasmo. E não sente sequer o gosto por lembrar os bons momentos que viveu, nem por criar novas oportunidades boas. A ausência é muito dura e o tempo produz os seus efeitos. Os corvos negros atacam-no à noite, e vão regressando sistematicamente, simbolizando a passarada negra o tempo que se esgota. Mas há o contacto com os companheiros do confinamento. A palavra confinamento foi produto da última peste, mas o romancista descreve-a, sem falar dela, por antecipação, nas condições concretas de uma existência absurda.


DE QUEM FALAMOS?
Quem são, afinal, os companheiros? O Pereira, os médicos, os enfermeiros, chamem-se eles Américo ou Doutor Bernardo. Deparamos com uma permanente coexistência da realidade e do sonho, de figuras concretas, de personagens de ficção e de quem tem uma existência ao mesmo tempo real e fictícia – Anísio Franco, Inspetor Jaime Ramos, Silva da Europa e um Esteves a transbordar de metafísica. São estes os participantes da história de uma sociedade doente, mas que todos teimam em não entender. A “feliz idade” é um “admirável mundo novo” ainda mais incompreensível do que todas as distopias e do que todas as utopias. O que existe e o que não deve existir misturam-se amargamente. Silva insiste na injustiça de se manter vivo. “Com a morte, também o amor devia acabar. Ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutria pela pessoa que deixou de existir”. Na relação com os outros, o outro é o que nos completa e nos define. Mas a vida e o mundo reservam-nos surpresas.


O ESTEVES SEM METAFÍSICA
Eis o ponto em que encontramos, fora dos tempos e das circunstâncias verosímeis, Esteves, o “homem sem metafísica”, que o inesperado Fernando Pessoa, ou melhor, Álvaro de Campos, introduz no desenrolar dos encontros deste “confinamento”. É uma estranha aparição, sobretudo porque este Esteves transborda de metafísica., por ser uma projeção de Álvaro de Campos. “O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?) / Ah! conheço-o: é o Esteves sem metafísica. / (O Dono da Tabacaria chegou à porta) / Como por instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. / Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves! , e o universo / reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu…” Num pequeno clarão, a literatura parece preencher o tremendo vazio. Por momentos, a melancolia dá lugar a conversas risonhas, irónicas, como se houvesse um regresso às traquinices de crianças e jovens… Falam da dona Leopoldina e da dona Marta, fazem partidas, olham com sarcasmos tudo que os cerca. Num ápice, sem esquecer a angústia, surgem fragmentos da existência e de um certo fulgor… Mas sucedem-se lembranças da barbearia, num tempo em que se falava baixo e em que havia a PIDE e a necessidade de a iludir. Mas a polícia desse tempo usava artimanhas que levavam a que alguém, depois de salvar um jovem contestatário, fosse obrigado por razões do diabo a denunciá-lo e a condená-lo. “Salazar foi como uma visita que recebemos em casa de bom grado, que começou por nos ajudar, mas depois não quis mais ir-se embora e que nos fez sentir visita sua até que nos tirou das mãos tudo quanto pôde e que nos apreciou amaciados pela exaustão”. Ah! as lembranças misturam-se e há um sabor amargo. A melancolia do ambiente junta-se à decadência física – apesar da possibilidade de encontrar aspetos novos que permitam reencontrar uma razão de ser… Tudo isto por entre as visitas periódicas da passarada negra. E assistimos à morte do Esteves, com um ataque de felicidade, enquanto a emoção assenta na procura da razão. Sem esquecer a angústia, há motivos sérios para morder a vida e tentar iludir a perda…É precisar “deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia”… E no ambiente de perda e de ausência sucedem-se as características de quem somos: “deus é uma cobiça que temos dentro de nós”; “somos um povo de caminhos salgados”, “lugar de gente desconfiada”, com “a promoção da beleza de se ser pobrezinho”. Que importa a “feliz idade”? Praticamente nada. “Não sou nada. / Nunca serei nada. Não posso querer ser nada / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Ao longe ouvimos Almada a dizer provocatoriamente – “Se o Dantas é português eu quero ser espanhol…” Bernardo Soares, mal compreendido, liga o seu patriotismo apenas à língua portuguesa e a nada mais e Eduardo Lourenço enaltece a “maravilhosa imperfeição”. O Esteves sem metafísica trazia agarrada à sua pele esta voz crítica. E então aparece-nos um companheiro essencial, Enrique de Badajoz de Portugal – o espanhol que quer ser português. E a ausência de metafísica do Esteves da “Tabacaria” transforma-se em metafísica plena, transbordante. “Depois de comentar como poderia ser melhor a cidadania espanhola – na cabeça daquele homem (o espanhol) a tradição deste lado da fronteira cumpria mais adequadamente os seus anseios”. E entre os povos ibéricos surge uma relação de espelho. Enrique de Badajoz de Portugal quer ser português, considera-se mesmo português, em contraponto à máquina de fazer espanhóis do lado de cá. Afinal, a insatisfação é partilhada – e reforçam-se mutuamente os sentimentos aparentemente contraditórios. Ser o outro torna-se um desejo intenso.


E ouvimos o Silva dizer finalmente (e escrevo maiúsculas porque estou a citar): “naquela altura eu queria gritar. Precisava de dizer que me arrependia, que não queria acabar sem metafísica, que me enterrassem com a metafísica e português. Arrependia-me do fascismo e de ter sido cordeiro tão perto da consciência, sabendo tão bem o que era o melhor valor, mas sempre ignorando, preferindo a segurança das hipocrisias instaladas. Eu precisava gritar dizendo que queria morrer português, com a menoridade que isso tivesse de implicar”. A angústia tem a ver com o apelo contraditório. O pedido é claríssimo e chamava-se dignidade – “não me tirem a consciência do amor e da sua perda”… E Valter Hugo Mãe coloca-nos deste modo perante quem somos e perante todos os nossos mistérios, profeticamente.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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