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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  

De 14 a 20 de fevereiro de 2022


A “Temporada de Portugal em França - 2022” ou “Saison du Portugal en France” abriu este fim de semana com o concerto da Orquestra Gulbenkian na Philarmonie de Paris, com Maria João Pires e a inauguração das Três Graças de Pedro Cabrita Reis nas Tulherias. A versão deste ano da “Noite das Ideias” constituiu um excelente aperitivo relativamente à Temporada Cultural Portugal-França.


RECONSTRUIR A EUROPA… 
Na Fundação Gulbenkian, Isabel Mota e a Embaixadora Florence Mangin deram a tónica, salientando a importância da cooperação e do intercâmbio cultural. E o antigo Comissário Europeu e atual Presidente da Câmara de Lisboa Carlos Moedas pôs a tónica na importância do tema proposto para os debates: “(Re)construir em conjunto uma Europa mais justa e mais unida”. Daí a referência a três objetivos urgentes, ainda condicionados pela crise pandémica: exigência de proximidade das pessoas; aposta na ciência; e atenção à cultura. Não por acaso, recordou o “Ensaio sobre a Desintoxicação Moral da Europa” de Stefan Zweig, enviado pelo escritor austríaco para o Congresso sobre a Europa, organizado pela Fundação Volta, da Academia de Itália, em novembro de 1932. O texto é premonitório, mas então poucos o ouviram. E que afirmava? “A situação moral da Europa é preocupante pelo peso de um ódio belicoso que prevalece sobre uma paz frágil. Uma desconfiança mútua entre os europeus e a recrudescência do nacionalismo fazem, temer o regresso do caos da guerra e os traumatismos do primeiro conflito mundial”. E Zweig dizia que, mais do que política ou diplomática, a resposta a dar deveria ser cultural. E assim preconizava um ensino da História que privilegiasse os elos culturais e não as guerras, não apresentando os povos como inimigos, bem como a criação de uma Universidade Europeia, a mobilidade dos estudantes num programa semelhante ao atual Erasmus (mas que envolvesse também o ensino secundário) e a existência de uma comunicação social europeia, visando uma opinião pública informada – a partir de uma “geração vigilante”, e de uma elite que conhecesse os países, as línguas e os costumes dos outros, com a missão de preparar um futuro de paz… Eis o que hoje continua a estar em causa para respondermos à incerteza. E o conjunto dos debates e reflexões dessa noite, permitiu pôr em comum e em diálogo cientistas, pedagogos, sociólogos, historiadores, filósofos, juristas, politólogos. Longe de soluções ou receitas, tratou-se de pôr a tónica nos novos problemas – desde a democracia e do confronto de culturas, até à necessidade de superação de ressentimentos e incompreensões… 


LEMBRANÇAS HISTÓRICAS
A Temporada Cultural Portugal-França constitui exemplo significativo de uma cooperação que vai ao encontro de uma nova perspetiva nas relações culturais entre os dois países, centrada na vivência comum do projeto europeu e na necessidade de lhe dar um conteúdo participativo e mobilizador. Não esquecemos as raízes históricas muito antigas que chegam às origens da nacionalidade e à consolidação da independência portuguesa, desde o papel desempenhado pela Casa de Borgonha e pelos beneditinos de Cister ou pela duquesa D. Isabel de Portugal, filha de D. João I e mulher de Filipe, o Bom, até à intervenção do Cardeal Richelieu na Restauração de 1640, às Luzes, ao apoio do rei Luís Filipe de Orleães, durante a Monarquia de Julho, à causa liberal de D. Pedro e às origens da I República… Há um longo caminho que explica uma ligação cultural multifacetada, complementar da antiga aliança luso-britânica. O espírito europeu esteve, assim, bem presente na afirmação cultural portuguesa em vários momentos da nossa história, sendo reafirmados no século XX no movimento migratório, e hoje pela importância das novas gerações de descendentes de portugueses, com novos horizontes e oportunidades. Eis por que razão o desafio do Presidente Emmanuel Macron, em 2018, na Fundação Gulbenkian, surge como natural, correspondendo a uma afirmação de vitalidade europeia, num momento mais importante do que nunca, de compromisso e partilha. A “Temporada Cruzada”, comissariada por Emmanuel Demarcy-Mota, Victoire Bidegain di Rosa e Manuela Júdice, inscreve-se na continuidade das presidências portuguesa e francesa da União Europeia constituindo oportunidade para sublinhar a proximidade e amizade que ligam os dois países. Procura-se pôr em relevo a excelência dos nossos artistas, pensadores, cientistas e empresários na perspetiva do reforço e renovação das bases da cooperação em aspetos prioritários para a juventude dos dois países: preservação do meio ambiente, energias renováveis, economia responsável, urbanismo humano, agriculturas alternativas, a fim de demonstrar que estamos preparados para inventar soluções para os desafios contemporâneos.


UM PROGRAMA VARIADO
A Temporada inicia-se com o concerto de abertura, a 12 de fevereiro, em que a Orquestra Gulbenkian se apresentará, com Maria João Pires, na Philarmonie de Paris. E com este momento especialíssimo poderemos referir a exposição do Centro Pompidou, que juntará o escultor Rui Chafes, o cineasta Pedro Costa e o fotógrafo Paulo Nozolino, que se somam à instalação, nas Tulherias, no jardim do Museu do Louvre, de uma obra monumental de Pedro Cabrita Reis, intitulada As Três Graças. Invoca-se ainda uma muito fecunda intervenção em França, desde os anos cinquenta, simbolicamente assinalada na mostra de Tesouros da Coleção Gulbenkian, realizada em coprodução com a Coleção Al-Thani no Hôtel de la Marine, em Paris. Acresce o programa destinado a promover exposições de artistas portugueses em França, com uma retrospetiva dedicada a Maria Helena Vieira da Silva, referência fundamental do panorama artístico europeu, bem como as apresentações individuais de Pedro Barateiro, Francisco Tropa, Carla Filipe, além de uma exposição coletiva com Mónica de Miranda, Sérgio Carronha, Rita Sobral Campos e Musa Paradisíaca. É de especial importância a apresentação da exposição “Tudo o que eu quero – Artistas portuguesas 1900-2020”, comissariada por Helena de Freitas e Bruno Marchand, realizada em 2021, com assinalável êxito na Gulbenkian, em Lisboa, no âmbito da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, que não pôde ser apresentada em Bruxelas, no Bozar, como previsto, em virtude do incêndio entretanto ocorrido na capital belga. Agora, a presença em Tours permite o contacto, ao vivo do público francês e europeu, com um notável acervo de primeira qualidade, que demonstra o caráter pioneiro de um conjunto significativo de mulheres artistas portuguesas. As artes performativas serão também contempladas na ação da Gulbenkian, através do apoio aos Festivais d’Automne e Chantiers d’Europe. Entretanto, será apresentada em Lisboa, a partir de março a mostra “Europa, Oxalá”, vinda do MUCEM de Marselha, com curadoria de António Pinto Ribeiro, de Kátia Kameli e Aimé Mpane Enkobo, que apresenta cerca de 60 obras de 21 artistas com origem nas antigas colónias em África, nascidos e criados em contexto pós-colonial. O carácter inovador e transnacional do trabalho «pós-memória» marca profundamente o panorama artístico e cultural das últimas décadas, conjugando linguagens contemporâneas e processos tradicionais. São os valores de hoje e de amanhã a estar presentes. 


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença