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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 19 a 25 de setembro de 2022


João Manuel Duque, autor de “Dizer Deus na Pós-Modernidade” (Alcalá, 2003), recebeu o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes. Damos conta das palavras que proferiu na cerimónia de entrega do galardão.
 


O CONFRONTO COM A TECNOLOGIA
Na cerimónia de entrega do Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, o teólogo João Manuel Duque, agraciado este ano, afirmou estarmos perante a tentação da prevalência de posições extremas, na relação entre a humanidade e a tecnologia entre quem sonha “com uma espécie de divinização do humano através da sua transformação e transfiguração tecnológica, e da demonização da tecnologia”. Essas duas atitudes correspondem, porém, a um mesmo deslumbramento (e submissão) relativamente às inovações da tecnologia, tantas vezes sob o esquecimento do carácter permanente e irrepetível da humanidade. No fundo, importa saber qual o impacto dos recursos digitais e da internet sobre as sociedades e as pessoas. A vontade, a autonomia, a consciência e o livre arbítrio não podem deixar de estar presentes nesse confronto. Daí a necessidade de distinguir os fins e os meios. A pessoa humana e a dignidade estão no domínio dos fins, enquanto as tecnologias, a inteligência artificial e os robôs se encontram no campo dos instrumentos, ao serviço das pessoas.  


Importa debater, “de forma mais equilibrada o impacto antropológico da tecnologia e as transformações que comporta, seja a nível psíquico seja a nível social”, sendo impossível pensar os humanos reais do nosso tempo sem essa dimensão. Nesse sentido, “o discurso teológico não é, em primeiro lugar, apenas para ambientes eclesiais”, devendo as comunidades que aí se movem “estar permanentemente envolvidas e interessadas nas questões significativas da humanidade, sobretudo naquelas que tocam a convicção fundamental do que seja humano e do que seja o seu sentido sobre a Terra”. A teologia deve, por isso, “falar para fora, a partir de dentro, e falar para dentro a partir de fora. E isso não como alternativa”, mas sim num movimento permanente de vaivém, envolvendo quem se move dentro e fora dos meios eclesiais. De facto, a ideia de um dentro e de um fora da Igreja – ou do mundo – é problemática, por ser rigidamente dualista. “Distinguir é benéfico e mesmo necessário; mas separar é, normalmente, prejudicial ou mesmo perigoso”. Urge deste modo, evitar a confusão entre o humano e o divino, assim como nunca poderemos separá-los, como mundos diferenciados e à parte. O pensamento teológico exige, assim, uma inserção cultural. Por isso, a teologia que se pratica entre nós é uma teologia contextualizada na Europa, devendo, no entanto, ainda considerar-se a sua relação com o resto do mundo.


PENSAR-NOS NA RELAÇÃO COM OS OUTROS
Para João Manuel Duque, estamos perante dois desafios: “pensar-nos em relação aos outros, diferentes de nós; e pensar-nos nos dinamismos internos” da Europa, onde nos encontramos. Quanto ao primeiro aspeto, estamos perante a possibilidade de desenvolvimento de uma fértil relação com a América Latina, África e Ásia, em cujos contextos o impacto do pensamento que podemos designar como “decolonial” sobre a teologia se torna evidente. Já quanto ao segundo aspeto, há dois caminhos possíveis: por um lado, a relação da teologia com a política de acolhimento do que é diferente e outro, nomeadamente na questão das migrações e dos refugiados. Uma teologia completamente alheia a esta questão seria uma teologia incapaz de compreender a realidade. Complementarmente, no caminho alternativo importa compreender a relação da teologia com o mundo da cultura, nomeadamente com o mundo das artes, no sentido mais abrangente da criação. E então estamos perante fatores desafiantes, que procuram interpretar o mundo que nos cerca, através de formas que se aproximam do discurso teológico.


QUE PÓS-MODERNIDADE?
Quando João Manuel Duque escreveu “Dizer Deus na Pós-Modernidade” (2003), Eduardo Prado Coelho considerou tratar-se de uma obra referencial que merecia uma especial atenção. Para o autor, “sendo a teologia de sempre uma tentativa, simultaneamente renovada e inculturada, de articular Deus num discurso humano, a teologia contemporânea – pelo menos no mundo dito ocidental – não poderá ser outra coisa, senão a constante procura de dizer Deus na pós-modernidade. Mas a abordagem do espaço e tempo culturais, considerando o mundo que habitamos em termos de ‘pós-modernidade’, exige ainda uma elaboração crítico-reflexiva vasta e alargada”. Por isso, esboçar uma teologia na pós-modernidade pressupõe a análise atenta da cultura e do pensamento pós-modernos, “tarefa a que nenhuma teologia atual pode esquivar-se, quer venha a enfrentar esse contexto de forma radicalmente crítica, quer pretenda torná-lo fértil no seu próprio interior”. Assim se compreende a referência e a atenção dada a autores como Hans Urs von Balthasar, na consideração do amor como plenitude metafísica; Eberhard Jüngel, ao referir a morte de Deus por amor; Johann Baptist Metz, interrogador das histórias da História; Jean-Luc Marion, estudioso da superação da idolatria metafísica; e Georg A. Lindbeck, que se preocupa com os limites da intra-textualidade. Isto, sem esquecer H.-G. Gadamer, com quem compreendemos que “o intérprete tem o dever de entrar em diálogo com a realidade de que se fala nas narrativa”. E assim a hermenêutica é sempre dialética, visando a compreensão do texto teológico e sempre a necessidade da compreensão de si mesmo. E temos de lembrar ainda Nietzsche e a tensão que existe com o cristianismo, no tocante ao facto de Deus poder ser mediador da afirmação do homem e o homem mediador da afirmação de Deus. No fundo, o trabalho de uma teologia pós-moderna é imenso, quer se trate da desconstrução de perspetivas modernas ou mesmo pré-modernas, quer se trate do desaparecimento de categorias que se nos tinham tornado habituais, que se trate da redescoberta de temáticas ou perspetivas já antigas e algo esquecidas pela modernidade.


Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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