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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  
De 27 de novembro a 3 de dezembro de 2023


No centenário do nascimento de Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), invocamos a sua obra multifacetada, designadamente «Os Insubmissos» (1961), além da poesia e ensaio, onde se encontram as raízes da cultura e a compreensão da importância da emancipação humana.


“A Primavera vem dançando / com seus dedos de mistério e turquesa / Vem vestida de meio dia e vem valsando/ entre os braços de um vento sem firmeza // Nu como a água o teu corpo quieto e ausente / Só este inquieto esvoaçar do teu sorriso /Loiro o rosto o olhar não se mente / se de tão negro e parado é um aviso / do destino que me fixa finalmente / Ai, a Primavera vai passando / com os seus dedos de mistério e de turquesa / Segue Primavera vai cantando / Que será do nosso amor nesta praia de incerteza” – ouvimos o poeta Urbano Tavares Rodrigues e relacionamos o tema com a sua vitalidade criativa.


Filho de proprietários agrícolas alentejanos nas imediações de Moura, o escritor nasceu em Lisboa a 6 de dezembro de 1923. O Alentejo marcou-o profundamente na beleza da paisagem, na força da natureza, no culto do sol e da luz e na tomada de consciência das injustiças e da pobreza, das desigualdades e dos contrastes. O Baixo Alentejo marca-o, ligando velhas tradições republicanas e a emergência dos movimentos sociais emancipadores. "Por um lado, recebi a oralidade e a magia das conversas dos camponeses, por outro lado, tive uma relação muito próxima com a natureza, com o rio onde aprendi a nadar, com os cavalos [...] tudo, a lua, as estrelas, as árvores, os animais eram-me muito familiares. [...]ao longo dos livros [...] quando volto ao Alentejo, creio que é quando eu encontro uma certa qualidade lírica e mágica da linguagem". Em Lisboa, depois de frequentar o Liceu Camões, vem estudar Românicas para a Faculdade de Letras, aí iniciando uma carreira académica. Entre 1949 e 1955 leciona em França, nas Universidades de Montpellier, Aix-en-Provence e Sorbonne - Paris. Casa-se com a romancista Maria Judite de Carvalho. Uma vez que tinha apoiado a candidatura de Humberto Delgado em 1958 é impedido de ensinar em Portugal e torna-se jornalista no “Diário de Lisboa” e professor no Colégio Moderno e no Liceu Francês Charles Lepierre.


Envolve-se na ação política, participando em diversas iniciativas de luta contra o regime, nomeadamente na designada Revolta da Sé (1959) e no assalto ao Quartel de Beja (1962). Em 1963 é preso no Aljube, sendo por diversas vezes detido às ordens da polícia política. Exilado em França, conhece os meios da emigração. De regresso a Portugal, após a revolução de 1974, foi professor na Faculdade de Letras, sob proposta de Luís Filipe Lindley Cintra, e será crítico literário, ficcionista, ensaísta e investigador. A figura de Manuel Teixeira Gomes, Presidente da República, Embaixador, escritor referencial na primeira metade do século XX, atrai-o especialmente, tornando-se um estudioso fundamental do autor para a compreensão da importância do cidadão e intelectual para a cultura de língua portuguesa. Autor de obras marcantes como Os Insubmissos, Bastardos do Sol ou A Estação Dourada, foi agraciado com inúmeros prémios literários que distinguiram a sua obra, como os prémios Ricardo Malheiros, Aquilino Ribeiro e Fernando Namora; bem como da Associação Internacional de Críticos Literários; da Imprensa Cultural; ou o Prémio Vida Literária — atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores; além do Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.


A título de exemplo, na antologia intitulada “A Estação Dourada”, Urbano Tavares Rodrigues reúne vinte e uma narrativas breves, escritas ao longo de uma década, e que, no seu conjunto, constituem uma perspetiva multifacetada da realidade contemporânea. O título da coletânea é tirado da narrativa inaugural e pode ler-se como uma celebração da estação estival, tanto no sentido meteorológico como simbolizando a maturidade, com os seus aspetos positivos, mas também com os seus reveses e dúvidas. O Sul está bem presente, quer na dimensão das planuras alentejanas, como no anúncio algarvia, que o autor aprendeu a conhecer e as amar, sob a influência marcante do Mestre Teixeira Gomes, exemplo de bom gosto e de talento, sobremaneira admirado por Urbano Tavares Rodrigues.


Numa obra vasta caracterizada pelo culto da poesia e da narrativa, pela paixão das viagens e da diversidade da natureza, o escritor escreveu ainda “Torres Milenárias”, “A natureza do Ato criador”, “O Mito de D. Juan e outros Ensaios de Escreviver” ou “O Texto sobre o Texto”. Como diz Fernando Pinto do Amaral: “Autor muito prolífico e sempre atento à evolução da sociedade portuguesa, Urbano Tavares Rodrigues partilha ainda com o neorrealismo evidentes afinidades ideológicas (…), mas inscreve-se já no quadro do existencialismo pela atenção que presta à interioridade de cada uma das personagens por vezes adensada em virtude de uma dimensão claramente erótica que acaba por individualizar o seu universo ficcional”. Falecido, em Lisboa, a 9 de agosto de 2013, aos 89 anos, é um autor a que hoje regressamos com a possibilidade de continuarmos a reviver uma experiência literária com qualidades … A língua torna-se expressão de sentimentos e compreendemos a como a existência apela a uma permanente emancipação.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença