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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 22 a 28 de janeiro de 2024


A transição do século XIX para o século XX foi marcada pela experiência dos chamados “Vencidos da Vida”.


A CHEGADA DE UM NOVO REI
O reinado de D. Luís chegava ao fim. O rei tinha a saúde seriamente afetada e o Príncipe Real D. Carlos preparava-se para lhe suceder. Segundo a voz corrente, o jovem considerava essencial a renovação do pessoal político. As ideias de Oliveira Martins e da “Vida Nova”, que Anselmo Braamcamp partilhara, agradavam-lhe. Havia um mal-estar geral pela prevalência de interesses instalados e pela uma inércia bloqueadora. Oliveira Martins vem para Lisboa no início de 1888 e assume da direção do jornal “Repórter”, sucedendo a Pinheiro Chagas. Há boatos sobre o papel do historiador na nova situação, ele que interviera decisivamente na criação da nova Régie dos Tabacos, continuando empenhado como deputado na defesa da indústria nacional e dos direitos dos trabalhadores, sendo convidado, para surpresa de alguns, para assistir em Belém ao primeiro aniversário do filho primogénito de D. Carlos, D. Luís Filipe.


No Verão de 1888, o conde de Ficalho proferiu na Câmara dos Pares uma crítica severa à situação política, advogando uma ideia reformadora à semelhança da defendida por Oliveira Martins no Porto. “Não compreendo isto de andarmos a lançar o descrédito uns sobre os outros, nem as lutas de um dia e as reconciliações do dia seguinte, nem a utilidade do argentarismo exótico que se estabeleceu entre nós”. O alerta somava-se ao protesto devido ao impasse político partidário existente, de Oliveira Martins, António Cândido e Carlos Lobo d´Ávila, que se tinham declarado em silêncio no parlamento – sendo apelidados de “Amuados”. As palavras foram ditas no decorrer de um debate sobre a questão cerealífera, mas representou o tiro de partida relativamente à instituição do grupo que viria a ser designado como dos “Vencidos da Vida”. Os primeiros membros do grupo viriam a ser os referidos parlamentares das duas câmaras – Ficalho, Oliveira Martins, Carlos Lobo d´Avila e António Cândido Ribeiro da Costa. Depois, a solidariedade política e intelectual alargar-se-ia a Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro e finalmente juntar-se-iam os elementos palaciano, próximos do Príncipe Real D. Carlos – Bernardo Pindela, futuro conde de Arnoso, conde de Sabugosa, marquês de Soveral e Carlos Lima Mayer. Sobre a atitude dos “amuados”, Oliveira Martins definiu-os deste modo: “Amuado é todo aquele que fala com franqueza; e sem se desligar dos seus, prefere dizer com modos o que sente, repugnando-lhe o papel de granadeiro numa companhia de pomerânios”.


UM GRUPO JANTANTE
A partir de então iniciaram-se as célebres reuniões jantantes. O significado político era óbvio, mas perante a suspeita de que se engendrava um novo partido político, o próprios negavam-no. E quando lemos o “Diário da Vida Nova” de Luís de Magalhães essa ideia prevalece. Seguindo a cronologia dos célebres encontros, verificamos que primeiro de todos os ágapes foi no restaurante Tavares e seguindo-se imediatamente ao discurso do Conde de Ficalho na Câmara dos Pares de 28 de junho de 1888, sobre a inaceitável paralisia da vida política. Logo em julho, Oliveira Martins, nas colunas de «O Repórter»: perguntava: «Por que não haverá um jantar semanal, um jantar alegre e até um bom jantar, a carta constitucional de um partido novo?». E a que se deve a designação de «Vencidos da Vida»? O autor de «Os Filhos de D. João I», ao ouvir, por esses dias, o seu vizinho do terceiro andar da Calçada dos Caetanos, Ramalho Ortigão, ler uma descrição sobre a voga parisiense dos jantares, achou que podia usar o exemplo. À semelhança do caso então referido da Villa de Médicis - «les uns glorieux, les autres battus de la vie» - eis que o historiador considera ser essa uma boa ideia para o novo grupo: Vencidos da Vida… É o «Tempo», jornal de Carlos Lobo de Ávila, que nos permite fazer o seu elenco fundamental. São onze as celebradas refeições dos “Vencidos”, apesar de poder ter havido outros encontros nas quintas dos arrabaldes de Lisboa, como o Retiro do Perna de Pau, no Areeiro na Estrada de Sacavém. Em 16 de fevereiro de 1889, juntam-se oito convivas em casa de Bernardo Pindela - Ficalho, Sabugosa, Ramalho, Oliveira Martins, António Cândido, Carlos Mayer e Lobo de Ávila. Em 10 de março, há jantar, com os mesmos oito, no Hotel Braganza. A 19, «os vencidos» encontram-se no mesmo hotel para acolher Luís de Soveral, recém-chegado de Londres, onde era primeiro secretário da Legação portuguesa. Em 26 de março, ainda no Braganza, recebem Eça de Queiroz, vindo de Paris, tendo Guerra Junqueiro justificado a falta, por se encontrar no Minho, aproveitando para enviar dois alexandrinos (“Onze da noite. Chega o telegrama, Tudo / Já neste Eden do Lima é silencioso e mudo, /Astros e bacharéis, rosas e vereadores”). Em 29 de março, foi a vez de Carlos Mayer oferecer o jantar em sua casa, a que também não compareceria Junqueiro… Nesta ocasião, Ramalho e António Cândido tocaram rabeca, tendo todos seguido para o S. Carlos, onde se cantava o «Otelo» de Verdi. Mas voltemos ao calendário: a 10 de abril, encontraram-se no Café Tavares e no dia 2 de maio regressaram a S. Domingos, à Lapa, a casa de Pindela.


VISITANTES INESPERADOS
Na semana seguinte, o regenerador António Serpa Pimentel foi convidado pelo grupo, para o Braganza (o que causou grande vozearia e especulação política). No dia seguinte, Jorge O’Neill convidou para sua casa, tendo faltado Junqueiro, Arnoso e Cândido. Em 14 de maio, houve jantar em casa do Conde de Valbom, com a presença de Junqueiro, Eça e Oliveira Martins, Pindela e Alberto Braga. E a 17 de maio, celebraram-se os 29 anos de Carlos Lobo de Ávila, em casa de seu pai, o Conde de Valbom, onde foi cantado, com versos de Sabugosa, o hino humorístico do grupo, com música da «Rosa Tirana» (“Aqui estão os dez vencidos, / Oh Carlos! / Tirano / Com presuntos escolhidos, / Trolaró, laró. Laró”). Por fim, a 21 de maio, houve novo jantar em S. Domingos, à Lapa, a que faltaram Ficalho e Sabugosa, que interromperia por ocorrência da vilegiatura o conjunto dos repastos. Esta é a lista coeva dos onze ágapes, tudo apontando, assim, para que tenha sido o dia 2 de maio de 1889 em que o fotógrafo Augusto Bobone (1852-1910) realizou as fotografias que chegaram até nós, nas quais apenas falta António Cândido. Há, pois, além destas só uma fotografia, realizada em estúdio, com a equipa completa dos onze membros, de que não temos indicação quando foi realizada em 1889. Eça referirá ainda um «jantar de Vencido» em Paris com Luís Soveral, na Maison d’Or, com bacalhau, após o que foram, com o Príncipe D. Carlos, visitar a Torre Eiffel, em 27 de agosto de 1889. E António Cândido dirá, em entrevista a Gomes Monteiro (ABC, 16.3.1922): «Oh! Os Vencidos da Vida! – como isso vai distante. (…) A ideia da formação do grupo surgiu um dia, espontânea, imprevista, entre uma colherada de doce e uma gargalhada de champanhe no restaurante Tavares, na rua Larga de S. Roque. Oliveira Martins lembrara o título Vencidos da Vida, que todos aplaudiram e, pouco depois, o Conde Sabugosa compunha uns versos que, com música da Rosa Tirana constituíam o hino do nosso grupo. (…) Soltando sempre as suas gargalhadas espirituosas e cáusticas continuavam a fazer servir jantares elegantes em que se chegou a gastar dezoito vinténs de pão e bacalhau e dezoito mil réis de champanhe…». E a «águia do Marão» lembrava ainda o jantar de despedida, oferecido a Antero de Quental, de finais de maio de 1891, no Tavares… «Pobre amigo! Parece-me estar a vê-lo… No seu olhar melancólico e profundo, em que se adivinhava a nostalgia do Além, pairava já a visão da morte que tão tragicamente o arrebataria. Pobre Antero!»…


Sabugosa (lembrado por Silva Gaio) disse, contudo, que o «vencidismo» era difícil de classificar. «Foi um estado de espírito originado de afinidades já existentes e das que uma convivência delas nascida, mais avolumou e multiplicou». E Eça recordou que os detratores talvez se irritassem pelo facto de se chamarem a si Vencidos «aqueles que para todos os efeitos públicos parecem ser realmente vencedores». Este, no fundo, é o grande tema. A cultura portuguesa do século XX foi profundamente marcada por esses homens que se chamaram de vencidos criticamente por causa daquilo que Eduardo Lourenço sintetizou: «interrogávamo-nos apenas pela boca de Antero e de parte da sua geração, para saber se ainda éramos viáveis, dada a, para eles, ofuscante decadência». Daí Unamuno ter considerado esse o nosso século de ouro. Não poderia haver fatalismo, mas sim sentido crítico, para que os mitos não se tornassem bezerros de ouro.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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