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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  
De 24 a 30 de junho de 2024


Publicamos hoje, quando iniciamos o “Disquiet”, uma carta imaginária a Eugénio de Andrade, invocando a sua obra. 


Meu Caro Eugénio de Andrade


Começo por lembrar o que um dia o meu amigo (permita-me que o trate deste modo) disse sobre Camões, e que constitui referência fundamental para compreendermos como a língua se faz através da vida dos seus melhores cultores. E se falo de vida, refiro-me ao testemunho de quem faz da literatura a essência da comunicação e do ofício.


«Foi Camões que deu à nossa língua este aprumo de vime branco, este juvenil ressoar de abelhas, esta graça súbita e felina, esta modulação de vagas sucessivas e altas, este mal corrosivo da melancolia”. Não poderia haver melhor apreciação, ligando o maior poeta da nossa língua à própria existência da língua como a mais intensa e pura expressão da nossa cultura.


O aprumo do vime branco representa o equilíbrio no uso das palavras, no que podemos considerar como a maturidade da língua na poesia, desde as origens dos trovadores, da decisão do rei poeta de tornar a língua vulgar em idioma oficial para legistas e tabeliães, até à lírica e à épica em “Os Lusíadas”. O juvenil ressoar das abelhas significa ouvir os passos de Leonor pela verdura, formosa e não segura. A graça súbita e felina vem do picaresco. A modulação de vagas sucessivas e altas põe-nos diante do Adamastor, mas também do juízo critico do saber de quem estava na praia, todo de experiências feito e do alerta contra a glória de mandar e a vã cobiça. Enquanto o mal corrosivo da saudade e da melancolia, do desejo e da lembrança desenvolve a tensão entre o drama e o sentimento, o passado e o futuro…


Por isso mesmo, estimado Eugénio de Andrade, pela sua sensibilidade e pela sua escrita, pôde tornar, por exemplo, a cidade do Porto, onde viveu, vindo da Beira Serra, ainda mais heroica, dramática e sentimental. Bem haja. Por um momento, percebemos, como a transparência se liga ao granito, à saudade e ao humor melancólico. «A transparência é aqui nostalgia: até a luz terá a cor do granito. Mas o granito é às vezes de oiro velho, e outras azulado, como o luar escasso que nesta noite de outono escorre dos telhados. Quando o sol, mesmo arrefecido, incide nos vidros, as mil e uma claraboias e trapeiras e mirantes da cidade enchem o crepúsculo de brilhos – o Porto parece então pintado por Vieira da Silva: é mais imaginário que real».


E, mesmo sem querer, ouvimo-lo como poeta na mais pura expressão da sua palavra: «É urgente o amor. / É urgente um barco no mar. / É urgente destruir certas palavras, / ódio, solidão e crueldade, / alguns lamentos, / muitas espadas. /É urgente inventar alegria, / multiplicar os beijos, as searas, / é urgente descobrir rosas e rios / e manhãs claras. / Cai o silêncio nos ombros e a luz / impura, até doer. /É urgente o amor, é urgente permanecer».


As palavras marcam, deste modo, a ligação íntima entre pessoas e pessoas, entre pessoas e lugares, e na sua obra, Eugénio, isso se sente com especial intensidade.


E não nos cansamos de o ouvir, dirigindo-se à palavra poética: «1. Sê tu a palavra, / branca rosa brava. / 2. Só o desejo é matinal. / 3. Poupar o coração / é permitir à morte / coroar-se de alegria. /4. Morre de ter ousado / na água amar o fogo. /5. Beber-te a sede e partir / - eu sou de tão longe. / 6. Da chama à espada / o caminho é solitário. / 7. Que me quereis, / se me não dais / o que é tão meu?». E como não recordar o modo como tem procurado o essencial: «Colhe / todo o oiro do dia / na haste mais alta / da melancolia»?


E tenho bem presente o que sempre nos disse: «É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela». E o nosso Eduardo Lourenço com a lucidez poética que bem conhecemos disse, melhor que todos: “Talvez a essência e o milagre dessa singular transparência, que tornaram a poesia de Eugénio de Andrade ao mesmo tempo a mais refinada e a mais popular do nosso tempo português, se cifre toda no facto de ser, na medida em que isso é possível, uma poesia sem sujeito. Poesia sem sujeito como o pode ser a do nosso contacto, impossivelmente inocente, com as realidades primordiais que nos inventam no ato em que as olhamos e nos devolvem sem mediação à nossa esquecida mas sempre presente condição celeste, a luz do sol, o fluir dos rios, o passar do vento, o ritmo das estações, a visão das árvores, o apelo dos frutos. Como se um Alberto Caeiro, realmente novo Adão antes da culpa (da consciência) se tratasse, foi quase irresistível inscrever o poeta de As Mãos e os Frutos na arcádia do paganismo poético moderno”. E o ensaísta reforça esta intuição. “Toda a poesia é ‘palavra no tempo’ sem dúvida, mas a do autor de Ostinato Rigore, de tão colada ao tempo, de tão íntima do instante e sua fulguração, mais parece, sem ser intemporal, uma como que sensível suspensão do tempo”.


Lembramo-nos da sua estreia de 1939 com “Narciso”, ainda como José Fontinhas, e de “Adolescente”, ou do encontro com António Botto, e sobretudo da publicação de As Mãos e os Frutos, com o auspicioso reconhecimento de Jorge de Sena e de Vitorino Nemésio. José Saramago resumiu com felicidade o lirismo dessa poesia, que se singulariza por uma permanente referência ao corpo, a que chega através de um depurado caminho de aperfeiçoamento da palavra. Ficam na memória As Palavras interditas (1951); Ostinato rigore (1964); Escrita da terra e outros epitáfios (1974); Limiar dos pássaros (1976); Memória doutro rio (1978); Matéria Solar (1980); Ofício de Paciência (1994); O Sal da Língua (1995); ou Os Sulcos da Sede. Cada uma destas palavras constitui exemplo de uma maturidade poética conquistada num permanente exercício digno de uma oficina de artesão… O mesmo se diga na prosa: em Rosto precário (1979) ou À sombra da memória (1993). E em 2001, veio, com inteira justiça, o Prémio Camões, graças a uma obra segura e consistente, como de primeira grandeza na poesia portuguesa do século XX.


Em carta de junho de 1949 (leio a “Correspondência - 1949-1978 entre Jorge de Sena e Eugénio de Andrade”), Jorge de Sena foi muito claro a propósito de As Mãos e os Frutos: “Não sei se alguma vez lhe disse da estima que a sua poesia me merece, pela categoria autêntica, tão diferente do que a nossa desvairada geração tem produzido (…). Lembro-me que, em tempos, o acusaram de desumanidade. Não encontro, todavia, senão uma pagã humanidade; e mais vale uma humanidade assim, que só se importa com o que liricamente toca, do que fingir sentimentalidades oportunas”. Estou de acordo e julgo que ao longo do tempo tem-no demonstrado. O curso do tempo confirmou e afinou essas qualidades e a coerência.


E devemos recordar Montaigne: “l’essentiel est dit: deux êtres singuliers se rencontrent et comprennent en un éclair, que leur vie ne sera plus jamais comme avant». E o Eugénio fala dos Amigos com especial cuidado: «Os amigos amei /despido de ternura/ fatigada;/uns iam, outros vinham, /a nenhum perguntava /porque partia, /porque ficava; /era pouco o que tinha, / pouco o que dava, / mas também só queria / partilhar / a sede de Alegria / - por mais amarga». É La Boétie que vem à lembrança, já que não existiria na nossa memória sem o testemunho admirável do amigo Montaigne: “parce que c’était lui, parce que c´était moi!”.


E devo dizer, caro Eugénio, que a sua humanidade se exprime bem no diálogo com Dario Gonçalves, ao mesmo tempo, causa e consequência de muitos de seus versos. Passou a ser, de facto, uma espécie de afinador de palavras e fonte de inspiração. O piano poético em que o intérprete toca torna-se naturalmente mais legível.


Leia-se o postal de outubro de 1987 sobre uma viagem do Porto até Ribatua. Aí se nota a proximidade e a cumplicidade de uma partilha quase perfeita de sentimentos e de sensações. “Querido Amigo. Retomo a tradição dos postais em viagem. Saímos do Porto atrasados, comemos bogas fritas, já perto do Pinhão, e mal chegamos a casa, por volta das quatro, o Laureano acendeu o lume e aqui me tem à lareira a escrever-lhe. Só para lhe dizer que tem de ter cuidado consigo, que tem que alterar o seu ritmo de vida, essas correrias tiram-lhe anos de vida e eu quero que V. dure muitos anos, porque a sua amizade me é preciosa, além do livro sobre o Porto».


E voltamos ao mal corrosivo da saudade e da melancolia, ao desejo e da lembrança que desenvolve a tensão entre o drama e o sentimento, o passado e o futuro… E interrogo-me sobre as “Espadas da Melancolia”. Aqui está o corpo e pergunto-lhe se não é a essência da sua humanidade que aqui se encontra, como Jorge de Sena reconheceu.


“Um corpo / para estender a náufragos – o teu corpo. / Um rasto de cadelas aluadas, / um charco de maçãs apodrecidas / ou longas cabeleiras apagadas // Não dizias palavras, ou só dizias / aquelas onde o rosto se escondia. // Palavras onde o sangue não abria / a corola de fogo à madrugada. // O azul não canta, a água morre / na mais secreta boca do teu corpo. // Aqui não brilha a terra, a luz é fria, / aqui o horizonte não respira. // Não havia vento: só medo e cobardia”.


É esta a realidade humana, contraditória, duvidosa, mas próxima. Sem ilusão, importa entender que o lirismo nos obriga a ouvir a história trágico-marítima, e que esta também reclama o picaresco. Não acha, caro Eugénio de Andrade, que todos temos em nós um pouco do aventureiro Fernão Mendes Pinto? E a sua paixão pela língua que nos une e o seu amor camoniano obrigam-nos a ligar tudo isto, compreendendo que, como disse ainda o nosso querido Eduardo Lourenço – “Eugénio de Andrade, nascido já para cá de Pessoa, reinventou o canto dessa aparência (com que só em sonhos Pessoa comunicava) tornou-se puro olhar, escuta atenta do milagre do mundo, fez do universo seu espelho, aceitando-lhe o brilho da superfície e a sua sombra. É o poeta do mistério em pleno dia: ‘Claridade sem repouso, ó claridade, / aguda nos juncos, nas pedras rasa.”


Caro Eugénio, não é fácil descortinar a realidade humana na sua integralidade. Para os mais distraídos até parece que a humanidade está ausente quando deseja torná-la evidência. Mas basta ler atentamente e ouvir as palavras realmente ditas para não ter dúvidas. “Ama / como o rio sobe os últimos degraus / ao encontro do seu leito”.


Por isso, chamei para junto de nós Eduardo Lourenço, com a preocupação de ir além das aparências. Ele tinha toda a razão. Ao interrogar o mistério da realidade, o Eugénio tornou puro o olhar, como escuta atenta do milagre do mundo. “Estou de passagem: / amo o efémero”. E tenho de lhe agradecer, como leitor fiel, essa sua capacidade única. E por isso não esqueço: “Assim eu quero o poema: / fremente de luz, áspero de terra / rumoroso de águas e de vento”. Desse modo deve ser.


Eis por que lhe fico eternamente grato, evocando a busca do que está para além da superfície do tempo: “De palavra em palavra / a noite sobe / aos ramos mais altos // e canta o êxtase do dia”.


Aceite, assim, um abraço do admirador que o não esquece


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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