A VIDA DOS LIVROS
De 21 a 27 de julho de 2025
Assinalamos hoje o centenário de Isabel da Nóbrega, referência marcante da literatura portuguesa contemporânea.

Isabel da Nóbrega evidenciava-se pelo olhar penetrante que tudo captava, que tudo dominava, como se pudesse ler no interior das coisas e das pessoas. Quando ao lado de Maurício de Oliveira e de Mário Neves participou na fundação de “A Capital” em 1968 trouxe consigo uma já longa experiência literária de Os Anjos e os Homens (1952); O Filho Pródigo ou o Amor Difícil (teatro) (1954), peça representada no Teatro Nacional D. Maria II e sobretudo o romance Viver com os Outros (1964); prémio Camilo Castelo Branco da Sociedade Portuguesa de Escritores. Óscar Lopes saudara com entusiasmo o romance de Isabel da Nóbrega, afirmando que revelava “um equilíbrio estético entre nós invulgar. A narrativa sugere um grande, um inesgotável conhecimento dos casos e das coisas vividas, textos religiosos e literários, terminologias científicas, problemas de casuística familiar, conhecimentos colhidos em campos heterogéneos de convivência ou de informação que os jornais não registam, colhidos em viagens, leituras e arte, uma fina perceção de motivações, sobretudo femininas. Eis uma classificação exemplificativa do senso da realidade que o livro mobiliza. Até as frequentes referências a escritores, artistas e outras personalidades portuguesas vivas contribuem para a sua densa aura de verosimilhança, de sincera inserção social”. Tudo isto era novo e representava uma lufada de ar fresco no panorama nacional.
Conheci Isabel da Nóbrega como uma verdadeira tecedeira da língua portuguesa e da vida cultural, sedenta de vitalidade e ar puro. Ela própria afirmava: “todas somos tecedeiras. O tear é-nos entregue à partida (…), a trama da nossa vida – o desenho, o ponto e o bordado esses são connosco”. Compreendeu deste modo o que Jorge de Sena pensava: “O intelectual é quem em nome da inteligência e da cultura resiste. Mas não esqueçamos que muitos outros resistem sem serem intelectuais”. A resistência e a sobrevivência (de que falaria Nuno Júdice) na vida do comum dos mortais eram a sua matéria-prima. E assim escolheu o campo de batalha, para um combate singular e autónomo, em nome da libertação da literatura e de todos, onde a mulher tinha o necessário lugar. Para Isabel, a resistência era uma atitude natural. Quem a conheceu não poderia ser indiferente a essa sua garra, a essa sua determinação.
Desde muito cedo, encontramo-la em ação. Trabalhou na rádio, assinou milhares de crónicas, porque desse modo ela fazia da vida do dia-a-dia a matéria quotidiana. Assim, escreveu nos jornais: “A Capital”, “Diário de Notícias”, “Diário de Lisboa”, “Jornal do Fundão”, “Vida Mundial”, “O Jornal”. Consciente da importância da televisão, criou na RTP “O Prazer de Ler” e “Largo do Pelourinho”, em nome do prazer da leitura. Logo aos 17 anos lançou as bases duma família, mas escolheu como meio de intervenção um combate emancipador. Gostava de citar Aragon, e podemos dizer que esse foi o seu lema – “Mon orgueil est d’avoir aimé! Rien d’autre”. Teve sempre uma especial atenção ao universo feminino, com caráter de urgência, com sentido pioneiro e profético. E ouvimo-la a recordar as primeiras lutadoras desse combate, Elina Guimarães ou Cristina Cunha. E sem hesitações perguntava “E nós em que ano vivemos?” Com essa pergunta punha na cidadã e no cidadão comuns a reflexão sobre o atraso em que vivíamos, nos costumes, nas leis, no reconhecimento essencial da dignidade pessoal. E insistia; não se prega a paciência, nem a resignação, mas o estudo, o trabalho, o desenvolvimento de todas as capacidade, incluindo a da lucidez. Ao olharmos as fotografias de Isabel é a luz que sentimos no seu olhar, na sua força. Quando a vemos ao lado de Sophia de Mello Breyner, de Menez ou de Ruben A. sentimos a extraordinária presença de uma luminosidade criadora. “Assustas-me Aninhas! Ao observares assim as pessoas com esse teu olhar grave e redondo, de mocho, pobre humanidade que somos nós, deixas-nos esmagados, não?” – lemos em Viver com os Outros.
Augusto Abelaira fala de Solo para Gravador (1979) como uma viagem e um convite para não sermos espectadores distantes, para sentirmos as pessoas por dentro. Ver o íntimo de cada um nós, eis a preocupação permanente de quem considerava a literatura um poderoso fator de descoberta da liberdade. Em toda a sua vida levou os leitores e as leitoras a aproximarem-se com simpatia dos livros (que tanto amava). Tudo isso era sereno e natural. O correio dos leitores foi um domínio que cultivou e que lhe interessou especialmente – como aconteceu também com Clarice Lispector. A leitura das suas respostas é extraordinária – procurando, como grande pedagoga, mesmo os leitores mais distantes e resistentes. A cada passo procurava a compreensão dos outros com argumentos de inteligência. “Reparem (confessava), nós mulheres temos uma luta de sobrevivência que custa o dobro da dos homens. O nosso estatuto de seres entendidos (ou consentidos), na sua totalidade, é conquistado dia-a-dia, século a século, palmo a palmo”.
Isabel da Nóbrega era uma leitora insaciável. Não esqueço o seu combate pelo Campeonato da Língua Portuguesa (que gostosamente partilhei), inspirado em Bernard Pivot. A qualidade da língua, não como ofício de gramáticos, mas como dever de cidadãos, foi sempre uma prioridade da sua ação – como salientou Margarida Calafate Ribeiro. Leu Proust, amou Proust e Tolstoi, mas (como disse num dos seus contos) compreendeu bem Angelina, que não tinha lido “À la Recherche”, para quem o mais importante era o tempo em que os lilases a transportavam ao jardim da sua infância. Era a lembrança da velha casa de Campo de Ourique, infelizmente desaparecida, que nos vem à memória, como recorda Ana Maria Magalhães. E eram as Angelinas deste mundo que ocupavam o espírito de Isabel, mais do que as pessoas que tinham bibliotecas, importava as que começavam a amar simplesmente os livros. Na sua escrita há assim uma atenção permanente à mulher e à criança. No Jardim da Estrela quando passava pela pequena escola Freubel, o primeiro jardim de infância, lembrava o direito elementar a brincar, com o difícil caminho de reconhecimento que exigia, pois pressupunha a garantia à vida digna. Afinal, Isabel da Nóbrega continua entre nós, uma vez que viveu e pensou na emancipação de todos pela cultura, pelas artes, pelos livros, pela consciência dos outros e pela força poderosa da beleza e dos lilases.
Guilherme d'Oliveira Martins
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