A VIDA DOS LIVROS
De 28 de julho a 3 de agosto de 2025
Assinalamos hoje a atualidade da Música Popular Portuguesa, através da evocação de Sérgio Godinho.

Nos anos sessenta e setenta do século XX a música popular portuguesa de intervenção foi buscar as suas raízes à tradição trovadoresca, bem como ao Cancioneiro Geral e a Camões. Houve, assim, uma confluência de fatores que se enriqueceu graças ao aguilhão crítico de um tempo que anunciava transformações e a necessidade da liberdade. O programa Zip Zip, de Raul Sonado, Carlos Cruz e Fialho Gouveia, foi um sinal positivo que valeu em si muito mais pela distensão e abertura que representou do que outras tentativas de índole política que não se concretizaram, bloqueadas pelas hesitações marcelistas. O caso português no campo artístico prestava-se especialmente, até pela situação colonial, reconhecendo a importância cultural do escárnio e maldizer, bem como do picaresco, como reconheceu António Tabucchi, em complemento do lírico e do trágico-marítimo. A censura, explícita e implícita, constituiu um alerta mobilizador que não impediu o estabelecimento de um clima de preparação democrática, apesar da radicalização do final do consulado de Marcelo Caetano.
O caso de Sérgio Godinho, poeta e cantor, nascido no Porto no ano do fim da Guerra é significativo. Originário de uma família de melómanos, com apenas 20 anos de idade, deixou a licenciatura em Economia e partiu para a Europa. Na Suíça, estou psicologia e pedagogia e foi aluno de Jean Piaget. Partindo depois para França, viveu os acontecimentos de Maio de 1968 e integrou a produção francesa do musical “Hair”, onde esteve dois anos. É desse tempo o conhecimento de outros músicos portugueses, como Luís Cília e José Mário Branco. Em 1971 fez “Os Sobreviventes”, proibido três dias após a sua edição. Apesar de proibido, o disco foi eleito «Melhor disco do ano» e obteve o prémio da Imprensa para «Melhor autor do ano». Em 1972 é o tempo de “Pré-histórias”, onde se inclui o célebre tema de “A noite passada”, colaborando com José Mário Branco no álbum “Margem de Certa Maneira”. Em 1973, já no Canadá, onde se casa com Sheila Charlesworth, sua colega na companhia “The Living Theatre”, integra-se na Comunidade hippie de Vancouver, onde toma conhecimento da Revolução portuguesa. Já em Portugal, em plena Revolução, edita “À Queima Roupa”, um grande sucesso de vendas e de popularidade. “Com um brilhozinho Nos olhos”, “O primeiro dia” e “É terça-feira” tornam-se verdeiros hinos de Abril. O cantautor torna-se participante e protagonista da nova filmografia, como na banda sonora de “A Confederação” de Luís Galvão Telles ou na canção-tema do filme de José Fonseca e Costa “Os Demónios de Alcácer”, onde intervém como ator e cujo tema é incluído no álbum “De pequenino se torce o destino” (1976). A banda sonora do filme de Fernando Lopes “Nós por Cá Todos Bem” inclui relevante participação de Sérgio Godinho (1977). O quinto álbum “Pano-cru” foi editado no ano seguinte e em 1979 sai “Campolide”, que viria a ser premiado como o melhor álbum de música portuguesa desse ano.
Em 1980, volta a colaborar com José Fonseca e Costa no clássico “Kilas, o Mau da Fita”, obra referencial do pós-revolução. “Canto da Boca” foi também editado nesse ano, tendo recebido o prémio de "Melhor disco português do ano" da Casa da Imprensa, além do Sete de Ouro para o "Melhor cantor português do ano". Em 1983, “Coincidências” realiza uma parceria de Sérgio com Chico Buarque de Holanda, Ivan Lins e Milton Nascimento. Seguem-se “Salão de Festas”, “Na Vida Real” e “Aos Amores”, além de “Era uma vez um Rapaz” e do álbum infantil “Sérgio Godinho canta co os Amigos de Gaspar” (1988). Em 1990, o Instituto Franco-Português apresenta “Sérgio Godinho Escritor de Canções”, de que sairá um Álbum ao vivo. Na RTP 2 apresentam-se no Verão de 1991 seis programas com algumas das profissões menos conhecidas do mundo da música: letristas, instrumentistas, encenadores, técnicos de som e produtores. Em 1992, realizou três filmes de ficção, com o título genérico “Ultimactos”,produzidos para a RTP (1994). Escreveu ainda “O Pequeno Livro dos Medos”, para crianças, que ilustrou. São de 1993 o disco “Tinta Permanente” e o espetáculo “A Face Visível”.
Em 2013, Sérgio Godinho gravou o disco Caríssimas Canções que resultou de uma série de crónicas feitas para o “Expresso”, editadas em livro. 2014 foi ainda o ano de "Liberdade ao Vivo" e do livro de contos "Vidadupla" (2014). "Coração Mais que Perfeito" (Quetzal, 2017) foi o primeiro romance do escritot Sérgio Godinho. "Eu o que faço é tentar contar coisas, falar de coisas, fazer interrogações à minha maneira e saber que há pessoas que são tocadas por isso", sublinhou o poeta. Essas interrogações são "contos de um instante", como canta numa das canções do novo disco, e tanto podem falar de amor, como da situação do país e das incertezas do presente ("Acesso Bloqueado"). Em 2018, regressa com o disco de originais "Nação Valente". As letras são todas da sua autoria, mas em apenas duas é também autor da música: resultando as restantes composições de colaborações designadamente com José Mário Branco e Hélder Gonçalves.
A Música e a Poesia, o mundo do cinema e dos livros, eis uma ligação natural que nos enche de júbilo e proveito espiritual. Sérgio Godinho, na senda da poesia mais antiga que construiu e consolidou a cultura da língua portuguesa, é um exemplo que ultrapassa em muito o quotidiano dos acontecimentos. Chegamos, de facto, à vitalidade de uma língua multifacetada que nos leva até à essência da liberdade.
Guilherme d'Oliveira Martins
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