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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  
De 4 a 10 de agosto de 2025


“Muito para Além do Mar – Uma Nova História dos Descobrimentos Portugueses” de José Manuel Garcia (Presença, 2025) constitui oportunidade para compreender a gesta dos Descobrimentos a partir da realidade histórica e não de uma perspetiva idealizada ou de uma mera projeção dos acontecimentos na contemporaneidade.


ESTA PALAVRA DESCOBRIMENTOS
Antes do mais, importa tornar claro que a palavra Descobrimentos é utilizada pelos portugueses desde 1486, com o sentido de revelar e permitir o melhor conhecimento do mundo. Não se trata de fazer tábua rasa dos conhecimentos históricos de muitos séculos e de muitas culturas. Trata-se de assumir a perspetiva científica em termos de partilha de uma humanidade que toma consciência das responsabilidades comuns no tocante ao saber. Quando pensamos em cientistas como Pedro Nunes, Garcia de Orta e D. João de Castro estamos a considerar uma nova perspetiva de estudo e compreensão do que existe. Recorde-se que o Atlântico era desconhecido dos europeus, que sabiam mais da Índico e da Ásia do que daquilo que lhes estava mais próximo. Sobre o conhecimento, Camões disse melhor que ninguém “Não meças o passado com o presente” (Elegia, I). A História humana é sempre uma realidade complexa com claros e escuros, por isso torna-se essencial realizar um estudo rigoroso, capaz de abranger a complexidade, não abstraindo os passos positivos que são dados e que não podem esconder as análises de contexto, de enquadramento e as mentalidades.


A historiografia permite-nos, no fundo, entender as condicionantes diversas com que contamos, sincrónicas e diacrónicas. Ora, as orientações que os portugueses recebem quando vão para a Ásia são no sentido de estabelecer relações pacíficas com os indianos e com as outras populações asiáticas. A população muçulmana constitui uma exceção, em virtude de serem fortemente competitivos, dedicando-se ao comércio do Índico, em vantagem sobre os hindus, em virtude da existência para estes de castas, que dificultavam a organização do transporte marítimo. Se Afonso de Albuquerque nos é apresentado como terrível pelo épico, tal deve-se aos interesses divergentes dos portugueses com os muçulmanos, que correspondem às conquistas de Goa ou de Malaca e à evolução no Golfo Pérsico.


RAZÕES RELIGIOSAS E ECONÓMICAS
Há aspetos religiosos e económicos que prevalecem. O estabelecimento da feitoria de Calecute por Pedro Álvares Cabral, a influência portuguesa em Cochim, bem como a inexistência de resultados prévios da missão diplomática decidida por D. João II com Pero da Covilhã e Afonso de Paiva, tudo isso obriga ao estudo das diferentes condicionantes que determinam a evolução dos acontecimentos. As motivações das viagens são múltiplas e originalmente positivas. Antes do mais, há a curiosidade de conhecer novas realidades, mas as razões económicas tornam-se marcantes. A queda do Império Romano do Oriente, a conquista de Constantinopla pelos turcos, limitando as relações com o Levante e a Ásia tornam-se decisivos. Recorde-se que em 1453, ainda vivia o Infante D. Henrique, que morre sete anos depois. O fator religioso pesa indiscutivelmente. A cristianização do mundo tem importância. Mas a maior consequência é o vislumbre, pela primeira vez, de um mercado global. Daí falar Toynbee da era gâmica a partir de 1498. Assim, foram os descobrimentos “que constituíram a revolução que marcou a passagem da medievalidade para a modernidade”. Mas é a motivação económica que prevalece. Lembramo-nos da afirmação à chegada à Índia: “vimos à procura de especiarias e de cristãos”. Desde muito cedo, a comunidade de S. Tomé tinha-se estabelecido no sul do subcontinente indiano. A Rota do Cabo da Boa Esperança (a partir de Lisboa)  permitiu a realização do comércio diretamente com a população indiana, chinesa e japonesa sem a intermediação das caravanas.


ALÉM DO CABO BOJADOR
Depois de dobrado o Cabo Bojador, com o Infante D. Henrique rumando a sul, as navegações ganham condições de continuidade e financiamento através do ouro, da malagueta, sucedâneo da pimenta, dos escravos e do marfim. A partir das razões indicadas por Gomes Eanes de Zurara, desenvolve-se o que será designado como Plano da Índia de D. João II e D. Manuel. Foi D. Manuel o primeiro soberano à escala global. Lisboa tornou-se o primeiro grande centro de comércio mundial, tinha um poder à escala global – do Brasil até à China, à Indonésia, passando pela Índia e por África, Contudo a população portuguesa na Península Ibérica era apenas de um milhão e duzentos mil habitantes. A obra de José Manuel Garcia está organizadas em três partes – o espaço do Atlântico, o espaço do Índico e o espaço do Pacífico. O autor revisita os feitos emblemáticos dos portugueses desde o tempos do Infante D. Henrique até à chegada ao Japão, passando por grandes momentos como o descobrimento do caminho marítimo para a Índia, a chegada ao Brasil e a discussão das consequências dos Descobrimentos, nos planos nacional e global. Procura-se, deste modo, partir de fontes históricas credíveis e de provas consistentes para corrigir mitos e interpretações erróneas, evidenciando o significado universal da ação dos portugueses, designadamente na ligação entre povos e culturas no sentido do respeito e salvaguarda da dimensão universal da dignidade da pessoa humana. «Nos séculos XV e XVI, os portugueses, ao descobrirem o essencial da forma do planeta, criaram e estimularam uma rede mundial de rotas que passaram a ligar inúmeras regiões que até então não comunicavam entre si. Foram eles quem permitiu a realização de intercâmbios que marcaram a construção da modernidade, com todas a implicações inerentes a tal situação. Os Descobrimentos levaram à génese da economia moderna, a qual passa pela criação do mercado mundial”. Como lemos em Zurara, “a ideia era ultrapassar os limites do sabido e arriscar a revelação completa do mundo, sendo que o mais difícil foi começar, pois de seguida foi continuar empenhadamente e com esforço a arriscar ir sempre mais longe”. É importante ouvirmos Garcia de Orta dizer: Digo que se sabe mais em um dia agora pelos portugueses, do que se sabia em cem anos pelos romanos”. E no mesmo sentido, foi Pedro Nunes quem disse: “Não há dúvida que as navegações deste reino de cem anos a esta parte: são as maiores: mais maravilhosas: de mais  altas e mais discretas conjeturas: que as de nenhuma outra gente do mundo”.


Com grande cópia de informações novas, o autor, historiador com provas dada na Academia, dá-nos um panorama global que nos permite melhor perceber que a propósito dos Descobrimentos poderemos encontrar.


Guilherme d'Oliveira Martins