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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

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   De 1 a 7 de setembro de 2025

 

Ler Teixeira de Pascoaes nos dia de hoje é lembrar que o século XX português é ricamente multifacetado. Se Fernando Pessoa se tornou um símbolo, a verdade é que apenas é possível compreender a essência do português lendo os dois e confrontando-os com Raul Proença. Só uma visão de conjunto permite encarar a cultura portuguesa como plural e aberta, buscando o seu sentido universalista.

 

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Voltamos a encontrar Teixeira de Pascoaes como o inesgotável poeta que soube unir a lírica e a tragédia, como disse Unamuno. Nascido a 2 de novembro de 1877, dia marcado pelos astros, na freguesia de São Gonçalo de Amarante, morreu a 14 de dezembro de 1952 no Solar de Pascoaes em Gatão. Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos era filho de Carlota Guedes Monteiro e de João Pereira Teixeira de Vasconcelos, deputado às Cortes por Amarante e agricultor de boa fazenda, inesgotável conversador e conhecedor profundo das raízes culturais da língua e do povo. O filho era "homem cabisbaixo, sisudo, com uns olhos tristes e espantados", que fez o curso oficial no Liceu de Amarante, onde teve os seus primeiros versos publicados no "Flor do Tâmega", partindo em 1896 com 18 anos, para Coimbra, para cursar Direito. Ainda vivendo nas margens do Tâmega, com 17 anos, publicou no Porto "Embriões" (1895). E em 1896, já a estudar em Coimbra, editou "Bello", "Sempre" e "Terra Proibida", onde Jacinto do Prado Coelho nota “a imaginação do abstrato, o sentimento religioso das coisas, que tornariam inconfundível a sua poesia”. Convive com Augusto Gil, Afonso Lopes Vieira, Fausto Guedes Teixeira e João Lúcio, mas não vive a boémia coimbrã, já que, segundo Jacinto do Prado Coelho, «o verdadeiro amor de Pascoaes dirigia-se à natureza, ao silêncio, ao mistério, aos fantasmas. O mundo fantástico era o seu mundo." Em Amarante, começa a exercer advocacia, sem entusiasmo. Em 1906, abre escritório na Cidade do Porto, onde conhece Leonardo Coimbra, Raul Brandão, Jaime Cortesão e António Patrício. Em 1911, é nomeado juiz substituto na comarca de Amarante, cargo que abandonará, refugiando-se na Casa de Pascoaes, lugar de eleição, buscando uma vida solitária e sem sobressaltos, em sintonia com a Natureza, escolhendo "só ser poeta". Depois de 5 de outubro de 1910, com a proclamação da República, participou ativamente na ideia de ressuscitar a Pátria, preferindo a ideia de Renascença, arrancando-a do túmulo da obscuridade física e moral “em que os corpos definharam e as almas amorteceram”. Assim, Pascoaes dirigirá a revista "A Águia," entre 1912 e 1916, à frente de um grupo de intelectuais portuenses, sob a bandeira da “Renascença Portuguesa”, no qual se distinguem António Carneiro, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Álvaro Pinto e Mário Beirão. Debate com Raul Proença a natureza do projeto, e opta por uma ideia centrada no sentimento, enquanto o seu interlocutor aposta numa lógica prospetiva. A ideia de saudosismo, de uma saudade feita de lembrança e desejo, tornava-se urgente, até porque havia sido agravada pela humilhação do Ultimato inglês de 11 de janeiro de 1890. De algum modo, Pascoaes é um herdeiro da Geração de 70, na sensibilidade final de Junqueiro, procurando dar ao progresso geral da humanidade e da natureza uma orientação natural e positiva através da História, elevando à contemporaneidade o culto da saudade e da sua essência espiritual, como encontra arreigado na literatura lusitana, desde os trovadores, de D. Duarte ou de Bernardim, mas também de Francisco Manuel e Garrett.

O saudosismo não é, porém, marca única de Pascoaes. Veja-se, por isso, a relação do poeta de Amarante com os seus contemporâneos, segundo Onésimo Teotónio de Almeida. «Fernando Pessoa viu em Pascoaes uma “gravidez do Divino” e adotou várias facetas da sua visão ao elaborar o projeto da Mensagem». E António Sérgio distinguiu em Pascoaes sempre o poeta das ideias mítico-filosóficas. Tratando-o sempre com dignidade. Quase quarenta anos após a polémica do saudosismo, a Academia de Coimbra homenageou Teixeira de Pascoaes através de um volume reunindo poemas e estudos sobre o autor de Marânus. O organizador do volume, Joaquim de Montezuma de Carvalho, convidou António Sérgio a participar e este acedeu prontamente, para não faltar numa homenagem “tão justa”. Se tinha levantado reparos ao nacionalismo estético-psicológico-político, criou-se a lenda de Sérgio ser adverso “a um eloquentíssimo poeta que sempre admirei e amei”. A intelectualidade portuguesa rodeava Sérgio, e nos seus ensinamentos bebia inspiração para a almejada transformação da mentalidade do país. Se não custava a Sérgio ser magnânimo, não seria obrigatório que o fosse. As verdadeiras razões da sua participação na homenagem são-nos, todavia, fornecidas pelo próprio António Sérgio em curtos mas lapidares parágrafos. Sérgio considera que o maior defeito do nacionalismo estético de Pascoaes é ser muito injusto para o próprio poeta, por esbater nele o que há de mais “valioso e intrínseco”, algo mesmo excecional na poesia portuguesa, profundamente marcada pela melancolia. Em contracorrente, Pascoaes é “o mais romântico de todos os escritores portugueses na modalidade mais nórdica que o alto romantismo assumiu”. Além disso, a sua poesia é “um protesto contra o Deus demiúrgico, contra a Divindade criadora do Testamento Antigo”. “As dores de quem sente, Pascoaes transfere-as por imaginação para o conjunto das coisas que espontaneamente humaniza”, o que é também invulgar na nossa lírica. “Em tal grau se dá nele a transmigração para as coisas, que nos poemas mais íntimos, de mais autêntico lirismo, ele se esquece dos homens como seres individuais e distintos, como mais próximos do poeta, reduzindo-os a elementos do grande ambiente físico, que é a personagem capital da sua obra poética; e de aí o aparecimento deste verso estranho, à primeira vista inumano: “as pessoas são nada, e as coisas tudo”. O supostamente positivista Sérgio “revela a sua idiososincrásica luminosidade, separando de modo clarividente o que se analisa à luz da razão, do pertencente a esferas íntimas do espírito humano, sempre conservando a serenidade e o discernimento necessários para reconhecer a diferença” – como salienta Onésimo T. Almeida (A Saudade e os Saudosistas – Uma Revisitação da Polémica entre António Sérgio e Teixeira de Pascoaes, Via Atlântica, nº7, outubro 2004). Lembremo-nos da profunda admiração que devotou a Pascoaes Mário Cesariny de Vasconcelos. Segundo António Cândido Franco: Foi o perfil tolerante e dialogante europeu mais atento aos valores humanos que aos valores da técnica que muito contribuiu para o interesse que o livro “S. Paulo” despertou em países como a Alemanha, a Suíça, a Áustria ou a Holanda. É ainda esse perfil seco mas sábio, negativo mas aberto ao diálogo, que faz muito do interesse que o livro continua hoje a ter, e com ele a de toda a portentosa estirpe que a inaugurou”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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