A VIDA DOS LIVROS
De 8 a 14 de setembro de 2025
Mário Cláudio acaba de publicar “Cruzeiros de Inverno” (D. Quixote) que acompanha os dias finais de três personagens, procurando, de modo impressivo, revelar-nos as razões que acompanharam tais destinos.

Carlos Loureiro Relvas foi o segundo filho de José Relvas, o político republicano que proclamou em 5 de outubro de 1910 o novo regime da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. Nasceu na Golegã em janeiro de 1884 e frequentou em Leipzig o Curso Superior de Piano, vindo a tornar-se um intérprete dotado com um futuro promissor. A partir de 1911 acompanharia seu pai na gestão agrícola da Quinta dos Patudos, deixando assim a carreira de pianista profissional. A célebre Casa de Alpiarça está marcada, assim, pela sua fatídica presença, que constitui a base da primeira novela deste livro, uma vez que foi aí que o protagonista pôs termo á sua vida em condições misteriosas. “Sentado ao lado do pai, mas cada qual à sua secretária, Carlos Loureiro Relvas trilhava, com a segurança possível, a correspondente fortuna, o caminho da gestão de propriedades. Despachava além disso as diligências de que o progenitor o incumbia no respeitante à compra, à venda, ou à troca das antigualhas da prestigiosa coleção”. No entanto, isso era muito pouco, numa sucessão de gerações célebres: Carlos, avô e notável fotógrafo, o grande agricultor; o pai, o ícone da República nascente, diplomata celebrado, sombra que desejava marcar o futuro do filho. Sente-se a pressão paternal, algo doentia, sobre o jovem ex-pianista. Teria de arrumar-se e um casamento arranjado haveria de garantir a continuidade da dinastia. No espírito do jovem, porém, ouvem-se os acordes dramáticos da “Gôndola Negra” de Liszt. Todavia, “com o casamento previsto do ex-pianista o compositor ficaria liquidado, cadáver dentro de um piano silencioso, convertido em múmia que proferiria a sua maldição pelo abandono a que fora votada”. A correspondência de Carlos com o capitão Francisco Almeida Moreira revela o drama íntimo e a incompletude. E a catástrofe de 14 de dezembro de 1919, o tiro fatal que lhe atingiu o coração, deixou um nebuloso enigma. “A bala não lhe atravessou a têmpora, a punir o cérebro que pensara demais, mas varou-lhe o coração, a ordenar a fuga a um destino de contínuas palpitações”…
O segundo relato, traz-nos a memória de uma mulher extraordinária, cujo nome está assinalado na frontaria da casa da Calçada dos Caetanos onde viveu e morreu, que alberga um número extraordinário de recordações célebres, como não há mais em Lisboa. A “Menina Sentada” constitui o centro desta obra de Mário Cláudio. Ofélia Marques é o símbolo. Se Carlos Loureiro Relvas não foi indiferente aos “Ballets Russes”, que alguns viram com distância, a jovem artista participou ativamente nesse movimento imparável de renovação da Arte que invadiu a Europa e de que “Orpheu” fez parte integrante. Quando se descobre o conjunto da obra de sua autoria, desde as referências infantis até ao humor acutilante, passando pelos autorretratos, pela feminilidade sensual, além de um especial afeto pelos gatos, apercebemo-nos de uma sensibilidade única. Foi pioneira na frequência da Universidade e a sua relação com Bernardo Marques constitui uma referência no segundo modernismo. Na vizinhança de Fernanda de Castro e de António Ferro, aí existiu o “Soviete dos Caetanos”, como ficou conhecido esse ponto de irradiação cultural. No local de tantas alegrias e cumplicidades, ocorreria a morte trágica da menina artista, cujas ilustrações povoavam o “Panorama” e as revistas femininas, como a “Eva”, mas também as publicações infantis, como o “Abecezinho”. Chamada à pressa numa manhã habitual, a amiga subiu a escada sobressaltada e compreendeu o drama sem o entender: “Alguns dos gatos que a finada estremecia, e a que devotava cuidados patentemente maternais, enroscavam-se à volta da senhora imóvel (…) Fernanda de Castro tomou sentido do frasco desarrolhado, e do copo com um fundo de líquido, na mesinha-de-cabeceira e apropriou-se da droga com um rápido gesto, de quase cleptómana…” O médico legista escreveria na certidão de óbito, motivo da morte: ingestão de excesso de barbitúricos. Quando usufruímos dos desenhos gentis de Ofélia e Bernardo Marques não adivinhamos esse final pungente. Contudo, desde que o casal se separara, já Fernanda de Castro notava naquele segundo andar um clima de luto. Morta a artista, seguimos o relato do romancista de uma tentativa de reunir o seu espólio. E adivinha-se a própria existência de Ofélia. “A pintora divide-se assim entre as amigas do piso de baixo, frequentando-lhes as reuniões com fidelidade que roça a tristeza, e o grupo dos companheiros de Bernardo Marques, movendo-se num gregarismo menos difuso, e mais saudável. Proíbe-se de lhe relatar as surpreendentes extravagâncias, e as delícias imprevistas, dos encontros do andar inferior”. Aquele gineceu constituído por cultoras das letras e artes era um lugar de culto da poesia… Ofélia não se recompôs da separação de Bernardo, havia mil recordações e o vazio da maternidade. O tempo era inexorável. Um dia acreditou vislumbrar a mulher com quem Bernardo se casara. Todavia, “a outra não reparou, e de volta a casa, recomposta já, Ofélia subiu devagar os degraus, entreouvindo a recitação das estrofes, e o tinido das chávenas, nos aposentos da poetisa. Uma das gatas parira entretanto, e a pintora ajoelhou, a dispensar à bichana os cuidados, e a agradecer a Deus a preciosa dádiva”. Na noite fatal, numa manhã gelada de Dezembro, deixou duas cartas, uma para a irmã, recomendando-lhe os gatos, e a outra para o Bernardo de outros tempos: “Neste momento quero viver vinte anos atrás, se a imaginação me não atraiçoar”.
Hécate é a divindade grega dos mistérios e do submundo. Os cães são seus fieis servidores. A terceira novela está envolta de incerteza. Um velho Ministro, de existência real, está preso de um amor impossível, de alguém irremediavelmente condenado por uma doença fatal. O destino marca-o definitivamente. Apesar de ter sido influente, com um lugar indiscutível na História, com os louros de abrir o país ao mundo, vê-se no exílio perseguido pelos fantasmas de um labéu infamante e de um destino cruel. “Derrubou-o então a notícia da morte da noiva eterna, ocorrida na assética arrecadação de corpos para que alguém a despachara”. Isso condenou-o definitivamente à ausência de um sentido. E não há forças que permitam reerguer-se. Um quadro de Chagall fixa a atenção do antigo Ministro, “Les Amoureux de la Tour Eiffel”, que inspirará o seu ato final. Lançado no vazio, “saudoso do anjo impossível, bate no pavimento como demónio que jamais ganhará o Paraíso”.
Guilherme d'Oliveira Martins