A VIDA DOS LIVROS

De 29 de dezembro de 2025 a 4 de janeiro de 2026
«D. João II – Um percurso humano e político nas origens da modernidade em Portugal» (Estampa, 1991) da autoria de Manuela Mendonça constitui uma obra fundamental para compreendermos o papel do Príncipe Perfeito na História portuguesa.

Ao analisar a vida e a ação de um dos monarcas portugueses mais influentes, a autora apresenta em três partes o estudo exaustivo que realizou, baseado nos documentos disponíveis das Chancelarias. Na primeira parte aborda-se a figura do Príncipe D. João (1455-1495), filho de D. Afonso V e neto do infante D. Pedro das Sete Partidas, procurando acompanhar o seu crescimento, a educação e a formação recebidas, numa convergência de fatores diversos. A partir de 1475 a atividade do jovem apresenta uma proximidade crescente do governo do reino, tendo sido esse o ano que marcou o início da sua carreira política; primeiro como regente, depois como rei e de novo como Príncipe que acompanhou e ajudou D. Afonso V até ao final deste reinado. A segunda parte constitui o corpo fundamental da obra, onde se apresenta a ação política e institucional do monarca. A interpretação da atividade régia é feita em função de quatro grandes setores: Graça, Justiça, Fazenda e Administração. E essa ação é enquadrada em dois grandes momentos: as Cortes de Évora de 1481 e de 1490. Antes de mais, nota-se a situação caótica em que é recebida a Administração o que exige um plano de ação por parte do rei, verificando-se nas segundas já as alterações que o monarca conseguiu imprimir, segundo um novo estilo de governo, que se articula com uma novo método seguido na Europa. A terceira e última parte corresponde à etapa menos conhecida da vida do monarca (1492-1495), vergado aos desgostos e à doença, vendo cair por terra os mais importantes projetos que idealizara, cabendo-lhe preparar o futuro. Para a autora, foi, no entanto, neste período que nasceu o Príncipe Perfeito como fator afirmativo do projeto português. Como salienta o Professor Jorge Borges de Macedo, “o homem-rei aparece-nos ao lado e dentro da estrutura administrativa, no seu mais amplo sentido, nas suas transferências e negociações de forças que dão, em conjunto, a medida das suas possibilidades. Assim como encontramos o servidor que escolheu, permitindo determinar um critério de seleção (região, nobreza, fidalguia, recompensa de serviços, etc.), encaminhamo-nos para uma delimitação de um ‘partido real’. (…) E assim dentro deste seguro planeamento vão-nos surgindo as suas diferentes capacidades; toma sentido a sua ação, através dos indícios que a história estrutural apontou e que o homem-rei explora”.
O balanço feito em 1490 deixou o rei satisfeito, uma vez que a sua organização tinha resultado e eram os representantes dos povos os primeiros a considerá-lo. Se dúvidas houvesse basta lembrar a orientação seguida, após a morte de D. João, por D. Manuel que confirmaria a orientação seguida. A morte do Príncipe D. Afonso vai marcar decisivamente o período final da vida de D. João II. As relações entre o rei e a rainha D. Leonor vão conhecer dificuldades, considerando a existência do filho bastardo D. Jorge e as tentativas do rei no sentido de o nomear sucessor no trono. D. João compreendeu, porém, que não podia vencer na sua determinação. O confessor do monarca Frei João da Póvoa tê-lo-á chamado à consciência e far-lhe-ia ver que uma sucessão controversa poderia abrir uma crise no reino. De qualquer modo, nota-se claramente a lucidez do rei e a criação de condições importantes que permitiriam a D. Manuel prosseguir a sua própria política. Na ocasião da morte no Alvor, em que o rei não esteve acompanhado, discutiu-se a hipótese de envenenamento. Sem grandes provas, a autora não partilha essa hipótese, sobretudo pelo facto de D. João ser um rei suficientemente prevenido para se deixar trair desse modo. Mais por essa razão do que por outros motivos ligados ao comportamento da rainha, pareceria não ser a tese do envenenamento a mais provável.
Quanto ao perfil do rei, prevalecerá uma ideia positiva, bem expressa na opinião de Garcia de Resende sobre o “Homem”, assim definido pelos Reis Católicos, alegre, esperto, e perspicaz, de temperamento emotivo, ativo, secundário, embora com algumas características primárias, cheio de ironia e sagacidade, profundamente humano e afetivo, com um profundo amor ao seu povo, mas com sentido imenso de justiça, cuja expressão religiosa acompanhou em ritmo crescente o declinar da vida. “Príncipe Perfeito”, como governante completo, mas também como homem virtuoso, será a designação que se transmitirá às gerações futuras. Para Manuela Mendonça, o rei atua nas estruturas sociais, militares, económicas, administrativas e políticas. A personagem é simultaneamente o protagonista da história política e da psicologia histórica. E assim é um exemplo do seu tempo, mudando o paradigma de “rei provido de destino”, para o “rei provido de poder”. É já Maquiavel (1469-1527) que aqui encontramos, num tempo novo que este Príncipe assume de modo pioneiro e determinado.
Guilherme d'Oliveira Martins
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