A VIDA DOS LIVROS
De 19 a 25 de janeiro de 2026
«Liberdade Religiosa no Mundo – Relatório 2025» (Fundação AIS) constitui um documento de grande importância para o conhecimento da situação real da liberdade de consciência no mundo, num momento especialmente difícil nesse domínio.

Ao analisarmos o último relatório elaborado Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), apresentado no Centro Nacional de Cultura, verificamos que no período analisado do início de 2023 até ao final de 2024 houve graves violações da liberdade religiosa em 62 dos 196 países analisados, sendo que em 24 deles as violações foram classificadas como “perseguição” e em 38 como “discriminação”, sendo que estes países correspondem a cerca de 64,7% da população global.
Além destes, há ainda 24 outros países classificados “sob observação”, devido a uma “onda de sinais de alerta que ameaçam a liberdade religiosa”. Entre elas conta-se o aumento da intolerância, bem como a erosão das proteções legais, o extremismo religioso e a crescente interferência estatal na vida religiosa. Isto significa que 750 milhões de pessoas correm neste momento o risco de discriminação religiosa. Durante o período abrangido, apenas duas nações, o Cazaquistão e o Sri Lanka, apresentaram melhorias em comparação com a edição anterior. Na origem da crescente repressão religiosa está o “autoritarismo” como o principal motor das violações. Em 19 dos 24 países na categoria de perseguição e em 33 dos 38 países com discriminação, os Governos aplicam “estratégias sistemáticas para controlar ou silenciar a vida religiosa”. Na China, Irão, Eritreia e Nicarágua as autoridades utilizam tecnologias de vigilância, censura digital, legislação restritiva e detenções arbitrárias, visando comunidades religiosas independentes. “O controlo da fé tornou-se uma ferramenta do poder político”, sendo a “burocratização da repressão religiosa” cada vez mais sofisticada. Há ainda a expansão do extremismo religioso, em particular em África e na Ásia, em 15 países destes continentes.
A violência jihadista aumenta, adapta-se e desestabiliza a uma escala sem precedentes. Na região do Sahel, em África, grupos como o autoproclamado Estado Islâmico da Província do Sahel têm provocado a morte de centenas de milhares de pessoas, a deslocação de milhões e a destruição de centenas de igrejas e de escolas cristãs. Situações semelhantes são encontradas na República Democrática do Congo e Moçambique, onde a procura de estabelecer um “califado” tem legitimado tais ações. No continente asiático é sobretudo o nacionalismo étnico-religioso que impulsiona a repressão das minorias. Na Índia e em Myanmar é evidente o clima de perseguição. A discriminação é denunciada na Palestina, em Israel, no Sri Lanka e no Nepal. Na Índia ocorre uma “perseguição híbrida”, legal e articulada com a violência das multidões. No caso da Nigéria, os ataques de militantes fulani radicalizados atingiram igrejas, aldeias e clérigos, desencadeando deslocações em massa. No Burquina Fasso, Níger, Mali e na guerra civil no Sudão, “comunidades religiosas inteiras foram desenraizadas, os seus locais de culto destruídos e o património religioso eliminado”. Dos conflitos armados na Ucrânia, Sudão, Myanmar, Gaza e Nagorno-Karabakh têm resultado em “deslocações em massa, encerramento de igrejas e ataques dirigidos a comunidades religiosas”. Do mesmo modo, o crime organizado tem tido “sistematicamente como alvo os líderes e as comunidades religiosas” em Estados enfraquecidos ou falhados e em zonas de conflito. É o que acontece na Nigéria, Haiti e México, onde o crime é um dos principais impulsionadores da perseguição ou discriminação. Verifica-se ainda o “aumento acentuado dos crimes de ódio antissemitas e antimuçulmanos”, sobretudo após o ataque do Hamas em Israel, a 7 de outubro de 2023, e a subsequente guerra em Gaza.
“Os incidentes antissemitas e antimuçulmanos aumentaram em toda a Europa, América do Norte e América Latina”. Em França, os atos antissemitas aumentaram 1.000%, enquanto os crimes de ódio contra muçulmanos aumentaram 29%; na Alemanha houve 4.369 crimes associados ao conflito religioso, face a apenas 61 registados em 2022. Foram atacadas sinagogas e mesquitas e o discurso de ódio proliferou online. Face a isto, “em muitos casos, as respostas governamentais revelaram-se inadequadas, alimentando o medo e a insegurança entre as comunidades religiosas”. Só em 2023, a França registou aproximadamente 1.000 incidentes anticristãos, enquanto a Grécia reportou mais de 600 casos de vandalismo em igrejas. No Canadá, 24 igrejas foram alvo de fogo posto entre 2021 e o início de 2024. Há ainda novas formas de “perseguição digital” na “era da inteligência artificial”. Os grupos extremistas exploram ferramentas digitais para incitar à violência e difundir propaganda negativa e exclusiva e as redes sociais são utilizadas como armas para silenciar as minorias, difundir o discurso de ódio e alimentar a polarização. Duplamente vulneráveis, mulheres e raparigas de minorias religiosas, algumas com apenas 10 anos de idade, sofrem abusos sistémicos. A IA e as ferramentas digitais estão a ser utilizadas para reprimir grupos religiosos. Na China e na Rússia, a “dissidência online” é controlada e punida, enquanto as plataformas religiosas são bloqueadas. Na Coreia do Norte, os relatos citados no documento indicam que as autoridades aplicam um sistema agressivo de vigilância.
Como fica claro neste Relatório “a liberdade religiosa não é um privilégio – é um direito humano fundamental”. “Da região de Cabo Delgado, em Moçambique, ao Burkina Fasso, as iniciativas inter-religiosas demonstraram que a liberdade religiosa pode servir de base para a unidade e salvaguardar a dignidade humana. A educação desempenha um papel fundamental neste processo, promovendo a coesão social, afirmando a igualdade de valor de todos os indivíduos e capacitando os grupos minoritários, tanto a nível cultural como económico”.
Guilherme d'Oliveira Martins
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