A VIDA DOS LIVROS
De 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2026
«O Fim dos Estados Unidos da América» de Gonçalo M. Tavares (Relógio d’Água) é uma epopeia satírica e distópica que evoca um tema estranhamente atual sobre uma desordem mundial ditada pela evolução dos acontecimentos, que nos lembra a queda de impérios.

Tudo começa com a enigmática entrada da peste nos Estados Unidos da América, e a verdade é que a feitura desta epopeia greco-americana coincidiu com a pandemia COVID-19. Os protagonistas correspondem a caracteres bem conhecidos do mundo contemporâneo. Ted Trash é um extremista de direita com traços semelhantes a Donald Trump, Left Wing é um extremista radical de esquerda, ambos são responsáveis pela génese de uma segunda guerra civil no País. O herói da epopeia é Bloom, que tem um fim tremendo, ditado pelo destino de Édipo, mas vai tentar até ao fim salvar a América, inspirado na imagem de uma bela mulher mexicana, La Rosa, que conheceu num estádio de futebol americano. “Bloom acorda de manhã exaltado, elétrico / com essa forma de fadiga estranha – a de não suportar mais o momento anterior.». Em crescendo, a peste aparece e propaga-se. Josh é o primeiro doente da terrível doença. A enfermidade difunde-se a um ritmo alucinante. Bloom e o seu amigo Creonte deparam-se com a catástrofe. «Burgueses, no fundo, classe média, de outro planeta (…) teriam sido espalhados pelos diversos estados deste país e, sem o saberem, teriam trazido vermes de outra estirpe capazes de atacar o corpo humano no momento em que este, absolutamente distraído, olha para o lado oposto». Esta é uma teorias difundidas, mas outras surgem e disseminam-se. A tese dos ratos e ratazanas também se torna verosímil.
Há muitas tentativas de explicação: Donde vem a peste? Como se transmite? Quem atinge? Como combatê-la? O certo é que a doença vai dissolvendo as bases do império. O petróleo, o ódio, o pânico e a luta de classes encarregam-se da destruição gradual e inexorável da sociedade. Entre Nova Iorque e a Califórnia, Bloom, com o seu amigo Creonte, procuram encontrar uma salvação para o país e a cura para a peste. Mas Ted Trash e Left Wing contribuem para agravar a situação. A galeria de personagens é muito extensa, e nela podemos perceber como se desenvolve o desastre. Empreendedores, gangsters, políticos oportunistas, padres, coveiros, membros de seitas e grupos religiosos, hippies, professores universitários, médicos, especialistas em alquimia e em algoritmos – todos se encontram e desencontram para combater o caos. Mas falham na tentativa de compreender e de resistir. Assistimos, assim, a uma progressão incontrolável não apenas da própria peste mas também das tentativas fracassadas para lhe fazer frente. O escritor, ao caracterizar esta situação, analisa a complexidade do género humano, sobretudo numa situação desesperada. «A importância do automóvel para a paisagem mental americana: a gasolina, o motor instalam o passageiro na maturidade. Assim, pois, um cidadão se torna adulto e autónomo, ao volante. A que velocidade, em quilómetros/hora, o cidadão se afasta dos pais? Eis uma pergunta existencial e contabilística». Porém, há ainda o avião.
Entre a mitologia grega, a banda desenhada, os super-heróis e o cinema, a sociedade norte-americana manifesta-se entre o drama, a tragédia e a comédia. Bloom e Creonte já não acreditam no ofício do cientista: “esta peste pode vir não do século XXI mas de tempos antigos; doença mitológica que estranhamente ganhou força no século da maquinaria infinita”. Subitamente na cidade e New Jersey os mortos falam sobre o clima em redor de uma mesa de pé-de-galo… O espírito de Edison, mistura-se com Al Capone II, com a Máfia de Nova Iorque e ainda com Andy Warhol ou com o KKK. Ninguém se entende. E o interesse desta epopeia está em que o absurdo vem sistematicamente à tona, percebendo-se que é o desconcerto do mundo que está presente como na vida e na história. Estamos perante a essência do diálogo entre a ciência e a arte, o pensamento e a falta de senso. Se numa página poderemos sorrir, noutra encontramos “corpos pendurados nos semáforos; uma seita radical que mata pobres e negros, com nós de marinheiro e guindastes, usados de noite e às escondidas das empresas…”. No ar político há um líbido de violência, a divisão entre ricos e pobres agrava-se. Os pobres são indicados como fonte da peste. Medicina e loucura associam-se. A peste diminui. O ritmo de destruição também. Mas agrava-se o risco da guerra civil. Lançam-se achas para a fogueira que se atiça. Todos os negros passam, a certa altura, a ser classificados, por mera precaução, como potenciais portadores de peste. Nenhum rico morre da enfermidade. Pobres e negros passam a ser perseguidos. O ódio é crescente. Até que a peste acaba, mas a genética separa em definitivo pobres e ricos, como duas espécies diferente, que não conseguem procriar entre si. É o apocalipse que se evidencia, genético e atómico. Bloom desiste de ser salvador. A guerra dividiu o país em dois. E a pior das metades não vence, não empata, não perde, ou mata ou é morta. A guerra genética é avassaladora. Bloom está cego. La Rosa está grávida. Uma cidade desapareceu em dois segundos. O presidente diz solene: Este país nunca mais terá um único presidente e uma única espécie humana… E a epopeia chega ao fim como negação plena…
Guilherme d'Oliveira Martins
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