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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 2 a 8 de fevereiro de 2026


José Régio (1901-1969) autor de “A Velha Casa” (5 volumes, INCM) e de vasta bibliografia poética, romanesca e ensaística merece hoje ser recordado quer como mentor do segundo modernismo português quer como pensador que o tempo tem revelado como atualíssimo.


Ao lermos o texto com que iniciou a publicação da revista presença (10 de março de 1927) podemos compreender que José Régio foi uma figura marcante no panorama cultural português: “é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade a obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos mais (artistas ou não), certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente apresentados; como por exemplo: o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como é falsa toda a originalidade calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem originalidade própria”. Com o título significativo de “Literatura Viva”, o texto emblemático é esclarecedor, respondendo por antecipação a muitas das críticas e reparos que foram sendo feitos a Régio e ao papel que desempenhou. Passado tempo depois que nos deixou, ficou claro o que o próprio Fernando Pessoa reconheceria, em carta Alfredo Guisado, ao afirmar que a presença foi uma continuação de Orpheu e não uma reação a ele. Não se trata pois de uma demarcação, mas de uma reafirmação. O chamado segundo modernismo é assim um reconhecimento. Nemésio chamar-lhe-á “o lábaro de um novo rumo”. Não foi, pois, uma “travagem” ou uma tentativa de marcha-atrás, e é ilegítima a confusão que se estabeleceu a esse propósito. A presença pegou na bandeira e permitiu uma revisitação séria aos valores de 1915. Como afirmou David Mourão-Ferreira, uma releitura da revista torna “menos desculpáveis erros e preconceitos, equívocos e inexatidões que vêm sendo propalados…”. Longe de uma reação, temos o seu prolongamento e leitura esclarecida.

Ponhamos os pontos nos ii. José Régio e os outros fundadores da presença, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca procuraram tornar clara a importância de Orpheu. Há mesmo, nesse domínio, um antes e um depois da criação em revista. Se hoje o Orpheu se tornou um acontecimento mundial, tal se deve ao alerta e ao valor acrescentado trazido pela geração da presença. Não se trata, porém, de uma mera divulgação, mas de um foco de luz, com a capacidade de refletir e de repensar o impulso de 1915. Não foi uma mera operação de divulgação que pôde ter dado origem a um verdadeiro movimento, constituído pelo melhor dos dois modernismos e não apenas de um só. E nesse ponto José Régio (e também seu irmão Júlio) e todos colaboradores da revista deram um contributo próprio que permitiu (com as suas idiossincrasias) tornar o modernismo português um movimento duradouro. A personalidade de Régio, no seu todo, merece uma referência especial. Na presença ele é, para além da sua criação multímoda, a alma. Por isso, citamos o texto “Literatura Viva”, como algo que não advoga uma admiração passiva, mas uma continuação ativa. A personalidade de Régio não se resume à sua dimensão pessoal, mas prolonga-se no seu pensamento e na sua atitude. Apesar de confessar não ter vocação política, não deixa, por exemplo, por mãos alheias um pensamento cívico, social e político, que não esconde uma orientação. No final dos anos 40, depois da Guerra, acredita, por isso, num sobressalto democrático e colabora na candidatura de Norton de Matos: “Sempre tenho procurado marcar a minha atitude, sim – mas sem excessos nem destrambelhos”. Mas a censura do regime não o poupa (“parece que a censura embirrou particularmente comigo”). Tem uma relação próxima com António Sérgio, cujos ideais democráticos partilha. Contudo, diz “devo ser corajoso e…prudente”, atento o ganha-pão de professor. Lendo-se A Velha Casa, percebemos como esta “meditação romanceada sobre a condição humana” coloca o autor entre os que defendiam a liberdade, a abertura de espírito e um são espírito republicano e democrático. António Sérgio dirá a Régio, e ambos concordam: “O fim da política, para mim, é criar uma sociedade mais bela, e onde seja possível a todos viver o máximo tempo em atitude estética, em atividade desinteressada. Em vez de proclamar que só é humano o artista que se interessa pela política, direi que só é humano o político que se interessa pela arte e que busca a realização de uma sociedade em que seja possível o máximo de arte”.

Desde as suas origens, Régio é uma referência de artista e criador, ciente de como a cultura liga a arte e a cidadania. Em carta a Carlos Queirós dirá: “Sim V. tem razão: eu, aqui, tenho o mar! Nas manhãs de sol procuro os sítios desertos da praia. E rolo-me, entre as ondas e a areia – como um objeto que o mar desse à costa… Volto ao mar à tarde, e leio até escurecer (…). O mar, os livros e eu – não tenho outra companhia”. Estava-se em 1928 e o escritor sonha em lançar-se numa iniciativa marcante, que será a presença. Mas há sempre a magia da Casa, referência fundamental ao longo da sua carreira literária. Sobre Lèlito, seu alter-ego, confessará: “O que lhe mostrava a experiência é que ninguém, senão ele, sabia na casa como ela tinha personalidade própria; como dessa personalidade compartilhavam todos os aposentos, tendo, embora, cada um o seu aspeto funcional; e como não só a personalidade da casa era insubmissa às coisas e pessoas que a povoavam, mas antes acabava por pesar sobre os seus gestos, palavras, atitudes, sentimentos…” De facto, a alma de uma casa é uma essência que permite a compreensão da condição humana. Quando hoje recordamos José Régio, longe dos circunstancialismos em que viveu, fora das considerações sobre o sentido e o alcance dos seus atos, podemos avaliar em breves traços os elementos essenciais que definem o seu lugar na cultura portuguesa. Marcou de modo indiscutível o panorama da criação: afirmou-se como um escritor preocupado com a condição humana e com os caminhos para a interpretar e definir, a partir dos enigmas da existência, com as suas dúvidas e angústias e as das personagens que cria e encena; considerou a cultura como uma encruzilhada entre a herança e o património recebidos, sendo um colecionador e amante da arte criterioso e exigente; e ainda esteve no epicentro de uma revista e de um movimento cultural, o nosso segundo modernismo, em que a presença completou o Orpheu no sentido em que reconheceu a importância de Fernando Pessoa e dos seus, numa geração singularíssima, acrescentando um novo impulso que permitiu abrir caminho a novas tendências e gerações.   


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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