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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

   

De 2 a 8 de março de 2026


No primeiro centenário da morte de Camilo Pessanha, recordamos a publicação de “O Amor de Camilo Pessanha” (Elo, 2017) da autoria de António Osório, onde se dá conta de uma história notável sobre a relação entre o poeta da “Clepsydra” e a escritora Ana de Castro Osório.

 


Desenho de Mário Botas


 
À memória do meu amigo o Poeta António Osório

 
No centenário da morte de Camilo Pessanha, devo recordar as longas conversas que tive com António Osório, sobre uma notável história de amor entre a sua tia avó Ana de Castro Osório e o autor de Clepsydra. O episódio é pouco conhecido e tocante, exigindo uma leitura atenta do livro O Amor de Camilo Pessanha (Elo, 2017) do meu saudoso amigo. Depois de ter havido um desencontro de amores entre ambos, uma vez que Ana de Castro Osório estava comprometida para casar, anos mais tarde, em fins de 1915, reatou-se o convívio entre ela e Camilo Pessanha – que “jantava e seroava em nossa casa invariavelmente duas vezes por semana”, segundo o testemunho de João de Castro Osório. E é este que vai encarregar-se da recolha da poesia: «Comoveu-o ver que um rapaz de dezassete anos lhe pedia para repetir os seus versos de modo a poder escrevê-los, e que, ao fim da noite, lhe mostrava dois ou três dos seus Poemas para ele emendar qualquer erro de interpretação. Prometeu então Camilo Pessanha escrever em cada noite dos nossos serões de família um ou dois dos seus Poemas, até juntar todas as suas obras poéticas». E assim Ana assumiu o encargo da publicação dos poemas que recolhera «e dos outros que deveria enviar e se esperaram durante quatro anos, sempre em vão». Ana de Castro Osório tomou a iniciativa de publicar, em 1920, nas Edições Lusitânia, a Clepsydra. E em entrevista a Fernanda de Castro no “Diário de Lisboa” dirá: «De há muito conheço Camilo Pessanha. É um verdadeiro poeta e um verdadeiro sonhador. Mas é também um tímido e um misantropo». Na última carta de Pessanha para Ana, a 3 de junho de 1921, o poeta agradece tudo o que foi feito pela sua obra: «Acredite que foi das mais doces comoções da minha vida e da minha surpresa, ao ver assim evocada e acarinhada diante dos meus olhos a minha pobre alma – há tantos anos morta». Através de seu sobrinho António é que Ana de Castro Osório reatou o contacto com Camilo Pessanha, numa ida deste ao Hotel Francfort no Rossio, em 1915. No testemunho de António, temos recordação dos grânulos de ópio, que tomava nas deambulações de Lisboa e de como o poeta recitava nas ruas da cidade… «Camilo Pessanha possuía a musicalidade dos seus versos, como em estado natural. Da sua poesia, era ela a música essencial e suplicada. Recitando, dir-se-ia que acordara de uma abstrata melancolia para ser ele o choro, a tristeza, a emotividade e a dor dos seus próprios versos». Mas foi o ópio a danação do poeta. Ele fala mesmo de “tormento dessa horrível angústia fisiológica”. «O demónio da deceção foi realmente o demónio da sua vida, e não apenas o dos seus sonhos em Macau, com Ana próximo de si, em vez da misteriosa Águia de Prata, que o enganava e do seu “desgraçado filho”». E António Osório afirmava-me ainda saudosamente que das histórias de amor contidas na Histórias Maravilhosas de Ana nenhuma é tão impressionante como esta. 


Conhecemos a admiração de Fernando Pessoa pelo grande poeta e uma célebre carta para Camilo Pessanha: “Sou um dos diretores da revista trimestral de literatura ‘Orpheu’. Não sei se V. Exª conhece; é provável que a não conheça. Terá talvez lido casualmente alguma das referencias desagradáveis que a imprensa portuguesa nos tem feito. Se assim é, é possível que essa notícia o tenha impressionado mal a nosso respeito, se bem que eu faça a V. Exª a justiça de acreditar que pouco deve orientar-se, salvo em sentido contrário, pela opinião de meros jornalistas. Resta explicar o que é ‘Orpheu’. É uma revista, da qual saírem dois números; é a única revista literária a valer que tem aparecido em Portugal, desde a ‘Revista de Portugal’, que foi dirigida por Eça de Queirós. A nossa revista acolhe tudo quanto representa arte avançada; assim é que temos publicado poemas e prosas que vão do ultra-simbolismo até ao futurismo. (…) Os dois números não só se têm vendido, como se esgotaram, o primeiro deles no espaço inacreditável de três semanas.”


Para a compreensão exata da estatura cultural de Pessanha, recordo o que afirmou em junho de 1924 na Gruta de Camões, em Macau, numa oração inesquecível, que recordei no local há anos com Fernando Pinto do Amaral: «Tem-se debatido desde há anos a questão de se Camões residiu ou não em Macau, se esteve ou não preso no tronco da cidade, se aqui desempenhou ou pode ter desempenhado as apagadas funções de provedor dos defuntos e ausentes. (…). “É a Gruta de Camões, (contudo) com o seu cenário irremediavelmente mesquinho – mas suscetível, apesar disso, de correção em muitos dos seus defeitos –, esse lugar sobre todos prestigioso, dedicado ao culto de Camões, que é também o culto da Pátria. Culto e prestígio que não podem extinguir-se enquanto houver portugueses; e enquanto não se extinguirem, há de ser verdade intuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, meditou, em Macau, aqui tendo composto, em grande parte, o seu poema imortal, e que o local predileto aos devaneios do seu espírito solitário era essa colina, então erma, sobre o porto interior”. Ou seja, por muito que se discuta, a verdade é que Luís de Camões aí está e estará por direito próprio como verdadeiro símbolo de uma sensibilidade comum e de uma cultura viva. E a afirmação de Camilo Pessanha fica indelével na nossa memória.


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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