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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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De 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 2015.


Ulrich Beck (1944-2015) foi professor da Universidade de Munique e da London School of Economics e um dos mais importantes sociólogos contemporâneos, cuja reflexão é fundamental para compreendermos os erros e as saídas para a atual crise. «A Europa Alemã: De Maquiavel a “Merkievel”. Estratégias de Poder na crise do euro» (Edições 70, 2013) é um lúcido apelo crítico a uma resposta coerente e cosmopolita dos europeus.

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ENTRE COSMOPOLITISMO E SOCIEDADE DO RISCO
Ulrich Beck morreu inesperadamente. Se dúvidas houvesse, os acontecimentos de Paris com o ataque absurdo e bárbaro ao «Charlie Hebdo» demonstram que devemos ler com atenção, nas suas múltiplas consequências, as noções de «cosmopolitismo» e de «sociedade do risco» que estudou e desenvolveu. De facto, não basta a aceitação da tendência para a globalização, é preciso que a sociedade contemporânea compreenda que há uma prevenção indispensável de modo a superar os absolutismos identitários através de novas mediações sociais, que considerem a cidadania como um agente ativo da consolidação democrática. De facto, é a democracia que está em causa quando nos deparamos com o que o pensador alemão considerava serem as «cinco cegueiras» das políticas nacionais na era da globalização. Ao contrário de qualquer fatalismo ou atitude cínica, do que se trata é de criar defesas para a democracia, de modo que o poder político democrático prevaleça sobre o poder económico, que a coesão social e o desenvolvimento humano ajudem contra os fenómenos incontroláveis do terrorismo e da violência e que a segurança se construa através da justiça e da racionalidade. Ulrich Beck disse, assim, ser falso que não possa fazer-se política contra os mercados, uma vez que são as ações dos políticos que criam essa pretensa impotência, cabendo-lhes mudar de atitude. Do mesmo modo, não é possível pensar-se que uma mera gestão interna nacional seja suficiente ou eficaz – já que a subsidiariedade obriga a compreender que o Estado nação é pequeno e grande demais para responder aos problemas de hoje. Além disso, a mera lógica económico-liberal não responde aos riscos globais: crise financeira, mudanças climáticas, catástrofes ecológicas, e naturalmente o terrorismo. Daí Beck falar do que, com ironia, designa como «cegueira neomarxista», já que temos de tomar consciência da complexidade das mudanças, não resumíveis aos parâmetros tradicionais das forças produtivas e relações de produção: a transferência do poder do norte para o sul, do Atlântico para o Pacífico, do dólar para o euro ou a quebra de estatuto do velho centro euroamericano. E há ainda a ilusão tecnocrática, falsamente moderna, já que não podemos trocar processos por resultados, nem menorizar a importância do desenvolvimento humano, da liberdade e da democracia.


NA LINHA DE MAX WEBER
A timidez de muitas respostas europeias, a tentação de seguir a lógica de uma «Europa alemã», a incompreensão do movimento e das mudanças políticas e sociais podem contribuir para uma perigosa explosão de natureza incerta com consequências imprevisíveis. Uma «sociedade do risco» («Risikogesellschaft», 1986) não significaria, segundo o sociólogo, uma realidade geradora de medos ou receios inusitados, mas a compreensão de que a produção de riscos faz parte da vida moderna (Tchernobil, Bhopal, 11 de setembro, etc.). Trata-se da via para uma outra modernidade, que obriga a integrar a reflexão sobre o imprevisto nas ciências sociais (a começar na economia), em lugar de uma conceção ingénua do progresso ilimitado. A contingência, o acidente, a catástrofe que uma sociedade de escolhas e de limitação de perigos parecia ter abolido passaram a ser consequência perversa da evolução científica. Mais importante do que cair na ilusão de controlar esses riscos, urge saber lidar com eles e prevenir as suas consequências. Eis a lição de Ulrich Beck, que procurou atualizar a herança do mestre Max Weber aos tempos de hoje. Dir-se-ia, no entanto, que havia um certo sentido utópico nesta riquíssima investigação. A conclusão não é correta. Beck procurou reler os acontecimentos, afirmando que o crescimento excessivo dos Estados não deveria dar lugar à sua substituição pela mera lógica especulativa e mercantil, mas pelo reforço das iniciativas de solidariedade voluntária. Como disse Bruno Latour, reconhecendo tratar-se de uma imensa perda para a Europa em crise: «(Ulrich) imaginava a Europa das novas pertenças contra a Europa dos Estados – em especial contra uma conceção unicamente germânica ou francesa de Estado» («Le Monde», 7.1.15). Por isso, entendia que a Europa deveria repensar-se graças a novos entendimentos sobre o território e a identidade, que não sejam uma reconstrução obsoleta da velha soberania. A soberania partilhada de hoje obriga a centrarmo-nos na cidadania e na legitimidade do exercício – não confundível com novas formas de populismo e de demagogia, que dão campo à cegueira da idolatria do «bezerro de ouro» dos mercados, com as consequências bem presentes e conhecidas… Desde a crise financeira à barbárie, que matou Charb, Cabu, Wolinski e Tignous, passando pela prevenção da corrupção e pela atenção aos desastres ambientais – a «sociedade do risco» de Ulrich Beck corresponde à compreensão de que a ciência moderna dá espaço à surpresa e à inovação e que a incerteza, a mudança e o movimento são as bases do reforço da democracia, como domínio e aceitação da imperfeição e exigência de não desistir de uma sociedade melhor. E o certo é que o pensador apelava, nos principais jornais europeus, à inquietação deixando-nos uma pergunta por responder entre tantas dúvidas: Como é que o poder de transformação do risco global poderá transformar a política?


COMPREENDER A INDIFERENÇA NACIONAL
Longe da tentação das leituras apocalípticas ou da resignação perante os desastres, o filósofo defendia uma «modernidade reflexiva», centrada na responsabilidade – dos cidadãos e da sociedade. A noção de «cosmopolitismo» reencontrou-a em Kant, considerando-a como o melhor modo de responder ao desafio da mundialização, não com uniformização e indiferença, mas com a consagração da liberdade e da dignidade, referenciadas no primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos. «Os Estados cosmopolitas fundam-se no princípio da indiferença nacional» - afirma no «Der Spiegel». «Do mesmo modo que as guerras da religião tiveram o seu termo no Tratado de Vestefália do século XVII (1648) graças à separação entre o Estado e a religião, poderemos responder aos desafios das guerras civis mundializadas do século XX distinguindo Estado e nação». Essa seria uma das lições a tirar dos atentados terroristas de 11 de setembro, e de tudo o que depois temos visto. Daí a sua recusa de uma «Europa alemã» e da lógica redutora da austeridade (que o levou a falar de «Merkievel» e dos seus efeitos perversos). Voltamos a ouvir, assim, os ecos do célebre ensaio do filósofo de Königsberg sobre a «Paz Perpétua», centrados hoje num conceito atualista de democracia. Não se trata, afinal, de recusar as realidades sociais mediadoras, mas de contrariar que as mesmas se tornem modos absolutos ou fatores das cegueiras contemporâneas. Ulrich Beck recusou, assim, as «torres de marfim» dos intelectuais e a inércia das explicações acomodadas, considerando a necessidade de um novo contrato social baseado no reforço da democracia centrada na «sociedade do risco».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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