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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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De 23 de fevereiro a 1 de março de 2015


«Com o Sonho na Bagagem – Uma Viagem de Pirandello a Portugal» de Maria José de Lancastre (D. Quixote, 2015) é um livro precioso, onde se faz o relato da viagem a Portugal, em setembro de 1931, do escritor de «Seis personagens à procura dum autor» dá-nos um curioso retrato do País, longe das considerações vulgares.

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ENTRE GUERRAS…
Estamos entre guerras, sentem-se os ecos de uma crise económica grave, Salazar prepara-se para deixar de ser apenas ministro das finanças, António Ferro desdobra-se para dar uma imagem arejada da nova situação… Luigi Pirandello (1867-1936) é hóspede de honra no V Congresso da Crítica Dramática e Musical, a que George Bernard Shaw não comparece. O tema dos debates respeita (para nossa surpresa) à liberdade de opinião e à independência crítica. Sentem-se as contradições de um tempo de paradoxos. Ferro é o encenador da iniciativa num tempo em que parecia haver a ilusão de que a normalidade poderia ser recuperada sem sobressaltos. No entanto, no horizonte todas as nuvens negras se acastelavam, abrindo caminho à barbárie… Para o Congresso, Pirandello traz na bagagem «Sonho (mas talvez não)», que irá servir de pretexto para a autora recordar «O Marinheiro» de Pessoa, publicado no primeiro número de «Orpheu».
Delicioso é o relato feito pelo jovem poeta Carlos Queirós (aqui na pele de jornalista) da conversa que tem com Pirandello, numa viagem de táxi entre os Restauradores e o Hotel Palácio do Estoril. O Mestre estava fatigado e escusara-se a seguir para Alfama até à festa popular organizada por Ferro. Tinham acabado (sem especial entusiasmo) de ver o filme de Leitão de Barros «A Severa», antecedido pela exibição do documentário «Douro Faina Fluvial» do jovem Manoel de Oliveira, mal recebido pelo público, para estupefação do dramaturgo italiano... Carlos Queirós conta, com humor e inteligência, o ocorrido: «No Central, durante a exibição do filme “Douro” – que o crítico francês Vuillermoz declarou ter sido, como realização, a estreia mais auspiciosa que tinha visto – alguns espectadores, com uma lamentável incompreensão, ameaçaram patear. Pirandello, inclinando-se para trás, perguntou a um dos portugueses que o acompanhavam no camarote: “Porque estão a bater com os pés? – Porque não gostam. – Mas o filme é muito bom! – É verdade, mas não gostam… E Pirandello, com ar de quem acaba de reconhecer uma classe (talvez a lembrar-se do que aconteceu a algumas das suas melhores peças): - Ah! São os idiotas!...». Estava tudo dito. Sabemos que Oliveira estava suficientemente seguro de si, inspirado por Walter Ruttmann, e agora contava com o veredicto absoluto de Pirandello. José Régio disse de «Douro», na «Presença»: «Realizado num mínimo de condições favoráveis, é, além duma surpresa e duma audácia, um milagre de apaixonada persistência» e Adolfo Casais Monteiro foi perentório: o filme «inaugurava em Portugal uma nova época».


UMA VIAGEM ATÉ AO ESTORIL…
Mas retornemos à viagem para o Estoril. António Ferro pede a Carlos Queirós que acompanhe o Mestre: «Disse que sim. Pirandello classificou-me de muito amável, chamámos um táxi, e um minuto depois partimos a caminho do Estoril. (…) O Mestre sentou-se à minha direita, pediu ao “chauffeur” para apagar a luz, enterrou as mãos nas algibeiras e a pera na gola do sobretudo e… ficou-se». Carlos Queirós hesita, pensa não poder perder aquela oportunidade, mas sente-se constrangido. E é Pirandello que começa: «Estou a gostar muito de Portugal. Lembra-me um pouco a Sicília. Tenho pena de não assistir aos festejos populares, mas estou, na verdade fatigado. A viagem foi muito longa». Confessa dormir pouco, quatro a cinco horas por noite, levantar-se muito cedo, e estar normalmente recolhido àquela hora… Fala de uma viagem prevista aos Estados Unidos, para representar algumas peças inéditas, e para filmar “Seis personagens». Certificando-se de que o interlocutor não é do mesmo ofício, fala da crise geral dos autores… É certo que há muitos concorrentes aos concursos em França, mas a qualidade é baixa. Valéry não é poeta, os seus versos têm uma profundidade artificial. Elogia Stève Passeur e Crommelynk. Marcel Pagnol é um caso de sorte. Jean Cocteau tem algumas habilidades curiosas. E não regateia elogios a André Maurois – sentindo-se rendido à literatura russa: «As obras de Dostoievsky e de Tolstoi são eternas. Também admiro Pushkin como precursor destes génios, dos quais o último foi Tchekhov. Se não tivesse morrido tão cedo era hoje um dos primeiros dramaturgos do nosso tempo…». No ensaísmo, entusiasma-se com Ortega y Gasset e Eugénio d’Ors e considera Unamuno «respeitável». Bernard Shaw é um génio, um grande espírito. E Keyserling um «bluff»… Neste ponto, como numa encenação, o táxi chega. Há uma breve correção de rota e Queirós remata: «Desculpe-me, Mestre, se o fatiguei… - Nada. As perguntas não foram indiscretas…».

LEMBRANDO FERNANDO PESSOA…
Maria José de Lancastre fala-nos da receção que teve Pirandello. Lembra o futuro papel fundamental de Gino Saviotti, recorda as revistas «Seara Nova» e «Presença», como janelas abertas para o debate cultural europeu. José Régio ou Eduardo Scarlatti (num laboratório de alquimistas) compreendem bem as modernas tendências. Pirandello traz a Lisboa «Sogno (ma forse no)» e a verdade é que há um certo público culto (não os idiotas!) em condições de perceber que, na peça do italiano, não é a realidade que imita o sonho, mas o sonho do protagonista que produz a realidade. Na primeira parte da comédia, o cérebro goza da privilegiada condição da liberdade, ditada pelo sonho, e torna-se uma espécie de oficina de onde sai um produto real. «O colar de pérolas que no final a protagonista recebe da mão do criado não é portanto uma espécie de coincidência milagrosa». É um sonho às avessas. E o tema era conhecido. Já Pessoa o tratara em «O Marinheiro», publicado no número um de «Orpheu». Robert Bréchon fala do «espetáculo de um espaço não situado, de um não lugar, lugar psíquico mais do que terreno, como se estivéssemos no interior de um cérebro». Ora, como sabemos, «O Marinheiro» é um sonho no sonho. Três veladoras acompanham uma quarta donzela, exortando-se a confiar umas às outras os próprios sonhos. Mas, de facto, elas são sonhos, destinados a dissolver-se no momento em que acordar quem as sonha. Ao sonhar, o Marinheiro evade-se do sonho, dissolve-se e faz dissolver aquelas que, ao sonhá-lo, o fizeram sonhar. E António Tabucchi disse-nos, com a sua lucidez conhecida, que assim a charada pôde solucionar-se: «o Marinheiro resolveu o mistério e alcançou a dimensão da sua pátria, seja ela um arquétipo inconsciente, uma dimensão ‘outra’ ou o Nada, que talvez seja para Pessoa a pátria mais idónea aos sonhos que nós somos». Este pequeno precioso livro está pleno de pistas (impossíveis de aqui resumir), essenciais para a compreensão do curioso encontro imaginário de Pirandello e de Pessoa, talvez chave enigmática de quem somos…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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