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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 8 a 14 de agosto de 2016.

 

A terminar as «Tendências Gerais da Filosofia da Segunda metade do Século XIX» (1890), Antero de Quental diz-nos que “a síntese do pensamento moderno, preparada pelos filósofos, tem de ser a obra coletiva da humanidade culta”. É um texto fundamental da história da cultura portuguesa.

 

  


O ESPÍRITO DA HUMANIDADE
Nesse sentido, salientava Antero, não se pode confundir com “um grande e perfeito sistema, uma impecável civilização dialética; mas será mais e melhor do que isso, um alto ideal comum, um princípio universal de inspiração, falando todas as potências da alma humana, e cada uma na sua língua, acessível e fácil ao coração dos simples, como profundo à penetração das altas inteligências, e tão rico de luzes para a ciência como de estímulos para a consciência”. Tratar-se-ia do espírito da humanidade, nas suas diferenças e complementaridades, que se realiza nas instituições, nos costumes e na vida moral. De facto, a importância de Antero na história da cultura portuguesa liga-se a esta procura universalista – que deve ser vista na encruzilhada entre a herança romântica e a proposta simbolista. O poeta, em carta de 1867 a António de Azevedo Castelo Branco, afirmava que “a rêverie da saudade é para a alma que se deixa envolver nela como a hera para os muros que veste e abraça. A princípio é um adorno, uma gala. Mas as raízes vão entrando dia a dia por entre as pedras mais ligadas, abrindo-as, descolando-as. Quando se lhe acode não é mais já do que uma ruína – uma ruína encoberta e protegida por uma ilusão”. Nuno Júdice, num ensaio de grande interesse, que aqui se glosa, publicado na revista “Colóquio-Letras” (número 185, janeiro de 2014) recorda que nesta consideração estamos perante o conflito anteriano entre razão e delírio. A um tempo, sentimos a atração e a demarcação relativamente à influência romântica de um Garrett. E, em carta a José da Cunha Sampaio, de 1868, temos a recordação de influências antigas: “Byron, o batizador da nossa geração, pôs-nos ao lado dois padrinhos da sua mão, o Desejo e a Paixão; mas Proudhon, o batista da geração futura, dá-lhe outros padrinhos mais seguros, Abstinência e Vontade”.

 


LIGAR POESIA E FILOSOFIA
Do que se trata é de ligar Poesia e Filosofia e, neste particular, Antero de Quental vai desenvolver a sua capacidade criadora entre misticismo e lucidez racional, entre imaginação e razão. Como dirá a João Lobo de Moura: “o essencial, hoje, na Península, não é fazer ciência concreta e fria, para quem ignora os elementos das coisas: é introduzir no espírito público o sentimento moderno e a mesma noção de espírito científico e filosófico” (novembro de 1873). Nuno Júdice salienta, aliás, que, nas primeiras cartas de Antero, há maior nitidez na distinção entre racionalismo filosófico e delírio poético. Mas o tempo foi atenuando essa diferença. Numa carta a Joaquim de Araújo, o poeta elogia os brasileiros que não se limitam em poesia a ser literatos, mas preferem ser verdadeiros apaixonados “arrastados por um fluxo íntimo de sentimentos”. Afinal, há neles “uma sinceridade de inspiração, uma verdade e frescura, uma graça natural de expressão que me encantam” (3.11.1880). Os valores da sinceridade e da paixão caracterizam os “verdadeiros poetas”. E ainda no mesmo ano encontramos a confissão a Oliveira Martins de um certo regresso às origens: “É incrível a desarmonia que há entre a minha razão e o meu sentimento, este, por mais que faça, nunca chega a afinar pelo tom grave e claro daquela. Que fazer? É evidente que a poesia sai do sentimento e não da razão. Aceitemo-nos pois tais como nos fez a natureza. Não se pode exigir ao pinheiro que dê laranjas. Os poetas são como as mulheres: há de se tomar tais e quais, como os defeitos e as qualidades que na sua fatal natureza são inseparáveis”. Mas é na filosofia e pelas ideias que a maturidade criadora se afirma. Daí que Antero se confesse atraído pela Filosofia e pelo seu estudo cada vez mais absorvente. Deste modo, a publicação dos “Sonetos”, graças ao labor do seu dileto amigo Oliveira Martins, corresponde ao fecho de um ciclo de vida – “um documento psicológico”, como as “memórias de uma consciência” (como dirá a Tommaso Cannizzaro, em 24.6-1886). E o poeta confidencia ainda a Carolina Michaelis: “Parece que o estado de inquietação e de luta é que me incendiava e avigorava a imaginação, de sorte que, cessando aquele estado, esfriou ela rapidamente e toda a sua violência se escoou num suspiro. Esse suspiro são os últimos 15 ou 20 sonetos do livro; sem eles, creio que nunca teria publicado aquela coleção”. Aqui está (refere acertadamente N. Júdice) a cabal demonstração de que o poeta seguiu de perto a feitura da reunião dos “Sonetos”, designadamente a ordenação dos poemas, que foi, ao longo do tempo, motivo de polémicas várias…

 


«SONETOS» COMO ESTRUTURA NARRATIVA
Nuno Júdice fala, por isso, de uma estrutura narrativa do volume dos “Sonetos”, com acompanhamento das diversas fases da vida de Antero de Quental, desde o satanismo inicial, de influência romântica e baudelairiana até ao misticismo final – sendo o poema “Na Mão de Deus” uma espécie de intencional fecho de abóboda, que culmina um percurso que a organização procura seguir. Desde o prefácio à ordenação sente-se, assim, uma preocupação de fidelidade ao fraternal amigo por parte de Oliveira Martins. Antero fala mesmo a Wilhelm Storck de “notação de um diário íntimo e sem mais preocupações do que a exatidão das notas de um diário” – que acompanha “as fases sucessivas da minha vida intelectual e sentimental”. No fundo, o poeta sabe que, para si, mais do que as grandes explicações da ciência, “um profundo mistério continua a envolver o universo que ela acaba de explicar: o mistério das ideias, que é o mistério do que na consciência está para além da sensibilidade, região obscura onde assentam essas explicações”. E é nas “Tendências Gerais”, por onde começámos, texto fundamental, que essa chave se encontra – sentindo o poeta necessidade de pedir ao filósofo o completamento da explicitação do que o sentimento revela talvez melhor do que qualquer outra expressão. Dir-se-á, assim que “Sonetos” e “Tendências” correspondem a duas faces de uma mesma moeda que Antero de Quental quis que ficasse evidente no seu legado intelectual e espiritual para os vindouros. O sentimento e a razão completam-se e são reveladores da capacidade criadora da humanidade e da busca de um princípio universal, “falando todas as potências da alma humana (…) acessível e fácil ao coração dos simples, como profundo à penetração das altas inteligências, e tão rico de luzes para a ciência como de estímulos para a consciência”. O lugar de Antero de Quental na cultura portuguesa é singular e significativo. O poeta afirma a diversidade, impossível de simplificação, assente na coexistência de elementos paradoxais e complementares – misticismo e lucidez racional, imaginação e razão, lirismo e tragédia, poesia e filosofia. E Antero viveu dramaticamente essa coexistência…

 


Guilherme d'Oliveira Martins

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