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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS


   De 29 de agosto a 4 de setembro de 2016

 

«Tudo o que Sobe Deve Convergir» de Flannery O’Connor (prefácio e tradução de Clara Pinto Correia – Cavalo de Ferro, 2006) é um conjunto de contos publicados a longo de vários anos, em diversas revistas, tendo sido dados à estampa depois do falecimento da autora. Quando o volume apareceu a crítica foi unânime a considerar a obra como uma das mais importantes não só da grande escritora norte-americana, mas também do seu tempo.

 

 

CAPACIDADE DE SURPREENDER

Flannery O’Connor (1925-1964) é justamente considerada como uma das mais importantes renovadoras do conto norte-americano no século XX. Tobias Wolff afirmou que a escritora era capaz de voltar às mesmas situações sem perder, porém, a sua extraordinária capacidade de surpreender. Há temas recorrentes, mas sempre a autora faz com que pareçam totalmente novos. Estamos perante o que alguns designam como o «renascimento do sul», de que William Faulkner faz parte e onde se incluem, além de Flannery, Tennessee Williams, Robert Penn Warren, além de Eudora Welty, Katherine Anne Porter e Carson Mc Cullers. Este movimento surgiu na década de trinta como reação à ideia de alguns de que seria necessário preservar a identidade dos Estados do Sul, ameaçada pelo industrialismo urbano e pelo fim da tradição rural. Se F. O’Connor tem características bem diferentes de Faulkner na forma de narrar, o certo é que é porventura a autora que, complementarmente àquele, mais fortemente dá um impulso original à literatura do sul – desconstruindo a narrativa tradicional, na denúncia inequívoca de uma visão fechada da realidade social que encontra à sua volta. «Por detrás do jornal, Julian estava a retirar-se para o compartimento interior da sua mente onde passava a maior parte do tempo. Era uma espécie de bolha na qual ele se instalava quando não suportava tomar parte no que se passava à sua volta. A partir daí ele podia observar e julgar, mas, dentro dele, estava a salvo qualquer tipo de penetração do exterior. Era o único sítio onde se sentia livre da idiotice geral dos seus semelhantes. A mão nunca lá tinha entrado – mas, a partir dele, conseguia vê-la com absoluta claridade». Neste breve passo do conto que dá o título a esta reunião de textos, nota-se muito bem o tom geral desta procura de ver a sociedade a partir do avesso.

 

O CULTO DO PARADOXO

Há na romancista um culto permanente do paradoxo, centrado em situações reais, de modo a demonstrar como é possível ver o mundo de modo distorcido e inverosímil. A lógica do fechamento e de um conservadorismo doentio torna-se uma marca que é vista a partir do absurdo – em que a ironia e a comicidade coexistem com a tragédia. Perante a cegueira de quantos se acham um grupo social dominante e privilegiado, há quem pense que a única maneira de agir é pela provocação. Perante a atitude da mãe e de quantos pensam como ela, o filho (fechado no tal compartimento imaginário) começa «a imaginar diversas formas inverosímeis através das quais pudesse dar-lhes uma lição. Poderia tornar-se amigo de um distinto professor universitário ou de um advogado preto e levá-lo para casa para passar o serão. Seria perfeitamente legítimo, mas a tensão arterial dela subiria até aos 300. Não podia pressioná-la de tal forma que ela viesse a ter um ataque e, para além disso, ele nunca tinha conseguido estabelecer amizade com negros». Nestas fantasias, o anti-herói do conto vai sonhando a forma de tentar inverter a lógica absurda que via desenvolver-se à sua volta. E o relato vai-se desenvolvendo, entre a perspetiva onírica de Julian, e a sucessão de aparições de diversos passageiros num autocarro. No início não há negros, mas depois vão aparecendo, até ao momento crucial - «A porta abriu-se com um sibilar de sucção e, saída da escuridão, entrou com um rapazinho uma mulher de cor corpulenta, de aspeto mal-humorado, vestida de forma garrida. A criança, que devia ter uns quatro anos, trazia um fato curto axadrezado e um chapéu tirolês com uma pena azul. Julian desejou que ele se sentasses ao seu lado e que a mulher se comprimisse ao lado da mãe. Não podia imaginar melhor combinação». Quem conhece o método narrativo de Flannery O’Connor percebe que estamos chegados ao «climax». A partir daqui tudo vai poder acontecer, mas não será, em bom rigor, a mulher gigantesca que irá provocar a hecatombe que se anuncia. É a criança, na sua placidez e inocência, que gerará o fecho violento. A mãe de Julian fixa a sua atenção: «Ela manteve os olhos na mulher, e um sorriso divertido espalhou-se-lhe na cara, como se a outra fosse um macaco que lhe tivesse roubado o chapéu. O pretinho olhava para ela com olhos grandes e fascinados». E é a presença da criança que irá gerar sentimentos contraditórios. Se o complexo racial se manifesta perante a senhora recém-chegada, vestida de modo algo semelhantemente ridícula à da mãe intolerante, a verdade é que a criança (não tão adorável como isso…) vai gerar uma inesperada manifestação de suposto afeto. «Não é tão querido?». Os sentimentos vêm à tona – se a mãe enorme é vista com repulsa, o pequeno gera uma estranha simpatia. E, em face da tentativa de Julian evitar o desastre, a mãe não se demove e tem a infeliz ideia de tentar dar à criança uma pequena moeda, de valor diminuto, um cêntimo, a rebrilhar por estar novinho… E a reação não se fez esperar. «A mulher colossal voltou-se e durante um momento ficou ali, com os ombros levantados e a cara congelada de raiva frustrada, olhando para a mãe de Julian. Então, de repente, pareceu explodir como uma máquina que tivesse recebido uma onça de pressão a mais. Julian viu o punho preto afastar-se brandindo a bolsa vermelha. Fechou os olhos e encolheu-se ao ouvir a mulher gritar: “Ele não aceita cêntimos de ninguém!”».

 

UM FIM DRAMÁTICO

O epílogo é tremendo. A mãe de Julian transfigura-se, torna-se outra, dir-se-ia que explode. A irracionalidade manifesta-se plenamente. E Julian vê-se perante o que temia – depois de uma antevisão de um modo de dar uma lição que servisse de emenda para a mãe e para as suas amigas, o que acontece é que um ataque apoplético fá-la soçobrar… Como acontece em vários momentos da sua obra multifacetada, em que a violência aparece como estranha solução, Flannery O’Connor remata a história de um modo dramático… Os diversos contos desta obra inesperada e ao mesmo tempo previsível encerram sempre a ideia de que a razão e a irracionalidade vivem paredes meias. Daí a necessidade de compreender os limites e de saber ponderar os insondáveis caminhos do sobrenatural, sem nos deixarmos aprisionar por eles. É esse estranho equilíbrio que sempre encontramos na fantástica obra de O’Connor. Não há outra que se lhe assemelhe. E é essa originalidade que permite a consideração como um dos nomes maiores da literatura contemporânea. Como disse Gonçalo M. Tavares: «Apesar de ser muito duro e violento, é de uma violência que promove a lucidez»… 

   

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

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