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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 3 a 9 de setembro de 2018

 

«Dramas Imperfeitos – Teatro Clássico Português: Um Repertório a Descobrir» (Eos edições, 2017) de Silvina Pereira é um conjunto de pequenos ensaios que constitui um excelente apelo aos nossos educadores e estudiosos para que o Teatro Clássico português seja lembrado, lido e representado.

 

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PRODÍGIOS E ÉPOCAS FABULOSAS

Almeida Garrett disse, num fundamental discurso parlamentar: “ai da nação que não crê cegamente, e com preconceitos ainda, na sua história (…) e nos prodígios e milagres de suas épocas fabulosas” (1.3.1867). O que o mestre quis dizer foi que sem passado e sem memória não há futuro. A citação é feita por Silvina Pereira em Dramas Imperfeitos. O conjunto de pequenos ensaios que constitui esta obra é um excelente apelo aos nossos educadores e estudiosos para que o Teatro Clássico português seja lembrado, lido e representado. Para além das discussões sobre o que se lê, o que se não lê e o que deveria ler-se, importa que se ponha à disposição de todos a extraordinária matéria-prima da nossa cultura. Não esqueço, ao longo da minha vida, e desde os tempos do Liceu de Pedro Nunes, o exemplo de quem muito me marcou, através do contacto com os clássicos, a começar no teatro. Glória de Matos foi minha professora de teatro. Maria do Céu Novais de Faria marcou profundamente todos quantos fomos seus alunos, ligando intimamente a literatura, o teatro e o bom uso da língua – como fatores naturais de conhecimento e sabedoria. Maria Germana Tânger ensinou que o dizer dos clássicos nos ensina a usar a língua como marca de cidadania… No prefácio aos Dramas, José Augusto Cardoso Bernardes põe o dedo na ferida, ao defender: “o alargamento dos textos literários estudados na Escola, sem que isso implique um aumento de tempo que, no geral, lhes é consagrado. Insisto em que não se trata de reivindicar mais horas para a Literatura; trata-se de tentar que o tempo que já hoje lhe é destinado seja objeto de um aproveitamento diferente, visando dois propósitos conjugados: proporcionar mais oportunidades de contacto com textos e escritores menos considerados e abrir possibilidades de leitura, para além do tempo escolar”. Eis a chave do problema. Isto é muito mais importante do que cairmos no puro formalismo das leituras obrigatórias, que poderão agravar uma praga contra a qual continuo a combater, que é a dos resumos – sem contacto com os textos originais. Concordo plenamente com Cardoso Bernardes, do mesmo modo que discordo das propostas de aumento de horas para matérias específicas. E concordo com a “possibilidade de incorporação nos programas de textos devidamente antologiados e acompanhados de informação histórico-literária”. Não esqueço que a criação da Rede das Bibliotecas Escolares (na origem, com Teresa Calçada) e a ligação ao Plano Nacional de Leitura têm constituído contributos decisivos para considerar a Escola, mais do que um conjunto de disciplinas e áreas separadas entre si, como uma comunidade onde o diálogo entre saberes se constitui em fator de enriquecimento mútuo e de descoberta do mundo da vida. Diga-se, aliás, que esta visão de conjunto tem a ver com a criação cultural assim como com a formação cívica. António Sérgio ensinou-nos, por isso, que a Educação Cívica tinha a ver com a República Escolar – e esta não poderia ter existência se não houvesse cidadania cultural, liberdade e responsabilidade.

 

A IMPORTÂNCIA DO TEATRO

Tudo o que refiro tem a ver com a importância do teatro. Desde tempos imemoriais, estamos perante um meio com efeitos pedagógicos incontestáveis. Por isso, mestre Gil foi “habilíssimo em dizer verdades disfarçadas entre facécias; Gil acostumado a censurar (maus) costumes entre leves gracejos” – no dizer de Lúcio André de Resende. Como lembra Silvina Pereira, “as palavras são ações e intenções”, trabalhando o encenador “de acordo com as exigências do seu próprio tempo e da plateia a que se destina”. E como disse Peter Brook: “a peça não pode ‘falar por si mesma’, é preciso ‘extrair-lhe o sentido’, saber ‘fazê-la cantar’ – e esse desígnio realiza-se com a sua representação”. E quanto aos clássicos, importa manter vivo o acervo dramático fundamental de uma língua e literatura tão antigas… Quem encontramos nos textos desta obra? Gil Vicente, Sá de Miranda, António Ferreira, António Ribeiro (o Chiado), Diogo de Teive, Baltazar Dias, António Prestes, Luís de Camões, Jerónimo Ribeiro Soares, Simão Machado e Anrique da Mota… Mas permitam-me que me atenha especialmente em Jorge Ferreira de Vasconcelos, tesoureiro do Armazém da Guiné e da Índia. Silvina Pereira tem-se dedicado ao estudo da obra deste autor, cujo lugar no repertório do teatro clássico português e peninsular se revela de relevância significativa.

 

UMA OBRA FUNDAMENTAL

Foi Vasco Graça Moura quem, com conhecimento de causa e uma grande sensibilidade para as coisas realmente importantes, chamou a atenção da estudiosa e mulher de teatro para a necessidade de dar atenção dobrada a Ferreira de Vasconcelos. E assim aconteceu. De facto, a “Comédia Eufrosina” (ao lado da “Comédia Ulissipo” e da “Aulegrafia”) tem uma importância especial. Há uma relação estreita, por exemplo, com o “Auto do Filodemo” de Camões, representado provavelmente em 1555 em Goa, enquanto a Comédia foi escrita e representada em Coimbra no ano de 1542, tendo sido editada também em 1555. A obra saiu anónima e entrou no Index de livros proibidos, em 1581, depois de ter tido, entre a primeira edição e 1566 quatro edições, o que bem demonstra o sucesso alcançado. Lope de Vega foi o maior admirador da obra e Quevedo escreveu o prefácio da versão castelhana de 1631. Menendez y Pelayo, na edição de 1910, enfatizou o facto de a obra-prima de Ferreira de Vasconcelos ter dimensão ibérica, a ponto de exercer forte influência em “La Celestina”, a Comédia e a Tragicomédia de Calisto e Melibea, obra mista por muitos considerada como pioneira do romance e do teatro moderno. Francisco Rodrigues Lobo editou a versão censurada em 1616 e a mesma foi mantida até 1786. Em 1919, reconhecendo a grande importância da obra, Audrey Bell fez publicar a Comédia pela Academia das Ciências, a inaugurar a coleção dos “Monumentos da Literatura Dramática Portuguesa” e, em 1951, Eugénio Ascensio descobriu e editou em Madrid a edição prínceps de 55. Apesar da extensão e da erudição, a obra de Jorge Ferreira de Vasconcelos, é um repositório com um “vocabulário engenhoso, gracioso e subtil”, que corresponde a um “poderoso motor da ação”. A donzela Eufrosina é vencida pelo amor, pelas mil razões expostas por Zelótipo. As tramoias do Doctor Carrasco são desmontadas pela argumentação sábia de Filótimo… E as palavras são leves, rápidas, precisas, visíveis, múltiplas e consistentes. António Tabucchi tinha pelo “Pranto de Maria Parda” de Mestre Gil uma especial afeição. Considerava-o como um símbolo do carácter picaresco da nossa literatura. E, como a autora acertadamente refere, o “Pranto” parece ter contribuído “para o gosto de dizer e fazer teatro”. Veja-se como na “Comédia Aulegrafia” J. F. de Vasconcelos caracteriza o moço Cardoso como amante e ator de teatro, dizendo que sabia “de cor as trovas de Maria Parda e entra como fegura no Marquês de Mântua”. Assim, como passar indiferentes pelo sério apelo do teatro clássico?

 

Guilherme d'Oliveira Martins